As interpretações do filme “On the Road”

on_the_roadÉ pedantismo achar semelhanças concretas ao assistir um filme que foi construído tendo como base uma obra literária. Inclusive se o romance é complexo, obtendo diversas interpretações diante de seu enredo. Ninguém espera que a obra-prima “On The Road” do escritor norte-americano, Jack Kerouac, seja adaptado por completo em outro objeto estético, no caso o cinema. Infelizmente aconteceu este fato e o recente filme do diretor brasileiro Walter Salles foi mornamente recebido por críticos e fãs da geração Beat.

Sejamos sóbrios nesta questão, quando se adapta um romance a preocupação não é fidelidade, mas extrair as interpretações que o roteirista e o próprio diretor tiveram após a leitura. Ora, cada um, depois de lida a última página no romance, constrói sua própria opinião em relação ao que o escritor pretendeu transmitir.  No meu caso, o primeiro contato que tive com On the Road foi quando eu era apenas um vestibulando. Um amigo havia lido e comentou comigo na mesa de um bar sobre o tal livro.

Durante a conversa ele afirmava que o livro de Jack Kerouac mudou sua vida, essa afirmação se tornou o estopim para me interessar no romance, já que eu estava em um período conturbado de escolher que vida acadêmica seguir ou se era mesmo uma vida acadêmica que eu pretendia  obter. Dito e feito, semanas depois de terminado a leitura daquela viagem pelos Estados Unidos do pós-Segunda Guerra Mundial concordei com o meu amigo e, sem exageros, On The Road também mudou a minha vida.

Anos depois, volta à tona a sensação boa de rever essa travessia, agora com a adaptação para o cinema do romance de Kerouac, tendo como direção as mãos de Walter Salles – mestre da obra prima Abril Despedaçado. Estarrecido fiquei em finalmente descobrir como seriam adaptadas as características de Sal Paradise e Dean Moriarty alucinados e frenéticos, juntos com outros companheiros, a percorrer as maravilhosas estradas desérticas do interior norte-americano.

on-the-road-movie-image-sam-riley-garrett-hedlundO roteiro, do porto-riquenho Jose Rivera –  que também esteve com Salles na elaboração do roteiro de “Diários de Motocicleta” -, adaptou solenemente alguns momentos importantes do livro, destaque para a cena inicial em que mostra Sal Paradise (Sam Riley) pegando carona num caminhão com a capota descoberta. Na obra parecia apenas uma passagem do personagem rumo a Denver –  no consenso literário este trecho pode até ser de imediata sequência, pois devido a sua escrita autômato a obra não abordou a relação pujante do olhar observador de Sal ao choque de cultura. No filme nota-se a poesia em retratar ao espectador o contraste do homem do interior com o mochileiro suburbano, deixando tudo harmônico ao som de jazz como trilha sonora, sendo este quase um personagem a parte no livro e filme.

O contato dos personagens com os vários costumes do homem americano é o ponto alto do filme. As pessoas que passam por eles no decorrer da estrada são de personalidades fortes, acrescentando inspiração no caráter de ambos. As cenas em que Dean – na ótima atuação de Garrett Hedlund – aparece é crítica corpórea dos costumes das pessoas dos anos de 1940, nos Estados Unidos, tornando-se evidente a transformação do anti-herói que serve de inspiração para Sal escrever seus relatos das idas e vindas pelo Oeste americano. A tônica do enredo está no crescimento da conduta dos personagens, uma metáfora das tantas viagens pelas estradas de modo a encontrar um lugar que complete o desejo escondido de se adaptar de acordo com a escolha de seu interior. No meio do conhecimento interno, as drogas e o sexo aos poucos são as armas de combate aos padrões, já arcaicos, convencionados a uma sociedade que necessita da mudança de seus costumes.

on-the-road-movie-image-sam-riley-1A maturidade de ambos os companheiros aparece no decorrer da convivência pelo Oeste americano, sendo decisivo nas escolhas a serem tomadas durante as andanças pelas estradas. O futuro responsável que aos poucos vai domando a vida se torna conduta diferente no valor da amizade de cada um. Diante disto, Walter Salles conseguiu brilhantemente conduzir em mais de duas horas de película, articulando esperanças e desavenças de uma juventude rebelde à procura de um caráter que não seja o mesmo escolhido pelo cenário social.

On the Road não é adaptação, mas a interpretação adquirida a cada pessoa que leu a obra, portanto Rivera e Salles entregaram o olhar sul-americano do enredo vivenciado por Kerouac em torno do país levantado de uma recente grande guerra e a amizade ainda fiel, encontrada por Sal e Dean, em um período onde a confiança entre humanos estava completamente abalada, bem como o medo do próximo dia ser conturbado com a volta de sombrios conflitos bélicos.

On The Road é um filme que merece ser visto pelas pessoas em dúvidas sobre as escolhas do futuro ou mesmo as pessoas que têm vontade de colocar a mochila nas costas e partir rumo não só ao conhecimento exterior, mas na descoberta interna. Vale ressaltar, que o filme, assim como o livro, serão por anos o melhor entendimento documental da juventude de um determinado período e sobre qual rumo seguir perante uma sociedade cada vez dinâmica, rumo à distopia social e sem tempo de colocar o pé na estrada.

Filme: On The Road

Ano: 2012

Direção: Walter Salles

Elenco: Sam Riley, Garret Hedlund, Kristen Steward.

Gênero: Drama

Jorge Filholini

2 comentários sobre “As interpretações do filme “On the Road”

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