Luiz Ruffato: “Eu me dei como tarefa tentar representar a camada social baixa na literatura brasileira”

img_9189O escritor Luiz Ruffato proferiu, na última segunda-feira (16), uma palestra na abertura da 17º Jornada de Letras, organizada pela Coordenação do Curso de Letras da Universidade Federal de São Carlos (CCL-Letras). Sempre bem-humorado, durante a palestra Ruffato discorreu sobre sua infância em Cataguase (MG), onde teve o primeiro contato com a Literatura, assim como sobre sua carreira de jornalista e atualmente sobre a escolha de dedicar-se exclusivamente como escritor.

Vencedor de diversos prêmios na área literária, Luiz Ruffato consolidou sua carreira ao publicar, no ano de 2001, o romance “Eles eram muitos cavalos”, no qual retrata as peculiaridades das camadas sociais na cidade de São Paulo. Durante quinze anos, Ruffato também escreveu a pentalogia “Inferno Provisório” – publicada entre 2003 e 2012 –, onde propõe uma reflexão a respeito da passagem do Brasil de uma sociedade rural, na década de 1950, para uma sociedade pós-industrial, no fim do século XX.

Em entrevista para o Livre Opinião, Ruffato explicou o intuito de representar a cidade de São Paulo em seus livros: “Escrever sobre São Paulo foi uma espécie de pedágio que eu queria pagar para poder compreender um pouco o lugar onde eu estava vivendo”, assim como sua relação com a capital paulista: “Eu moro há 23 anos  em São Paulo e a minha relação com a cidade também é de amor e ódio”. Ele destacou a importância do escritor em retratar, na literatura brasileira contemporânea, a camada social baixa: “descobri que essa camada baixa não estava sendo representada, então minha decisão foi no sentido político. Eu me dei como tarefa tentar representar a camada social baixa na literatura brasileira”.

Outro aspecto apontado pelo autor foi sobre o seu romance se tornar um documento histórico na transição de século: “Eu gostaria, isto é só um desejo, que “Eles eram muitos cavalos” fosse um documento histórico, sociológico, político do momento da transição, simbolicamente, do século XX para o XXI”. Ruffato também explicou quais eram os muitos cavalos que participaram das manifestações deste ano: “A meu ver, houve várias manifestações e cada uma delas teve uma característica específica”.

Livre Opinião: De Cataguases-MG para São Paulo. O que te estimulou em representar a capital paulista em seus livros, bem como descrever a camada social baixa na literatura brasileira contemporânea?

Luiz Ruffato: Para mim, escrever sobre São Paulo foi uma espécie de pedágio que eu queria pagar para poder compreender um pouco o lugar onde eu estava vivendo, além de exercer um exercício formal para escrever um projeto que era o meu projeto de vida literário, o “Inferno Provisório”. Eu já tinha claro esse projeto no ponto de visto do conteúdo, mas eu não sabia como executá-lo, então tive que escrever “Eles eram muitos cavalos” para compreender que tipo de linguagem eu podia utilizar e só depois que o terminei e publiquei tive condições de realmente sentar e produzir  o  “Inferno Provisório”, que me demandou 15 anos. Escolhi escrever sobre a camada da classe média baixa porque sou dessa origem. Minha mãe foi lavadeira de roupas e meu pai foi pipoqueiro.  Eu fui operário têxtil, logo em seguida torneiro mecânico e quando eu comecei a ler literatura brasileira com mais interesse descobri que essa camada baixa não estava sendo representada, então minha decisão foi no sentido político. Eu me dei como tarefa tentar representar a camada social baixa na literatura brasileira.

Livre Opinião: A seu ver, como a literatura brasileira contemporânea está representando o mundo que nos cerca e qual a importância do escritor nesta geração? Ele precisa escrever para uma determinada classe intelectual ou quer abranger mais público no sentido de divulgar suas ideias e opiniões, enfim, fazer literatura?

Luiz Ruffato: A Literatura, dentre todas as artes, talvez seja a mais estranha.  Porque, por exemplo, você pode ser um músico sem ter estudado música, você pode ser cineasta sem ter feito a educação formal nesta área, você pode fazer artes plásticas sem também fazer uma área voltada à esta, mas você não pode fazer Literatura sem ter tido uma educação formal. E isto é o problema. Acontece que quem pode fazer educação formal é a classe média e não é só saber ler e escrever, mas é necessário ler e escrever bem. A Literatura fica representando a si mesma e a classe média é a que estuda, portanto, ela estará sempre se representando. Se você pensar em termos mais amplos, a Literatura Brasileira, muitas vezes, fica bastante limitada a um olhar da classe média sobre a própria classe média.  É inevitável que isso aconteça por conta da questão que temos uma educação formal no país de péssima qualidade. É quase impossível alguém que não é da classe média alta ter uma educação formal suficiente para se tornar escritor. Eu sou uma exceção, e essas exceções só confirmam as regras. Então, é um grande problema que nós temos que enfrentar neste sentido.

