Death is the dress she wears: 51 anos da morte de Sylvia Plath

A poeta e romancista Sylvia Plath

A poeta e romancista Sylvia Plath

Um eclipse lunar sobre o corpo de uma mulher morta é a imagem que encerra o último poema e a vida da escritora norte-americana Sylvia Plath. “Edge” é responsável pelo grito final de uma das maiores vozes de sua geração, voz que ecoou através do verso, da prosa e até da pintura. No fatídico 11 de fevereiro de 1963, perdíamos prematuramente uma autora singular, a qual fez do tecer das palavras seu escape, confessando não só sua intimidade conturbada, mas também a realidade ilusória de uma época.

Filha de pai alemão e mãe descendente de austríacos, Plath nasceu em 27 de outubro de 1932 em Boston, Massachusetts. Desde cedo demonstrou talento para a arte, publicando seu primeiro poema aos 8 anos de idade, na seção infantil do jornal Boston Herald. E, em 1947, aos 15, ganhou um prêmio pelas suas pinturas no The Scholastic Art & Writing Awards. Foi também na infância que a escritora testemunhou um dos eventos que marcaria de vez seu projeto literário: a morte do pai, Otto Plath, em 1940.

"The Bell Jar"

“The Bell Jar”

Graduada pelo Smith College, Sylvia defendeu sua tese “The Magic Mirror: A Study of the Double in Two of Dostoyevsky’s Novels”, em 1955. Embora aclamada ao fim da graduação, a jovem experienciou nesse percurso os primeiros indícios de depressão, sendo submetida à eletroconvulsoterapia (o famigerado eletrochoque), além de tentar suicídio em agosto de 1953, ao ingerir sem prescrição médica as pílulas para dormir de sua mãe. Outro fato marcante dessa época foi o prêmio para ser editora convidada na revista Mademoiselle durante um mês. Plath viajou até Nova York e dessa experiência resultaram-se eventos que, posteriormente, seriam usados na construção de seu único romance, The Bell Jar (A Redoma de Vidro, no Brasil), publicado sob o pseudônimo de Victoria Lucas meses antes de sua morte.

Em seguida, obteve uma bolsa de estudos pela Fullbright para o Newham College, em Cambridge, onde continuou ativamente a publicar seus poemas no jornal estudantil Varsity. Na Inglaterra, também, conheceu o poeta Ted Hughes, com quem se casou em 1956. Adiante, Sylvia experienciou o trabalho em uma psiquiatria, trabalhando como recepcionista, além dos sabores e dissabores do casamento, como viagens, amigos (poetas em sua maioria), maternidade, adultérios e divórcio.

Ted Hughes e Sylvia Plath

Ted Hughes e Sylvia Plath

Muitos consideram o período pós-separação de Sylvia e Ted o momento de auge criativo da poeta, quando escreveu mais da metade dos poemas do aclamado Ariel, lançado postumamente em 1965. Nessa fase, ainda, os temas de sua escrita tomam outros rumos. Os poemas pré-Ariel são verdadeiras paisagens construídas em estado de vigília, entre o cotidiano dos sonhos norte-americanos e a realidade dos pesadelos pessoais, catalisados pela morte do pai e a depressão da juventude. Após o divórcio do casal, um verdadeiro rugido de leoa ferida toma conta da lírica de Plath. O ódio, a decepção e o senso de vingança costuram uma poética da percepção do mundo frente às ilusões das cores pós-guerra.

Ao retomarmos Antônio Candido, quem nos ensina a impossibilidade de dissociação entre texto e contexto, observamos a obra de Sylvia Plath sob uma ótica muito maior que a simples confissão encerrada em si. A autora se usa do self, da experiência pessoal, como substrato para uma literatura que indica o sentimento pertencente a toda uma época, forçada a acreditar que a realidade contextual é de perfeição e estabilidade. A imagem vinculada do país não compactua com a subjetividade dessa sociedade, fragilizada após duas guerras. Plath expõe as pressões e a náusea do cidadão norte-americano, o qual, apenas em uma realidade onírica, encontraria fuga.

"The Collected Poems"

“The Collected Poems”

O descontentamento da situação da mulher também é reverberado pela autora em toda sua fortuna crítica. Trabalho, casamento e todas as instâncias em que o ser feminino é subjugado, tornam-se matéria crítica construída inigualavelmente pelo seu talento. Em um de muitos exemplos, vemos o descontentamento do matrimônio e o desejo de liberdade feminino no conto “The Fifty-ninth Bear”. Um casal que viaja pelo país se depara com um urso na eminência de atacar a barraca onde dormiam. O marido é morto pelo urso, o quinquagésimo-nono desde que começaram a viagem. Todo o significado e crítica presente no texto se dão quando lembramos que, enquanto a viagem é descrita, o narrador nos revela a crença da mulher no número 59, o qual representaria, para ela, a perfeição. A viagem só estaria completa quando a mulher visse 59 ursos, seu número da plenitude, a qual chega – veja bem – com a morte do cônjuge, devorado pelo animal.

Infelizmente a estadia e a genialidade de Sylvia Plath duraram apenas 30 anos, findados em 1963, ao se suicidar com gás de cozinha na própria residência, enquanto os filhos dormiam. O reconhecimento da grandeza literária da autora chegou tardiamente, iluminado pelos holofotes macabros e expositivos da morte. Foi a primeira poeta a ganhar o Prêmio Pulitzer de Literatura postumamente com o livro The Collected Poems.

Quando escreveu os versos “the blood jet is poetry/ there’s no stopping it”, já sentenciava profeticamente que a poesia do seu sangue, mesmo 51 anos depois, continuaria, felizmente, em um jato sem estanque.

Matheus

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