A confissão da leoa e o rugido dentro da mulher

capa-do-livro-a-confissao-da-leoa-de-mia-couto-1351788841927_719x1080Desde “Terra Sonâmbula” Mia Couto é definido por mim – evidente que não sou o único – como um dos maiores escritores de língua portuguesa da atualidade. No livro já citado, encaramos a epopeia contemporânea do velho Tuahir e o menino Muidinga,  em uma Moçambique arrasada pela guerra civil. Logo nas primeiras páginas o relato do ônibus que serve de abrigo para os dois já informa a situação da carcaça devido o resultado da conflagração. Esta obra-prima, escrita em prosa-poética, enfatiza o cuidado que Mia Couto teve para relatar um recorte histórico da indefinida “pátria” nas terras africanas.

Anos depois, abri as páginas de mais uma obra do mestre moçambicano, por meio de um amigo, que exaltado após a leitura completa do romance, pousou o livro no meu colo e me obrigou a lê-lo. Não hesitei, como havia comentado fazia tempo aguardava momento oportuno para ter mais uma conversa com Mia Couto. A tal obra que deixou meu caro em êxtase é o novo do autor, “A confissão da leoa”.

A estrutura que Mia Couto adotou para o livro me interessou, assim como ele modelou “Terra Sonâmbula”, em “A confissão da leoa” a história é narrada por meio de diários – alternados por capítulos – relatados pelos dois protagonistas, o caçador Arcanjo Baleiro e a moradora da aldeia Mariamar. O experiente caçador, em sua última função, vai até Kulumani, aldeia e lar onde mora a esperançosa Mariamar (em bela junção das palavras “mar” e “amar”), para finalmente controlar os ataques de leões na comunidade. Não pretendo me ater a todo o enredo do livro, vou especificar a importância da obra em um assunto apontado pelo autor em relação às condições precárias na rotina de Mariamar, mexendo com um problema ainda não solucionado em nossa sociedade.

Um dos temas centrais do romance é o desgaste da cultura dominada pelo machismo. Os monólogos interiores de Mariamar, como dito por meio de seu diário, retrata o drama da personagem na relação com o pai e os homens da aldeia, em que a voz feminina é ocultada pela posição patriarcal. Mariamar relata que as mulheres da comunidade são objetos de procriação e exclusivas para a manutenção do lar, obedecem caladas aos comandos dos maridos. Traços estes ainda enraizados em grande parte do mundo, tornando a obra universal na temática da exploração da mulher no âmbito social.

A metáfora da leoa pode ser entendida não apenas pela investida que aterroriza a aldeia, mas a figura do animal escondido no interior de cada mulher, à espreita para o ataque ferrenho aos abusos de poder regidos pelos homens. A leoa torna-se símbolo do distúrbio dessa cultura, em um trecho destacado pela protagonista a mudança de caráter estará “até que os deuses voltem a ser mulheres, ninguém mais nascerá a luz do Sol”. A leoa, designada à caça, é omitida pela imagem imponente do macho, assim como o peso da aldeia enfrentado por Mariamar é oprimida pela posição do homem na configuração da sentença final. A leoa fornece a desestruturação dos critérios já ultrapassados em torno da aldeia, sendo necessário um sinal de mudança, mesmo que seja marcado por um evento sangrento, na posição governamental de modo a cicatrizar na pele da mulher toda a ferida exposta em anos de exploração.

Mia Couto de forma engajada elaborou uma obra em que especifica as dores das mulheres submetidas à repressão machista. A voz de socorro por meio do diário pede mais liberdade de expressão, equilíbrio humano e determinação nas leis submetidas à valorização de seus direitos, tornando necessário a elas o rugido contra esta caça.

Livro: A confissão da leoa
Autor: Mia Couto
Editora: Companhia das Letras
Preço médio: R$40
Jorge Filholini

4 comentários sobre “A confissão da leoa e o rugido dentro da mulher

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