Professor do curso de Letras da UFSCar lança livro de ensaios sobre literaturas africanas

jorge valentimO professor Jorge Vicente Valentim lança, nesta quinta-feira (31), o livro “Pelas Margens do Atlântico e do Índico”, contendo diversos ensaios que abordam uma análise crítica dos romances de autores de países africanos de língua portuguesa como Mia Couto, Pepetela, Manuel Ferreira, José Eduardo Agualusa, entre outros. O lançamento do livro acontecerá às 17h30, no Auditório da UEIM, no Centro de Educação e Ciências Humanas da Universidade Federal de São Carlos (CECH/UFSCar) e estarão presentes no evento o autor Jorge Vicente Valentim (UFSCar) e a Profa. Dra. Simone Caputo Gomes (USP).

Em entrevista para o Livre Opinião – Ideias em Debate, Jorge, que é docente do curso de Letras da UFSCar e ministra as disciplinas de Literatura de Língua Portuguesa e Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, explicou o seu processo de criação para a obra: “É um livro que reúne ensaios que eu escrevi praticamente desde que vim para a Universidade Federal de São Carlos, pois eu vim trabalhar especificamente com literatura portuguesa e literaturas africanas”. Ele também respondeu sobre a importância de se ler os romances africanos de língua portuguesa: “Me parece ser absolutamente enriquecedor: como perceber estas diferentes culturas e essas diferentes etnias, dentro destas diferentes culturas, e todas elas partilhando de uma língua comum”.

Jorge espera que seu livro contribua para as análises literárias feitas por leitores e estudiosos da área, bem como possa motivar outras pessoas a conhecerem os diversos romances das literaturas africanas de língua portuguesa: “Espero que as pessoas leiam. Se, por um acaso, a leitura motivar uma pessoa, por exemplo, a fazer uma investigação, a dedicar-se mais ao assunto, ou mesmo começar a ler outras coisas para além daquelas que estavam acostumados a ler, acho que é o ganho maior!”

 Livre Opinião: Jorge, você poderia falar um pouco sobre o processo de criação e também sobre a proposta do livro?

Jorge Valentim: Bom, primeiramente, é um livro que reúne ensaios que escrevi desde que vim para a Universidade Federal de São Carlos, já que vim trabalhar especificamente com literatura portuguesa e as literaturas africanas. Alguns destes ensaios, inclusive, são resultados de projetos financiados pela FAPESP (Fundação de Ampara à Pesquisa do Estado de São Paulo). Alguns também foram publicados no Brasil e no exterior e há ainda dois inéditos. Daqueles que já haviam sido publicados, todos foram alterados para terem a configuração de capítulos de livro. Eles foram estendidos e ampliados em discussões mais específicas para determinados livros. Agora, diferente dos outros [ensaios] que se dedicam às literaturas africanas, quase todos eles começam pela importância dos sistemas literários africanos. Começam por Angola, depois passam para Moçambique, Cabo Verde, Guiné Bissau e São Tomé e Príncipe. Como não me sinto confortável ou, melhor dizendo, já que me sinto mais confortável para trabalhar com estes três primeiros sistemas, adotei uma estratégia diferente. Transformei o que sempre é falado por último – dentre os três – em primeiro e adotei uma trajetória que é a mesma trajetória de quem viaja de Portugal e vai até Moçambique, do outro lado – do lado do Índico. Assim, a primeira parada seria exatamente Cabo Verde e, depois, Guiné Bissau, São Tomé, Angola e Moçambique. Porém, sinto-me muito mais confortável em falar de Cabo Verde, Angola e Moçambique, esta foi a trajetória escolhida. Exatamente por conta disso dei ao livro o título de “Pelas Margens do Atlântico e do Índico”, que também não exclui a margem de onde falo, que é a margem do lado americana do Atlântico: sou um professor brasileiro trabalhando com literaturas africanas. Não sou português. Tenho sim uma relação muito forte com os portugueses, não só por ser neto de português, mas por ser também professor de literatura portuguesa. Tenho consciência de que meu objeto de estudo está direcionado exatamente para essas literaturas do outro lado do Atlântico e do Índico. Esta, na verdade, foi a ideia de construção do livro, tentar respeitar um mapeamento do caminho geográfico que se percorre desde Portugal, já que sou um estudioso também das literaturas portuguesas, até o outro lado do Índico.

