Clarice: a pior vontade de viver

20101102110004!Clarice_LispectorA antítese do amor à própria vida em relação ao amor à vida alheia nos intriga no conto “Amor”, de Clarice Lispector, presente no livro “Laços de Família”. Na narrativa a existência da personagem Ana é descrita sob o rotineiro modo de viver ao qual está habituada. Por escolha própria, após as inquietações de sua juventude, casa-se e com filhos pequenos opta por viver em função de sua família. Ana decide ser útil e organizar de algum modo a vida dos que a cercam, entende que este é o único caminho para se construir raízes e solidez necessárias.

Era um dia comum, ao voltar para casa em um bonde com as compras para o jantar, ela faz algo não habitual, reflete sem querer sobre a mesmice de seus dias. Pelas ruas em que passa observa a vida em movimento e de repente percebe a presença de um cego que masca chicletes naturalmente. O comportamento deste homem a deixa hipnotizada, perplexa e algo rompe-lhe a doce e morna compreensão do que é felicidade. A piedade sentida fez emergir um mundo real, de sofrimento e obscuridade paralela à realidade construída e protegida que conhecia perfeitamente em seu apartamento no nono andar.

Ana sentiu pelo cego uma piedade amarga, que lhe causou dor e náusea, tal sentimento fez com que um choque abrupto a deixasse perdida em sua própria concepção do que seria a vida. Esta piedade estava em suas próprias atitudes em relação aos demais, então um forte conflito psicológico a fez questionar sobre o amor piedoso, doado aos outros tão facilmente e sobre onde estaria o amor a sua própria existência. A partir deste incomodo o mal estava feito, pois mesmo sem respostas uma questão existencial fora absorvida pela personagem e despertara a pior vontade de viver. Sim a pior, aquela que repentinamente nos faz questionar sobre o que realmente estamos destinando ao que chamamos de felicidade. Esta vontade peculiar quer satisfazer os anseios individuais, não quer obedecer às regras e desejos depositados pelo outro, é aquela que não está incluída em nenhum tipo de imposição social ou moral. É algo que construímos aos poucos em nosso interior, que explode em um dia comum e que exige demasiada coragem e elucidação para mudar os caminhos a serem percorridos.

Poucas horas, início da tarde até o final da noite, este fora o período de inquietação de Ana, perdida chegou ao Jardim Botânico e reconheceu na natureza a vida, a morte e o apodrecimento natural das coisas. Viu-se parte integrante deste mundo, enxergou-se, sentiu admiração e nojo ao mesmo tempo“. Como a repulsa que precedesse uma entrega – era fascinante, a mulher tinha nojo, e era fascinante.” Estava extasiada diante desta nova percepção.

Ao voltar para casa nada mais era como antes, a brancura encontrada em todas as coisas nenhuma relação possuía com o que acabara de viver, algo naquele lar dissimulava sua própria cegueira. Mas imersa novamente a esta realidade, esqueceu-se desses devaneios, ou preferiu esquecê-los, fora então levada pelo marido ao quarto, que a afastou do perigo de viver. Sim a vida era verdadeiramente perigosa e o amor ainda mais.

Michele Barboza

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