O poeta que desafinou o coro dos contentes: Torquato Neto

personalidades-poetas-brasil-torquato-neto“Escute, meu chapa: um poeta se faz com versos”. Conciso na criação de canções e poesias, Torquato Neto se estivesse vivo completaria neste dia 9 de novembro 69 anos.  “Eu sou como eu sou/vidente/e vivo tranquilamente/todas as horas do fim”, foi assim que declarou seu eu-lírico, construtor de versos diretos, marcantes na declaração de um contexto focalizado em um país desfavorecido na essência cultural imposta pela política vigente, Torquato elaborou um olhar crítico ao apontar o erro da alienação para “desafinar o coro dos contentes”.

Anjo solto e doido, poeta em estudo da sociedade presente, em sua retina as multifaces da base hierárquica da pirâmide, “Toda a rua tem seu curso/Tem seu leito de água clara/Por onde passa a memória/Lembrando histórias de um tempo/que não acaba”.

Torquato colocou também suas mãos de artista na modelagem da Tropicália, peça fundamental nas letras de canções marcantes da contracultura ao envolver sua  genialidade  em parcerias com Gilberto Gil, Caetano Veloso, Jards Macalé, Waly Salomão, além dos expoentes da MPB, João Bosco, Edu Lobo, Luiz Melodia, Geraldo Azevedo, entre outros que reformularam a estética musical da geração que até hoje é influenciadora.

Poeta e compositor marginal, de versos afiados que cortam a carne e jorra o sangue sujo da essência do ser, trazendo para o interior o âmago incontestável de um mundo em princípio da distopia. Torquato se suicidou um dia depois de seu 28º aniversário, gozando deste universo e partiu deixando vasta obra para os diversos objetos estéticos da cultura brasileira.

 Em homenagem a sua data de nascimento, nada melhor que expor Torquato por meio de sua obra:

Cogito

eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível

eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora

eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim

eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim.

 

Let´s Play That

quando eu nasci
um anjo louco muito louco
veio ler a minha mão
não era um anjo barroco
era um anjo muito louco, torto
com asas de avião
eis que esse anjo me disse
apertando a minha mão
com um sorriso entre dentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
let´s play that

(música em parceria com Jards Macalé)

A rua

toda rua tem seu curso
tem seu leito de água clara
por onde passa a memória
lembrando histórias de um tempo
que não acaba

de uma rua de uma rua
eu lembro agora
que o tempo ninguém mais
ninguém mais canta
muito embora de cirandas
(oi de cirandas)
e de meninos corrend
atrás de bandas

atrás de bandas que passavam
como o rio parnaíba
rio manso
passava no fim da rua
e molhava seu lajedos
onde a noite refletia
o brilho manso
o tempo claro da lua

ê são joão ê pacatuba
ê rua do barrocão
ê parnaíba passando
separando a minha rua
das outras, do maranhão

de longe pensando nela
meu coração de menino
bate forte como um sino
que anuncia procissão
ê minha rua meu povo
ê gente que mal nasceu
das dores que morreu cedo
luzia que se perdeu
macapreto zé velhinho
esse menino crescido
que tem o peito ferido
anda vivo, não morreu

ê pacatuba
meu tempo de brincar
já foi-se embora
ê parnaíba
passando pela rua
até agora
agora por aqui estou
com vontade
e eu vou volto pra matar
essa saudade

ê são joão ê pacatuba
ê rua do barrocão.

Pra dizer adeus

Adeus
Vou pra não voltar
E onde quer que eu vá
Sei que vou sozinho
Tão sozinho amor
Nem é bom pensar
Que eu não volto mais
Desse meu caminho
Ah, pena eu não saber
Como te contar
Que o amor foi tanto
E no entanto eu queria dizer
Vem
Eu só sei dizer
Vem
Nem que seja só
Pra dizer adeus

O bem e o mal

Muito bem, meu amor
Muito mal
Meu amor
O bem, o mal
Estão além do medo
E não há nada igual
O bem, o mal sem segredo
As marchas do Carnaval
Muito mal, meu amor
Muito bem
Nem vem com não tem
Que tem Tem de ter
Na praça da capital
Muito mal
Meu amor
Tudo igual
Nada igual ao bem e o mal
Dois (experimente, é legal)
Eu creio que existe o bem e o mal
Mas não há nada igual
E tudo tem mel e tem sal.

Consolação

você me pede
quer ir pro cinema
só que não dá pé de dar
morena
nunca mais vou pro cinema
com você;
você entende
burramente magoada
só que a minha é mais quebrada
morena
e sou eu
e você
e sou eu
e você
condena

condena morena com pena
e um dia depois do outro
se eu não morro de amor
não vale a pena:
cinema
me lembra
aquele heppy-end
e amor por amor
nem mais um pouco.

Jorge Filholini

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