 Livre Opinião: Qual a importância de se ler obras das literaturas africanas, principalmente as que você trabalha no seu livro?

Jorge Valentim: As literaturas africanas agora já fazem parte das pautas de discussões, sobretudo dos programas dos ensinos fundamental e médio, por conta da lei 10.369 de 2003. Consequentemente, essa lei acabou propiciando uma divulgação maior da disciplina dentro dos cursos de letras, pois é preciso haver também gente especializada, ou pelo menos gente preparada, para trabalhar com este tipo de objeto nos ensinos fundamental e médio, ainda que a lei esteja sendo aplicada de maneira gradativa e lenta. Mas, em alguns casos, isso acontece até de maneira mais rápida, como em São Carlos e em alguns municípios do interior de São Paulo. No entanto,  já temos uma realidade efetiva. Em relação à importância da leitura destas obras, primeiramente, ler nunca foi prejudicial à ninguém, muito pelo contrário. A cada vez que se lê uma obra de um país diferente, de um continente diferente, são culturas novas que são apreendidas; são universos novos com os quais o leitor acaba travando conhecimento e ainda mais com o diálogo entre essas diferentes culturas, isto parece-me ser de extrema relevância. Felizmente, hoje temos acesso, por conta das próprias traduções que se fazem, dentro da transposição de diversas línguas, a muitas obras. Nós temos acesso, por exemplo, a escritores turcos como o Orhan Pamuk, que recebeu o prêmio Nobel. Temos acesso a escritores de língua inglesa, desde um Oscar Wilde até uma Alice Munro, que recebeu agora o prêmio Nobel. Então isso, de certa maneira, penso ser enriquecedor para o ser humano. Em nosso caso, com os escritores africanos de língua portuguesa, parece-me que isso é fundamental. Primeiro porque temos uma língua comum, mas o fato de termos línguas comuns não quer dizer que partilhemos de universos culturais comuns, muito pelo contrário – é aí que está a beleza. O leitor poder ver a diversidade, a diferença, a partir de um elo comum, que é a língua portuguesa.  Porém, a nossa língua portuguesa não é a língua portuguesa deles. A língua portuguesa do Brasil não é a língua portuguesa de Angola, não é a de Moçambique e nem a de Cabo Verde. No entanto, parece-me ser absolutamente enriquecedor: como perceber estas diferentes culturas e essas diferentes etnias –  ainda dentro destas diferentes culturas – e todas elas partilhando de uma língua comum. Acho isso fantástico e fundamental. É a oportunidade de entender que – para usar uma alegoria – o elemento “gastronômico” é único, é a língua portuguesa. Mas cada um tem um tempero e tem um sabor diferente. Não existe coisa melhor do que poder provar pratos diferentes, mas com os mesmos ingredientes.

 Livre Opinião: E foi isso que motivou você a ter contato com as literaturas africanas ou também podemos dizer que existem e/ou existiram outros fatores e contribuíram para a construção da sua trajetória?

Jorge Valentim: Não, outras coisas também. Acredito que para além da cultura e para além da leitura destes textos, a orientação e o contato que eu tive com professores da disciplina [Literaturas Africanas]. Disto eu não posso reclamar, porque – e me orgulho disso – fui um privilegiado. Quem é que pode dizer que estudou literaturas africanas com Laura Padilha? Com Carmen Tindó e com Maria Nazareth Soares Fonseca? E, sobretudo, quem é que estudou Cabo Verde com Simone Caputo Gomes? Ela que talvez seja a grande pioneira dentro do Brasil, ela que foi a autora do primeiro trabalho acadêmico defendido no Brasil, no mundo. Então, não tenho do que reclamar. Tive excelentes mestres e foram eles que, de certa maneira, me motivaram a seguir na disciplina. Na época do doutorado eu dava aulas em uma universidade particular, no Rio de Janeiro, e criei esta disciplina na universidade e ainda os cursos de literaturas africanas. Depois chamei todos estes professores para darem palestras na instituição exatamente para motivarem os alunos a este universo que, para eles, era até então absolutamente desconhecido. Quer dizer, o que as pessoas sabiam da África? As pessoas pensavam que era um continente onde as pessoas falavam a mesma língua, quando sabemos muito bem que, na verdade, a coisa não é bem assim. São países diferentes, com culturas diferentes, e dentro destes países as etnias estabelecem contatos e diálogos culturais completamente diferentes. Portanto, minha trajetória vai um pouco neste sentido.

