Ler Leminski

Paulo-Leminski-620x400“Não discuto com o destino, o que pintar eu assino”, assim expressou o bigodudo curitibano, imagino estava segurando um copo transbordando vodka. Paulo Leminski foi uma figura múltipla: poeta, compositor, tradutor, biógrafo, professor de cursinho e faixa-preta de judô. Desde rebento devorava livros, prematuramente aprendeu latim e decidiu abraçar a marginalidade poética emitindo seus primeiros textos no mimeografo. Quando escolhe não discutir com o destino, a sua assinatura deixa marca para o futuro.

Durante o primeiro semestre de 2013, a Companhia das Letras lançou, em parceria com sua ex-companheira e também poeta, Alice Ruiz, a primeira antologia do escritor. As obras, bem como as que não foram publicadas, agora fazem parte do livro “Toda Poesia”, diga-se “este silêncio, acredito, são suas obras completas”

A meu ver é merecida a homenagem ao escritor ultimamente retornado às bocas dos adolescentes declamando seus haikais e muitas vezes postado nas redes sociais, demonstrando admiração e identificação às simples palavras, mas de variadas interpretações. São jovens e adultos que conheceram as palavras atemporais de Leminski por meio de rodas etílicas de conversas e saraus – pois nas décadas de 1980 e 1990 era raro encontrar um livro do poeta – na busca de determinar “isso de ser exatamente o que se é ainda vai nos levar além”.

Comigo não foi diferente, meu primeiro contato com as palavras do Leminski foi em um sarau elaborado por amigos graduandos do curso de Letras – um ano depois me tornaria calouro deles. Depois de várias doses de bom álcool abríamos os papeis e recitávamos o que “o homem com uma dor” havia de expressar e perturbar a nossa mente. Foi Leminski o culpado do meu ingresso às Letras.

No livro, além de Alice Ruiz, que assina o prefácio, estão presentes comentando e relembrando alguns momentos junto a Leminski, o compositor José Miguel Wisnik, o cantor Caetano Veloso, os críticos literários Haroldo de Campos e Leyla Perrone-Moisés. Um destaque a expressar está na publicação das poesias elaborada à mão pelo poeta, apontando os traços artísticos na construção dos haikais. Outro aspecto são os comentários na nota do editor no começo da cronologia literária, indicando referência feita pelo poeta, ano original de publicação e parcerias nos poemas, ajudando o leitor na pesquisa da obra. Além do deleite a cada virada de página.

“Leite, leitura/letras, literatura/tudo o que passa/tudo o que dura”, evidente que a leitura de Leminski vai durar por anos, desde a sua despedida, em 1989, nesta dimensão o poeta bigodudo experimentou diversas estéticas, não classificava arte preferia desvendar e aprimorar cada ponto final para determinar uma ideia. As expressões confusas da vida, independente de como se leva, o poeta apontava que “viver é super difícil/o mais fundo está sempre na superfície”.

Ler Leminiski está na certeza de “que aconteça o contrário/custe o que custar”. É para te confundir e ao mesmo tempo entender que toda a poesia do bigodudo é um fio em queda até a boca e incomoda versos antes de barbear o significado. Ler Paulo Leminski é “o pau na vida/o vinagre/vinho suave”, faz do sujeito a agonizante sensação de ser puxado para o copo de vodka, afogando-se no puro teor alcoólico para desgastar soluços tortos ao fim da poesia. Ler Leminski é saber que “Escrevo. E pronto”.

Livro: Toda Poesia
Autor: Paulo Leminski
Editora: Companhia das Letras
Preço médio: R$40
Jorge Filholini

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