As Grades da Liberdade

tumblr_inline_mvpc27vta41sozhxgSer livre é muito complicado. Se quero fazer do agora um ponto 0 da vida, caio na má-fé enganado pela transcendência. Se quero honrar meu passado, indo a ele sempre para pensar meu futuro, caio na má-fé enganado pela facticidade.

Jean-Paul Sartre condensou esse Dilema de forma genial ao dizer que “o ser humano é condenado a ser livre.” Responsabilidade demasiada pesada que nos faz correr dela a vida toda por meio de certas “muletas existenciais”, sempre negando que somos um ser de possibilidades.

Há um cardápio enorme de muletas. O item mais escolhido, por ser o mais barato, são as religiões que prometem um post mortem. Tomei o cuidado de não generalizar e escrever “religiões” no geral porque, de um certo modo, podemos considerar até o ateísmo como uma religião, a  religião da fé na finitude. No entanto, a diferença entre essas duas fés até uma criança que joga Super Mario World sabe, afinal, todas elas sabem que pular o buraco gigante entre um cano e o barranco se torna muito mais angustiante quando se tem apenas 1 vida ao invés de 99.

Mas pior muleta de todas é o hábito. Quando fazemos qualquer coisa por hábito e não por vontade própria estamos vivendo, como Martin Heidegger também genialmente explicou, de forma inautêntica. Ou melhor, somos um ser inautêntico, porque dizer “viver de forma inautêntica” é um perfeito paradoxo.

O lado mais conhecido da habitualidade é o tédio, e aqui tanto filosofia quanto cristianismo parecem concordar, afinal, em Eclesiastes (1, 1-10) temos um perfeito relato de um “doente” de tédio. Mas é apenas um ponto em comum efêmero, que filosofia e cristianismo dão remédios bem diversos. A primeira mostra que isso ocorre porque o sujeito deixou de viver, a segunda diz que isso ocorre porque o sujeito deixou de viver para… Não gosto muito de gramática, mas esse é um caso onde ela é bem útil para mostrar o poder de uma oração subordinada adverbial.

Então, qual a saída para tudo isso? Assumir o fardo do existir e a sua contraparte, a angústia causada pela consciência de que tudo isso terá um fim com a nossa morte e selada pela incompletude. Friedrich Nietzsche de forma brilhante (para não ser repetitivo) deu a solução para esse Dilema com a bela alegoria do eterno retorno. Basicamente, cada atitude que tomamos deve ser feita como se quiséssemos tomá-la infinitas vezes mais e exatamente na mesma situação.

Atentar-se ao vocabulário aqui é útil, do contrário, podemos dar a esse Dilema uma solução neokantiana. Todo esse percurso só será legítimo se quisermos percorrê-lo e ilegítimo se tivermos de percorrê-lo. E aqui entramos em outra versão desse Dilema, a relação entre o dever e o querer, e suas variáveis como: o querer dever e o dever querer.

Parando por aqui, pois entramos em lugares do pensamento ainda escuros para nós, há uma questão que chegamos: como alguém pode ter depressão depois desses três filósofos?

Trechos dos textos que consultamos:

«E se um dia ou uma noite um demônio esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: “Esta vida, assim como tu a vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez mais e ainda inúmeras vezes; e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indizivelmente pequeno e de grande em tua vida há, de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência – e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez – e tu com ela, poeirinha da poeira!” – Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasse assim?

Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderias:

“Tu és um Deus, e nunca ouvi nada mais divino!”.

Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse; a pergunta, diante de tudo e de cada coisa:

“Quero isto ainda uma vez e ainda inúmeras vezes?” Estaria como o mais pesado dos pesos sobre teu agir! Ou então, como terias de ficar de bem contigo mesmo e com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação?»

(F. NIETZSCHE “A Gaia Ciência” § 341)

«A cura é ser-para-a-morte. A de-cisão antecipadora foi determinada como ser próprio para a possibilidade característica da absoluta impossibilidade da pre-sença. Nesse ser-para-o-fim, a pre-sença [o ser humano] existe, total e propriamente, como o ente que pode ser “lançado na morte”. Ela não possui um fim em que ela simplesmente cessaria. Ela existe finitamente.»

(HEIDEGGER; “Ser e Tempo”)

«Dostoievski escreveu (sic*): “Se Deus não existisse, tudo seria permitido”. Eis o ponto de partida do existencialismo. De fato, tudo é permitido se Deus não existe, e, por conseguinte, o homem está desamparado porque não encontra nele próprio nem fora dela nada a que se agarrar. Para começar, não encontra desculpas. Com efeito, se a existência precede a essência, nada poderá jamais ser explicado por referência a uma natureza humana dada e definitiva; ou seja, não existe determinismo, o homem é livre, o homem é liberdade. Por outro lado, se Deus não existe, não encontramos, já prontos, valores ou ordens que possam legitimar a nossa conduta. Assim, não teremos nem atrás de nós, nem na nossa frente, no reino luminoso dos valores, nenhuma justificativa e nenhuma desculpa. Estamos sós, sem desculpas. E o que posso expressar dizendo que o homem está condenado a ser livre. Condenado, porque não se criou a si mesmo, e como, no entanto, é livre, uma vez que foi lançado no mundo, é responsável por tudo o que faz.»

(SARTRE; “O existencialismo é um Humanismo”)

 *Até onde me consta, essa frase não aparece dessa maneira em Os Irmãos Karamázov.

– Mais textos escritos por Alexandre Reis é só acessar o Tumblr Prática Crítica

Alexandre Reis

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