 Livre Opinião: Quanto tempo durou e como foi o processo de seleção e reunião dos ensaios que acabaram resultando na publicação do livro?

Jorge Valentim: Contando que o primeiro ensaio neste livro eu escrevi em 2007, em um minicurso que eu dei sobre a poesia de Jorge Barbosa e de Cabo Verde, tentei juntar todos os artigos publicados que pudessem ser expandidos em forma de ensaios. Não adianta você escrever um livro com textos muito curtos e sem profundidade, por isso eu tentei privilegiar três países e, na medida do possível reunir três ensaios de cada país, para dar de certa maneira um corpo a este texto, a esta obra. No entanto, são textos que foram apresentados em congressos no Brasil, outros apresentados em congressos em Portugal e há pelo menos dois textos inéditos que eu nunca apresentei. Estes eram textos que eu estava guardando com muito carinho para um lugar exato onde publicar. E eu achei que seria por bem publicar exatamente neste livro, bem como  para respeitar a época em que eles foram escritos, já que quase todos eles foram escritos de 2007 até atualmente. Outro aspecto, eu tentei, de certa maneira, respeitar aqueles escritores com os quais eu tenho mais afinidade e procurando exatamente estabelecer não apenas uma única linha teórica. Tanto que irão encontrar ensaios que eu, às vezes, insisto na questão do pós-colonial, ou outros ensaios que insisto nas questões teóricas sobre a hibridização e ainda outros que eu sigo por um caminho completamente diferente, que é o da interdisciplinaridade com outras artes – inclusive com a música.

 Livre Opinião: A seu ver, como está o ensino de literaturas africanas nas instituições de ensino superior atualmente? Não só aqui na UFSCar, mas também em outros cursos de letras e outros panoramas dos quais você tem conhecimento?

Jorge Valentim: Se for com relação às literaturas africanas,  começa antes. Recentemente cheguei de um congresso de literatura portuguesa, o Congresso Internacional da ABRAPLIP (Associação Brasileira de Professores de Literatura Portuguesa) e um dos motes foi o de que literatura portuguesa está perdendo espaço no ensino acadêmico – e está realmente. Uma das nossas prerrogativas, sobretudo nesta nova gestão que está entrando, que tem um presidente jovem, novo e motivado, que é o professor Otávio Rios, da Universidade Estadual do Amazonas (UEA), onde acontecerá o próximo congresso. Esta gestão tem, como um dos propósitos, que fomentar o ensino da literatura portuguesa e, querendo ou não, a literatura brasileira e as literaturas africanas são herdeiras da literatura portuguesa, portanto não se pode perder este vínculo de maneira alguma. Agora, no que diz respeito às literaturas africanas – vou falar do estado de São Paulo – lamento muito que algumas universidades ainda se sintam resistentes em adotar a disciplina, não citarei nomes de instituições, mas, para se ter uma ideia, a UFSCar é a única universidade na qual a disciplina de literaturas africanas consta no quadro de disciplinas obrigatórias. No entanto, acho que isso é uma coisa a se pensar, ainda que nós saibamos que existem outros núcleos de estudos – e núcleos respeitáveis – de universidades com gente da melhor qualidade, mas que optaram enfim, por razões que não cabem à mim questionar, porque são universos completamente diferente do nosso, que nós estamos aqui no interior, não é? Mas que, por uma razão de acomodação ou de apropriação acadêmica, preferiram não colocar a disciplina como obrigatória, mas ainda assim estão tendo um resultado espetacular, pois estão formando uma equipe de investigadores e de pesquisadores da melhor qualidade. Porém, algumas [universidades] ainda insistem em nem colocar a disciplina dentro do quadro, do fluxograma, das disciplinas. Portanto, não há literaturas africanas nem como disciplinas obrigatórias e nem como optativas, o que eu acho lamentável. Ao mesmo tempo em que você furta do aluno a democratização do conhecimento, você também impede que se abra uma nova frente de pesquisa, de investigação, de extensão, de ensino. Mas, enfim, quem sou eu para questionar ou reclamar de qualquer coisa, até porque a nossa realidade aqui [na UFSCar] sempre foi uma realidade muito harmônica e com resultados muito bons. Até porque temos uma universidade privilegiada, temos um núcleo de excelência aqui que é o NEAB/UFSCar (Núcleo de Estudos Afrobrasileiros  da Universidade Federal de São Carlos), coordenado pelo professor Valter Silvério e que esteve à frente uma das principais pesquisadores da área, que é a professora Petronilha, nome reconhecido mundialmente no que diz respeito às questões dos direitos e das questões voltadas exatamente à esse universo dos estudos africanos.

