Cia Mungunzá: entre polentas e um pedido de desculpas

Cia Mungunzá de Teatro.

Cia Mungunzá de Teatro. Foto: Henrique Pereira

A Cia. Mungunzá foi criada por atores recém-formados em São Paulo, em 2006. O primeiro trabalho do grupo foi Por que a criança cozinha na polenta, espetáculo vencedor de 40 prêmios em diversos festivais pelo Brasil. Em março de 2011, o grupo estreou Luís Antônio – Gabriela, que faturou importantes prêmios como o Troféu APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) e o prêmio Governador do Estado de São Paulo, como melhor espetáculo do ano. A companhia também faturou o prêmio CPT (Cooperativa Paulista de Teatro), de melhor direção e melhor projeto visual. Além disso, completam o currículo da Mungunzá mais 5 indicações ao Prêmio Shell e 1 indicação ao prêmio da revista BRAVO!. Com a peça, realizaram uma longa temporada de três meses de apresentações em São Paulo, no Galpão do Folias, para, em seguida, saírem em turnê nacional que passou vários estados.

Atualmente, a Cia.Mugunzá conta com o diretor Nelson Baskerville (professor de arte dramática na Escola de Atores Wolf Maya), os atores Day Porto, Sandra Modesto, Verônica Gentilin, Virginia Iglesias, Lucas Beda e Marcos Felipe, o diretor musical, Gustavo “Caipira” Sarzi, o artista plástico Thiago Hattnher e pelo técnico performer, Pedro Augusto.

Cena de  Por que a criança cozinha na polenta. Foto: Cia Mungunzá

Cena de Por que a criança cozinha na polenta. Foto: Cia Mungunzá

Inspirados por Bertold Brecht, Gordon Craig, Tadeus Kantor e Piscator, nomes que revolucionaram a linguagem teatral, a Cia. Mungunzá estabeleceu, nas duas peças, um constante diálogo com o público. Ao entrar na sala do teatro os atores, já em suas posições, estão se aquecendo, terminando de montar o cenário, agindo normalmente, a espera de que o público se acomode em seus lugares para que se inicie um passeio sinestésico. Um jogo onírico, com imagens expressionistas e linguagens da contemporaneidade, a narrativa se passa no agora do palco e o espectador se coloca em posição de simbiose com as emoções da história e de cada personagem.

Porque a criança cozinha na polenta é um romance homônimo, de 1999, da escritora romena, de expressão alemã, Aglaja Veteranyi (1962-2002). A história autobiográfica acompanha uma família de artistas circenses. Filha de uma trapezista, que se pendura pelos cabelos todas as noites, e de um palhaço, que não acredita em Deus, vive uma infância nômade, seguindo os pais em turnês e participando dos espetáculos – desde os seus três anos de idade. Na década de 70, a família foge da ditadura romena de Ceauscescu e se refugia em Zurique. Temas como as turnês insanas e os abusos sexuais permeiam a narrativa, que foi muito bem produzida e encenada pela Cia. Além disso, em meio ao caos, há a poesia da menina de treze anos que a recita, em fragmentos, em momentos chave da peça.

Cena de  Por que a criança cozinha na polenta. Foto: Cia Mungunzá

Cena de Por que a criança cozinha na polenta. Foto: Cia Mungunzá

Através de várias imagens sobrepostas, encaixadas e simultâneas, com recursos visuais – vídeos e imagens projetados na rotunda – os atores rompem com a quarta parede. Estão a todo o momento atuando para nós, a plateia, estão olhando e contando para nós. No meio da peça isso se explicita, já que uma cena é feita por uma simples convocação: dois ou três espectadores são convidados a desfrutar de uma refeição na mesa posta em cima do palco – eles comeriam a polenta, que está cozinhando desde o início da peça. Concomitantemente, ocorre uma cena de sexo (abuso) na frente da platéia e da mesa da refeição. Sim, é um espetáculo ácido. “A criança cozinhando na polenta” é um dito romeno, equivalente ao “bicho papão” no Brasil. Esse dito assombrará a menina metaforicamente, ao lado da irmã mais velha, durante suas trajetórias fulcrais da vida.