Livre Opinião: Em “Eles eram muitos cavalos” o ápice de consciência, por assim dizer, da decadência do sistema político e social da cidade de São Paulo – e, por que não, do Brasil e de todo o mundo capitalista – não se dá não através da “voz” de algum intelectual que a tudo observa e analisa do alto de uma torre de marfim. Ao contrário, dá-se pelo “Crânio”, personagem que talvez experiencie um dos contextos mais hostis da metrópole. O que isso quer ou pode querer dizer?

Luiz Ruffato: É uma ótima observação, porque sem dúvida é o único momento que aparece alguém efetivamente com uma consciência sobre o entorno. No livro, é o tempo todo pessoas que tem uma consciência relativa de sua própria vida e algumas vezes uma consciência sobre algo maior. Por exemplo, as pouquíssimas vezes que isso acontece, acontece de uma maneira virada, o traficante de armas tem consciência disso, mas ele é um traficante de armas. No entanto, vou te responder como um leitor e não como autor, pois como autor eu não sei qual foi a intenção, então vou te falar como leitor Luiz Ruffato (risos). Eu acho que a proposta em “Crânio” é exatamente de inverter essa discussão, o único efetivo ali é uma pessoa que não trabalha – porque ele está naquela situação de marginalidade –, mas também a que tem uma visão de mundo extremamente particular, porque tem um momento em que o irmão diz ser a favor de ocupação de casa – reforma habitacional –, de assaltar bancos para distribuição de renda, enfim, são reivindicações muito específicas e que nem mesmo a esquerda brasileira fez, o que é curioso. Então, em “Crânio” existe uma proposta de engajamento político muito concreta, tanto que ao mesmo tempo o leitor é que detém a arma, é ele que guarda as armas. Essas armas podem ser simbólicas ou podem ser reais, não sei, mas eu acho uma ótima observação esta pergunta, pois poucas pessoas percebem o discurso que existe por trás dessa representação, evidentemente é de um grande deboche, mas é um deboche do autor, eu falo como leitor, de repente ele pode nem achar isso tudo que eu falei (risos).

Livre Opinião: Em sua opinião, “Eles eram muitos cavalos” contribui como documento histórico de um retrato da São Paulo na transição de novo século?

Luiz Ruffato:  Para mim, a literatura de qualidade – e não estou dizendo que “Eles eram muitos cavalos” seja literatura de qualidade –, tem uma característica muito específica. Uma delas é a escrita em um determinado tempo em que discute as coisas de seu tempo, mas transcendendo aquele tempo. Ela é escrita em uma determinada língua, transcendendo a sua própria língua. Além de ser escrita em determinado espaço, ou seja, ela está vinculada a um determinado momento histórico. Portanto sim, ele [Eles eram muitos cavalos] pode representar a transição de um capitalismo incipiente, pode-se dizer mais selvagem. Mas se ele for um bom texto, ele vai transcender isso, colocando questões que são para além de um momento histórico. Eu gostaria, isto é só um desejo, que “Eles eram muitos cavalos” fosse um documento histórico, sociológico, político do momento da transição, simbolicamente, do século XX para o XXI. Também é um momento de passagem de uma sociedade protocapitalista para uma sociedade pós-capitalista, sem nem ter passado por uma sociedade capitalista, o que é curioso, mas que ao mesmo tempo essa literatura de qualidade pudesse ser vista como os dramas humanos estão descritos, colocando-os de uma maneira em outro patamar. É o que eu gostaria.

Livre Opinião: Seu olhar para a criatura humana é inovadora e ousada no sentido de descrever a dicotomia do homem em relação à cidade, gerando amor e ódio – o indivíduo na tentativa de se erguer às precariedades da metrópole. No caso de “Eles eram muitos cavalos” e da cidade de São Paulo, para você, qual seria este amor e ódio em retratar essas tantas criaturas humanas numa profusão de contextos que são as linhas formadoras do tecido da capital paulista?

Luiz Ruffato: Na verdade, São Paulo tem algumas características que eu acho curiosas, porque ela é um microcosmo do Brasil. Por exemplo, podemos encontrar em São Paulo o mais avançado capitalismo brasileiro, que é o capital financeiro da Avenida Paulista, ao mesmo tempo o Hospital das Clínicas que tem o de mais avançado em termos de tratamento de saúde da América Latina, ainda existe a maior frota de helicópteros do mundo. Enfim, você vai tendo o melhor de todo o mundo e ao mesmo tempo existem pessoas que morrem nas periferias de disenteria, miseráveis que sequer vão ter qualquer tipo de esperança de conquistar algum espaço na sociedade. Em São Paulo também existe o transporte onde as pessoas demoram de duas a três horas para irem até o trabalho e depois mais três horas para voltar para casa. Então, São Paulo é a contradição, ela é uma dicotomia o tempo todo crescente e inclusive no amor e ódio. Um exemplo, eu moro há 23 anos em São Paulo e a minha relação com a cidade também é de amor e ódio. Eu adoro São Paulo, gosto demais, dificilmente conseguiria viver em outra cidade, mas ao mesmo tempo é uma cidade extremamente dura, cruel. Eu sei disso, mas não é São Paulo e sim o Brasil. Quando eu vou para o exterior fico morrendo de vontade de voltar para cá. É por causa do clima, da comida, das pessoas, etc. Mas quando eu estou no Brasil, eu vejo o quanto que nós poderíamos ser infinitamente melhores do que nós somos. No entanto, essa contradição é uma coisa extremamente problemática e não é para mim e sim para todas as pessoas que vivem no país e exclusivamente em São Paulo. Sempre haverá essa relação complicada de amor e ódio.

