Mais que uma década perdida

grafite_na_parede_brasilO ano era 94 ou 95, não me lembro bem. Acordei para ir à escola, fiz aquela minha rotina matinal: com muito custo fui ao banheiro, escovei os dentes e dei uma acordada – pouca, mas suficiente para continuar. Era uma manhã feliz, uma semana feliz. Minha mãe havia sido admitida num novo emprego. Foi o que ela conseguiu, faria faxina num escritório de publicidade, oito horas por dia, seis dias por semana. Tomamos café da manhã todos juntos. No canto da mesa, um pacote com os documentos dela, que ela havia acabado de guardar, depois de todos os trâmites burocráticos. Eu, curioso, peguei um caderninho azul lá de dentro, com uma insígnia prata na capa. Folheei sem muito entender e minha mãe disse, em tom de advertência, “guarda isso aí, Érico, é a carteira de trabalho da mãe”. Iria guardar já, acho que disse isso à mãe, mas ainda vi alguns escritos, à caneta, em espaços delimitados. Guardei.

Mas uma coisa eu não esqueço até hoje. Onde, agora eu sei, estava firmado o registro com a empresa e o valor do salário, foi esta página que marcou minha memória, mas, principalmente, foram aqueles sessenta reais. Era isso que mamãe ganharia por mês, para trabalhar oito horas por dia, seis dias por semana, trinta dias por mês. Claro que, na época, para mim, aquele valor era indiferente. Não entendia dessas coisas de trabalho, nadinha mesmo, e nem havia por que entender. Hoje, sentado aqui na sala de casa, a mesma casa onde eu acordava naquele ano para ir à escola, eu relembro aquele dia. Muita coisa mudou. Aqui em casa foi-se o chão de cimento, o tal do contra-piso, agora existem pisos de cerâmica – nada luxuoso, apenas pisos comuns, que deixam a casa mais bonita e mais fácil para mamãe limpar. As paredes agora escondem os tijolos nus que outrora exibiam. As janelas também estão aqui, as mesmas, mas agora pintadas e com vidros de verdade, sem aqueles plásticos de embalagens que colocávamos iludidos, acreditando que conteriam o vento e a chuva. Há portão na casa, agora estamos protegidos. Há energia elétrica em todos os cômodos, não precisamos mais dormir todos juntos no quarto dos meus pais. Todos os banheiros têm água, inclusive a cozinha também tem, nada de baldes. Temos um quintal, dois cachorros, dois carros com mais de dez anos e, eu, uma bicicleta que adoro. Temos também alguns mimos, não vou negar: o fogão e a geladeira agora têm menos de oito anos, há armários na cozinha e ventiladores nos quartos. Também temos uma TV 29 polegadas da Toshiba, sabe aquela que tem garantia de 50 anos? Então. Muita coisa mudou. Contrariando todas as expectativas, depois de treze anos em escolas públicas, minha irmã e eu ingressamos na universidade. Ela, primeira colocada num programa do governo, tem bolsa integral. Eu, caso talvez mais bizarro, consegui ingressar em duas universidades estaduais – das quais desisti – e uma federal, esta última, sendo minha escolhida, é a qual sigo cursando. Muita coisa mudou, bastante, mas algumas permanecem lentas em mudar. Desde que tinha dezesseis anos que não sei o que é só trabalhar ou só estudar. Desde lá faço os dois concomitantemente. Ou diria que trabalho para poder estudar? Sabe como é, morar fora, ter de comer, essas coisas. Não é nada fácil quando os pais não podem ajudar. Pode ser. As coisas poderiam ser mais fáceis, mas não há espaço para reclamar neste texto, da noite para o dia, de mudança, só mesmo a das horas e da claridade. Muitos de meus colegas de escola nunca souberam o que é um ensino superior, mas me conforta saber que, pouco a pouco, cada vez mais seus irmãos e irmãs mais novos têm podido conhecê-lo. Lembro-me quando fui prestar meu primeiro vestibular, para uma estadual. Fiz aquela prova, que parecia coisa de outro mundo para mim, primeira vez, mas ainda assim esforcei-me. Ao terminar a prova, encontrei alguns amigos da minha cidade no portão da escola. Conversando com um deles, tive a infelicidade conhecer sua professora de língua portuguesa, que lecionava no colégio particular onde ele estudava. Vendo-me com este menino, penso que ela pode ter acreditado que éramos do mesmo colégio, o que a impeliu a dizer que tinha visto “um monte de aluno de pública, coitados, não têm nem chance. Já é uma vergonha usarem a nota do ENEM, ainda tão querendo dar cotas”. Claro que esta transcrição não é exata, mas é muito parecida com o que ficou marcado em mim. Poxa, eu era aluno de colégio público, e dez por cento da nota do ENEM não valia nada, nadinha de nada. Ainda bem que aquilo aconteceu no último dia de prova – eram três –, senão, não sei. Para infelicidade daquela professora, mesmo ela nunca tendo sabido disso, aquele foi o primeiro