 Livre Opinião: E você tem, talvez, alguma pista do porquê dessa resistência em inserir a disciplina de literaturas africanas nas grades curriculares do ensino superior?  

Jorge Valentim: Acredito que, de uma certa forma, deve haver – não tenho certeza – alguma relação com a própria política de colocação de profissionais. É claro, para ter esta disciplina, seja no quadro obrigatório, seja no quadro optativo, tem que ter um profissional e para ter esse profissional, tem que haver a vaga. Já para ter a vaga, precisa ter o concurso e para se ter o concurso tem que haver uma liberação de instâncias superiores – acredito que não sejam tão metafísicas assim – para que atinjam um universo inalcançável, mas que também não dependem apenas de nós. Creio que o esforço existe, só não aconteceu ainda o momento para ele se consolidar.

 Livre Opinião: Então você não acredita numa resistência eminentemente acadêmica, uma resistência que, de certa forma, minoraria o valor dos estudos em literaturas africanas em relação a outros estudos já consagrados na academia?

Jorge Valentim: Não, acredito que não. Seria até leviano demais da minha parte pensar nisso. Hoje, nós vivemos numa sociedade democrática, livre e aberta, em que as pessoas podem dizer abertamente e livremente o que pensam e o que sentem. Então, acho que não, eu não acredito. Acredito que é uma questão de sensibilização de instâncias superiores para que concedam essa oportunidade para as outras pessoas tenham acesso a esses tipos de saber e que, afinal de contas, têm a ver conosco. Afinal, não somos todos falantes de língua portuguesa? Então acho que é isso.

 Livre Opinião:  que você espera dessa compilação de ensaios e qual a contribuição que se pode esperar da obra para a área?

Jorge Valentim: Primeiramente, espero que as pessoas leiam (risos). Até porque eu gostaria de receber alguma resposta, pois há no livro pelo menos dois artigos que eu reli e que, se tivessem sido escritos nos dias de hoje, os escreveria de uma maneira completamente diferente. Não fiz isso porque necessito respeitar o momento que os escrevi. No final deles eu digo o quando e o porquê foram escritos, portanto, se eu não fizesse isso seria uma maneira de trair o que eu pensava, por exemplo, há três ou quatro anos. Enfim, ninguém é obrigado a manter o mesmo pensamento sempre, não é? O homem muda: “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, já ensinava Camões, portanto meu pensamento tem esse direito de mudar. Espero que as pessoas leiam e que comprem o livro, não é? O que o meu editor vai agradecer demais (risos). Mas, acima de tudo, espero que as pessoas leiam. Se, por um acaso, a leitura motivar uma pessoa, por exemplo, a fazer uma investigação, a dedicar-se mais ao assunto, ou mesmo começar a ler outras coisas para além daquelas que estavam acostumados a ler, será um ganho maior! Se uma pessoa que ler meu livro e ficar curiosa para ler um Pepetela, um Mia Couto, uma Paulina Chiziane ou até mesmo os escritores cabo-verdianos, que são pouco conhecidos e pouco lidos por aqui, que são Manuel Ferreira e Vasco Martins, eu fico super feliz. Contente e com a sensação de trabalho cumprido.

544130_659484837405379_954119945_nLivro: Pelas Margens do Atlântico e do Índico (Ensaios sobre literaturas africanas de língua portuguesa)

Autor: Jorge Vicente Valentim

Editora: UEA Edições
 
Ano: 2013
 
Preço médio: R$25
Entrevista: Jorge Filholini e Vinicius de Andrade.
Confira as fotos do evento de lançamento do livro:

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2 comentários sobre “Professor do curso de Letras da UFSCar lança livro de ensaios sobre literaturas africanas

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