Livre Opinião: Para você foi inevitável representar camadas de classe média baixa na literatura brasileira neste período recente da democracia, principalmente com a atual liberdade que o autor tem em escrever. Você sente que atualmente ainda existem resquícios da Ditadura Militar em relação ao desequilíbrio social no país? Em “Inferno Provisório”, nota-se a diáspora do homem rural para o centro, deste modo, a consciência do brasileiro na pós-ditadura fornece a interpretação de uma sociedade em que as individualidades e o choque cultural nos tornam em muitos cavalos?

Luiz Ruffato: Na verdade, antecede um pouco. Outro aspecto da sociedade brasileira é que a nossa história é feita de poderes muito autoritários e sempre foi assim. Vamos começar no período do I e II Império, portanto, já se percebe uma casta que manda. Termina o Império e vem a República Velha – que foi um golpe militar, no entanto  uma ditadura. Depois se constrói uma ditadura econômica entre São Paulo e Minas Gerais e, novamente, um novo golpe militar, colocando um presidente que dá um autogolpe, portanto, outro golpe militar. Ou seja, nossa história foi feita de golpes militares. Esta configuração do Brasil contemporâneo começa logo depois da Segunda Guerra Mundial, o país entra na guerra a favor dos Aliados porque o governo de Getúlio Vargas ganhou como compensação, podemos dizer como prêmio, a Siderúrgica de Volta Redonda e com isto teve a chance de abrir a indústria automobilística no ABC, em São Paulo, e que necessitava de gente para trabalhar. Mas não tinha mão de obra especializada, e o que fizeram? Fizeram a grande migração para São Paulo e Rio de Janeiro, sem a menor condição. As pessoas chegavam às cidades do Rio e São Paulo em uma situação muito dramática, sem ao menos terem um lugar para morar. No final, o que podemos evidenciar?  Um verso da música do Caetano Veloso vai dizer “aqui o que está em construção já é ruína”. Para mim é perfeito, o Brasil é exatamente isso: é um país que, embora esteja em construção, já é ruína. O que quer dizer?  Nós saímos do protocapitalismo para o pós-capitalismo, ou seja, pegamos os piores momentos do capitalismo. No entanto, essa diáspora acaba fazendo um rompimento bastante traumático na população em relação ao lugar de origem, provocando uma sensação de não pertencimento ao lugar para onde essa pessoa foi, além de deixar de pertencer ao lugar de onde veio e, portanto, existe uma camada enorme da população que não se sente à vontade em lugar nenhum e isto tem repercussões sociais, psicológicas, que são muito graves. O Brasil é a sétima economia do mundo, e daí, se nós não temos as condições básicas para a sobrevivência, isso nos prejudica totalmente.

Livre Opinião: Você já tem uma opinião sobre quem eram os muitos cavalos das manifestações de junho e julho no Brasil e principalmente na cidade de São Paulo?

Luiz Ruffato: A meu ver, houve várias manifestações e cada uma delas teve uma característica específica. Lembro que os americanos e europeus ficaram muito interessados nessas manifestações e concedi várias entrevistas para os jornais deles. Para eles, os manifestantes eram a classe média que entrou no consumo nos últimos dez anos e que estão insatisfeitos com uma determinada situação. Eu respondi para eles que não vejo assim, acho que existem várias manifestações dentro dessas manifestações. Existem as manifestações com reivindicações que atendem a essa nova classe média, mas existem as que pedem melhores condições de saúde, de transporte, de educação. Também as que não têm nada a ver com estas que pontuei. Um exemplo, as cotas raciais e sociais que a classe média não admite que existam nas faculdades públicas. Tem ainda classe com a sensação de que antigamente era melhor e pedem a volta da Ditadura Militar. No entanto, existe um monte de gente dentro das manifestações, por isso acho muito perigoso falar de forma genérica.  Eu, por enquanto, não sei quem eram os muitos cavalos das manifestações, tanto que elas começam com três milhões de pessoas e acabaram com meia dúzia, ou seja, é melancólico isso. Eu gostaria muito de ver manifestação com milhões de pessoas todos os dias nas ruas, mas que elas tenham consciência do porquê estão nas ruas e temos vários motivos para estarmos nas ruas. Portanto, falar de modo genérico é muito leviano, difícil e complicado.

Entrevista: Jorge Filholini e Vinicius de Andrade.

Confira as fotos da palestra de abertura da 17ª Jornada de Letras da UFSCar:

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9 comentários sobre “Luiz Ruffato: “Eu me dei como tarefa tentar representar a camada social baixa na literatura brasileira”

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  3. Ele se deu a tarefa errada, coisa de gente que não é realmente artista. O objetivo dele tinha de ser criar obras de valor estético, o resto é besteira.

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