vestibular em que passei. Lembra-se daquele meu amigo? Então, quem sabe aquela professora não o ensinou bem, porque para ele não foi daquela vez. Prestamos o mesmo curso, mas ele acabou muito, muito distante de mim. Uma pena que, hoje, essa distância também é ideológica. Mas, vá lá, existe uma máxima por aí que diz para defendermos o que é nosso, ele deve de defender o que ele pensa que é dele, um equívoco, infeliz, mas ainda um equívoco dele. Lembro-me disso como um capricho meu, uma vitória em meio à derrota. É errado isto? Ou é pecado? Ou nesta terra dá tudo no mesmo? Enfim, aquilo me marcou. Mas, voltando à casa, ao daqui de dentro. Uma coisa não mudou: a mesa. Nossa mesa de jantar é ainda a mesma. Caindo aos pedaços, tudo bem, mas continua lá, tomando seu lugar na cozinha. Talvez, inconscientemente meus pais a deixaram ali, como que para marcar a mudança dos tempos, porque é sempre ali que se reúne toda a família. Eu mesmo, que agora só venho aqui de visita, me encontro com eles lá, pois chego sempre no horário do jantar. E toda vez que olho para aquela mesa eu me lembro, agora em 2013, daqueles sessenta reais. Minha mãe nunca continuou seus estudos, ainda ostenta o título da quarta série e outro título ainda que inglório para a família: a única do casal, meu pai e ela, a ter tido carteira assinada na vida. Aqueles sessenta reais se foram. Nós, ao contrário do que muitos poderiam prever, tomamos um espaço que não era nosso. Aquele meu amigo do vestibular continua andando por aí com seu hatch médio do ano, “agregando valor” em baladas que nem todos podem aproveitar e viajando, pelo menos uma vez ao ano, para o exterior. Pouco importa seu histórico, ou se acredita que perdeu seu lugar na universidade. Seu lugar primeiro permanece o mesmo, um lugar que talvez eu nunca possa ter, mas, vá lá, as coisas mudam, não é mesmo? No ceio familiar, posso imaginar suas conversas de fim de noite: seus pais reclamando sempre, da pressão injusta do governo, numa carga imensa de impostos, não poderão trocar seus carros 2013 por modelos 2014. O dilema não para aí, têm de escolher se viajam aqui, dentro do país, ou para fora, no fim do ano, correndo sempre o risco de ter que aguentar “aquela gentinha que parece que nunca andou de avião na vida” durante o voo. Pois é, a vida é cheia de dilemas. Mas sempre que me lembro daqueles sessenta reais, eu dou risada. Meu riso é mesmo para esse pessoal que ficou para trás, que perderam dez anos. Coitadinhos, tenho dó mesmo, pararam no tempo. Todo esse tempo ficaram apavorados, enquanto nós, bárbaros, aparecíamos ao seu lado na carteira das universidades, ou ao lado dos seus carros no trânsito. Também comíamos big mac’s ali, encarando-os cinicamente. Muitos deles perderam seus aluguéis. Nós também os roubávamos, sim, roubávamos. Passávamos a mão naquela sua dignidade, construída lá atrás e cultivada por anos a fio, sem que nós disséssemos não. Tem gente que tem fobia de insetos, ou de altura. A fobia desse pessoal é de bolsa, mas o nome que eu conheço para isso não tem nada de patológico. As causas, afirmam os médicos dos planos de saúde, são: os bárbaros pegam um pouco deles sempre que têm uma bolsa, dessas aí de família, de aluguel, de qualquer coisa. Os bárbaros, melhor dizendo: nós, também encontramos seus filhos no exterior. Que vergonha devem sentir – e olha que eles ainda são a maioria nestes espaços. Eles devem assistir atônitos a nossa lenta escalada, logo nós, que tantos anos ficamos lá embaixo, parados, só olhando… Realmente, foram anos, foi uma década perdida. Uma injustiça social, eu diria, tantos debaixo ganharem assim e eles ali no meio, parados, naquele conforto mediano, no luxo mediano. Deve ser horrível não ser nem rico, nem pobre. Ser rico… como dever doer ouvir isto. Mas eu me lembro, uma vez mais, daqueles sessenta reais. Abro minha carteira e, coincidentemente, estão ali, contadinhos, sessenta reais. Enquanto digito este texto – um texto de vandalismo – aqui em meu computador, uma pop-up me alerta para o lançamento de um livro. Alerta. São quarenta e cinco reais. Mas eu não me engano. Esta década não foi perdida, não serão também meus sessenta reais. Então, mais uma vez, contrariando todas as expectativas, vou apreciar outra leitura, os quarenta e cinco, desta vez, permanecerão perdidos na estante da livraria. Com sessenta reais nas mãos esboço um riso, de pena, e, contrariando sempre todas as expectativas, sigo ocupando espaços dessa classe que reclama, e diz, em títulos garrafais, que a economia sofre duros golpes de zero vírgula cinco por cento. Essa classe paralisada no tempo, uma década… perdida.

Erico Mello

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