Os 25 anos da morte de Fernando Namora

Fernando Namora.

Fernando Namora.

THE NEW YORK TIMES: Fernando Namora, one of Portugal’s best-known novelists, died today. He was 69 years old. Mr. Namora was born in the central Portuguese town of Condeixa in 1919 and studied medicine in Lisbon. He became a doctor serving remote mountain locations, writing about his experiences in ”Mountain Doctor.” Mr. Namora wrote more than 30 books and several volumes of poetry. Last year, President Mario Soares awarded Mr. Namora Portugal’s highest civilian honor, the Order of Henry the Navigator.

Foi assim que o jornal americano The New York Times, no dia 1 de fevereiro de 1989 (com um dia de atraso), noticiou que o escritor português havia deixado este mundo, no dia 31 de janeiro daquele mesmo ano. Hoje completam-se 25 anos da morte do autor de Fogo na Noite Escura (1943), O Trigo e o Joio (1954) e Domingo à tarde (1961), mas sua memória e o valor de sua extensa obra permanecem.

Como tudo começou

Fernando Gonçalves Namora nasceu em Condeixa, na região central de Portugal, em 15 de abril de 1919. Filho de antigos camponeses que então controlavam um comércio de tecidos naquela cidade, Namora viria a concluir o ensino secundário no Colégio Camões, em Coimbra. Esse período influenciaria sobremaneira seu primeiro romance, As Sete Partidas do Mundo. Em 1932, transfere-se para o Liceu Camões de Lisboa, onde permaneceria por mais dois anos e onde também conheceria se tornaria companheiro de Jorge de Sena. Lá, Namora redige e ilustra o jornal da instituição, mostrando cada vez mais aptidão também para as artes plásticas, uma vocação que manifestara ainda na infância. Em 1935, retorna à Coimbra para assumir o posto de diretor do Jornal Acadêmico Alvorada e, no ano seguinte, ingressa na Faculdade de Medicina de Coimbra. Somente em 1937, ao lado de Artur Varela e Carlos de Oliveira, publica seu primeiro livro, o volume de contos Cabeças de Barro – em 1936 já havia escrito seu primeiro livro, a coletânea de novelas Almas sem Rumo, mas que permaneceu inédita.

Escritor, médico e artista plástico

Namora formou-se em medicina no ano de 1942 e atuou, entre outros lugares, no Instituto Português de Oncologia em Lisboa. O escritor atuou simultaneamente entre as letras e a medicina até 1965, quando abandona a atividade médica para dedicar-se exclusivamente à literatura – no total, foram mais de 50 anos dedicados às atividades literárias.

Capa do livro Retalhos da Vida de um Médico.

Capa do livro Retalhos da Vida de um Médico.

O autor foi um dos responsáveis por concretizar a ideia do Novo Cancioneiro, que marca a afirmação estética do neorrealismo na literatura portuguesa, em 1941. Seu livro Terra é o volume que dá início à coleção poética. Sua obra acompanhou o desenvolvimento estético neorrealista, levando sua escrita à um viés mais personalista. Aos poucos, ainda que sem deixar de lado uma análise social, suas obras foram ganhando cada vez mais aspectos picarescos e observações naturalistas, assim como ganhando uma dose de existencialismo – o que aconteceu também com seus contemporâneos, como Vergílio Ferreira. Assim, a partir de Fogo na Noite Escura, emergem na obra de Namora preocupações de que comungavam aquele movimento literário, segundo ele mesmo definia “a perspectiva histórica que lhe é oferecida”.

Muitos críticos do autor categorizam sua obra em três ciclos: o primeiro ciclo, marcado justamente pelo período da afirmação e consolidação da estética neorrealista.

O segundo ciclo, também chamado de “Ciclo Rural”, que corresponde ao período em que atuou como médico em Tinalhas, Monsanto da Beira e Pavia – é também neste período que se consagra como novelista e romancista com os livros Casa da Malta, Minas de São Francisco, A Noite e a Madrugada, O Trigo e o Joio e Retalhos da Vida de um Médico (1ª série), que obteve projeção internacional.

O terceiro ciclo, “Ciclo Urbano”, é marcado pelo romance O Homem Disfarçado, que causou uma grande controvérsia nos meios literários e também no seio da classe média portuguesa por trazer o conflito declarado entre a sociedade lisboeta e o “aldeão atarantado”.

O quarto e último ciclo corresponde ao lançamento dos chamados Cadernos de um Escritor, onde nasce uma escrita que é a manifesta influência da abertura do autor para o mundo e do contato que estabeleceu com outros pensadores, escritores, formas literárias e sistemas de sociedade com os quais teve contato fora de Portugal.

Como artista plástico, assim como com a medicina, deixa de atuar de alguma maneira profissionalmente, mas nunca abandona a vocação que levou para a vida toda. Teve seu trabalho de artista plástico reconhecido e realizou exposições em Castelo Branco (1944), Portugal, e em Paris (1949), França. Também recebeu o prêmio Mestre António Gonçalves de artes plásticas por seu trabalho.

Cinema e Televisão

Auto Retrato, de Fernando Namora.

Auto Retrato, de Fernando Namora.

Para o cinema, foram adaptados os seguintes títulos do autor: Retalhos da Vida de Um Médico (1962), adaptado por Jorge Brum do Canto, com Jorge Sousa Costa, João Guedes, Emílio Guimarães, Irene Cruz. Selecionado para o Festival de Berlim; O Trigo e o Joio (1965), adaptado por Manuel Guimarães, com Manuel da Fonseca; Domingo à Tarde (1966), adaptado por António Macedo e produzido por Cunha Telles, com Isabel de Castro (Clarisse), Ruy de Carvalho (Jorge), Isabel Ruth (Lúcia), Alexandre Passos (Preso), Constança Navarro (Velha do Poço), Cremilde Gil (Enfermeira) e Fernanda Borsatti (Maria Armanda). Selecionado para o Festival de Veneza; O Rapaz do Tambor (1990), curta-metragem adaptado por Vítor Silva, com João Luís Silva, José Eduardo, Raquel Maria; Fernando Namora – Vida e Obra, de Sérgio Ferreira.

Já para a televisão, figuram como adaptações: Retalhos da Vida de um Médico, série televisiva de Artur Ramos e Jaime Silva (1979-1980); Fernando Namora (1969), realizado por Manuel Guimarães; A Noite e a Madrugada, realizada por Artur Ramos; Resposta a Matilde, adaptada para a televisão em 1986, por Dinis Machado e Artur Ramos com Rui Mendes, Júlio César, Estrela Novais, Filipe Ferrer, Canto e Castro, Aida Baptista, Fernanda Borsatti, Fernanda Coimbra, Luís Alberto, António Anjos, Gil Matias e Maria Alberta e a participação de Raul Solnado e Rogério Paulo.

A casa que virou museu

Museu.

Museu.

Em 1990, foi inaugurada a Casa Museu Fernando Namora. O museu ocupa a antiga casa em que o autor viveu sua infância e onde seus pais mantinham comércio, em Condeixa. Lá estão expostos documentos e objetos pessoais do autor, anotações, telas e livros de sua autoria.

Fica a memória de Fernando Namora, fica sua obra. Fica o que, dizia ele em correspondência de 1984, “fui acumulando ao longo dos anos, coisas minhas, coisas do que vi e vivi e ainda valiosas coisas alheias que de algum modo se relacionam comigo”.

 Vinicius de Andrade

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