Marcos Felipe, em uma de suas conversas após o espetáculo (que presenciei em um Festival de Americana, São Paulo, em 2009), disse que o livro foi “um achado” dentro de um sebo da grande São Paulo, comprado por um preço irrisório. Nunca tinham ouvido falar de Aglaja (quem já, não é mesmo?) e, após a leitura, decidiram fazer uma peça baseada na obra. Chamaram o diretor e ator Nelson Baskerville para dirigi-la. De início, achou-se que essa comunhão iria ser passageira, mas mal sabiam que estavam prestes a se tornar numa das uniões mais admiráveis – e premiadas – da história do teatro contemporâneo brasileiro.

Cena de Luís Antonio - Gabriela. Foto: Cia Mungunzá.

Cena de Luís Antonio – Gabriela. Foto: Cia Mungunzá.

Assim, depois desse trabalho consagrado, o espetáculo Luis Antonio – Gabriela nasce e vem como um pedido de desculpas. Com muita coragem e beleza, Nelson Baskerville se une novamente a Cia. Mungunzá para mexer e mostrar sua história. Seu irmão mais velho, Luis Antonio (interpretado pelo ótimo ator Marcos Felipe, que leva o personagem em todas as cenas só com as pontas dos pés) nasce em 1953, primogênito entre mais seis filhos e ganha, logo após o casamento de seu pai com sua madrasta, mais três irmãs enteadas.

Desafiando as regras de uma família conservadora em plena ditadura militar, desde os oito anos de idade Luis Antonio nunca escondera sua homossexualidade. Abusava do irmão caçula e, muitas vezes, era espancado pelo pai na tentativa de ser “curado”. Obviamente, como única saída, ganhou as ruas, a marginalidade e as drogas. Com aplicações de silicone, Luis Antonio foi se transformando, travestindo, vivendo em Santos até seus trinta anos.

Depois muda-se para Bilbao, na Espanha, onde assumiu (de vez) sua nova identidade, sua eterna e incessante busca: Gabriela. Protagonizando shows em boates, fez sucesso neste peculiar universo, porém, aos cinquenta e três anos, Gabriela acaba vitimada pela AIDS, levando à sua morte em 2006. Durante três longas décadas, a família nunca obteve muitas notícias de seu paradeiro e situação, somente sua irmã mais velha sai em busca de Gabriela pelo mundo.

Contada de modo não linear, como um quebra-cabeça brechtiano, às vezes beirando ao grotesco, é nesse documentário-cênico que levamos um soco no estômago. Relatada com criatividade através de fotos reais de Gabriela e sua família, de diários, cartas e objetos pessoais – trazendo o retrato memorialístico para a plateia –, vídeos – inclusive com cenas ao vivo –, músicas autênticas, telas do artista Thiago Hattner, elementos cênicos pendurados e espalhados em vários focos do palco, é impossível não sentir essa carga eletrizante, envolvente e impactante que se torna o fio condutor, do começo ao fim, da narrativa. Não existe um tom melodramático e apelativo, mas sim a triste, violenta, angustiante e visceral história de Luis Antonio. Sem pausas, sem respiração, sem um piscar de olhos, a platéia se levanta e aplaude feliz, mas ainda com dor e lágrimas nos olhos.

Cena de Luís Antonio - Gabriela. Foto: Cia Mungunzá.

Cena de Luís Antonio – Gabriela. Foto: Cia Mungunzá.

Ambos os espetáculos são obras de arte intensas, baseadas em histórias verídicas e criadas através de improvisações cênicas, com semelhantes recursos teatrais. Entretanto, o espetáculo Luis Antonio – Gabriela aparece como uma união mais madura entre a Cia. Mungunzá de Teatro e o diretor Nelson Baskerville. Todos, cada qual com suas funções, participaram desta criação. É também no palco que se observa – e se sente – esta impecável amizade e coletividade, o trabalho árduo que tiveram – o que talvez faça do espetáculo ser o que é, um grande espetáculo.

E agora aqui vai o meu recado: Nelson Baskerville e a Cia., um pedaço do meu coração vocês conseguiram. Isso é mais do que um pedido de desculpas, e você já está mais do que desculpado. Eu senti pelos olhos de Gabriela.

No momento, não há espetáculos na agenda, já que a Cia. ultrapassou cem (cem!) apresentações com a montagem Luis Antonio – Gabriela. Em relação à peça Por que a criança cozinha na polenta, em sua página no Facebook, dizem que há (por enquanto) apenas a saudade.

Para saber mais, visite o site da Cia Mungunzá ou a página do grupo no facebook.

O livro Por que a criança cozinha na polenta, de Aglaja Veteranyi, pode ser comprado na livraria Saraiva por R$32,00. 

Luana_Sacilotto

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