As lentes se fecham: Morre o cineasta e documentarista Eduardo Coutinho

O cineasta Eduardo Coutinho

O cineasta Eduardo Coutinho

Os jornais do país inteiro já noticiaram a tragédia, as investigações estão se iniciando e fica a homenagem a um dos grandes nomes da cultura, tendo sua importância em obras que testemunharam a vida de pessoas reais, mas que se transformaram em personagens marcantes para entender a múltipla identidade nacional.

Neste último domingo (2) o cinema brasileiro ficou em luto. O cineasta e documentarista Eduardo Coutinho faleceu vitima de um brutal assassinato. Domingo confuso e lamentável culminando com a partida do mestre que registrou em suas obras a voz dos desfavorecidos em um período que a palavra de ordem era proferida por quem detinha o poder.

Coutinho com persistência enfrentou a censura e foi o documentarista do povo ao utilizar toda sua sensibilidade na focalização dos relatos de perseguidos pelo Regime Ditatorial (Cabra Marcado Para Morrer), de moradores da classe social baixa instalados em um antigo prédio no Rio de Janeiro (Edifício Master), da trajetória cotidiana da categoria metalúrgica no ABC (Peões) e a rotina dos catadores de lixo do lixão de São Gonçalo, no Niterói (Boca de Lixo).

Cineasta expressivo, Coutinho acrescentou nos documentários a saga camponesa em busca de direitos sociais, a diversidade dos moradores do Edifício Master, tendo em cada ponto dos corredores do prédio distintos relatos de vidas, formando uma Torre de Babel moderna localizada no centro do Rio de Janeiro. O olhar compreensível de Coutinho demonstrou um aprofundado estudo da identidade nacional por meio da lente, colocando em conversação histórias de pessoas que raramente tiveram oportunidades de debater suas ideias, de modo a aproximar personagens e espectador na reflexão da temática explorada por Coutinho.

Considerado o melhor documentarista do Brasil, tanto pelo seu empenho no registro de relatos extraordinários de brasileiros anônimos quanto a crítica social na tentativa de incomodar poderosos, Coutinho não só deixou obras que são dignas de análises sociológicas nos diversos recortes históricos como também marcou o cinema nacional através de sua maneira de colocar em evidência as mazelas sociais da periferia dos grandes centros e metrópoles do país.

Recordo de uma passagem marcante nos filmes de Coutinho que sempre me fez refletir sobre a modificação do ser humano no decorrer dos anos. Coutinho foi o documentarista que explorou esse método em aprofundar as características das personagens com quem conversou. O foco narrativo de Coutinho acompanha o seu personagem fornecendo a mudança de feitio, traços particulares de um cineasta paciente na elaboração dos filmes, mesmo que demore anos, tornando-os uma pesquisa científica sobre o comportamento e vivência de seus personagens em ambientes violentos e desiguais, no decadente cotidiano onde as políticas públicas deram as costas.

Tampa-se a lente da câmara, mas fica registrado todo o processo sociológico de Coutinho, por meio de documentários extraordinários focalizando em primeiro plano a sociedade brasileira em seus diversos sentimentos nos relatos de anônimos que necessitaram da lente de Coutinho para expor as suas angústias. O cineasta explorou os guetos da sociedade e forneceu o mais abrangente discurso, por meio de imagens, de um país que precisa de mais atenção à população da classe baixa.

A TRAJETÓRIA DOCUMENTAL

Nascido em São Paulo no dia 11 de maio de 1933, Eduardo Coutinho entrou em Direito, mas não concluiu. Abandonado o curso, Coutinho

Cena do documentário "Cabra Marcado Para Morrer", de 1984

Cena do documentário “Cabra Marcado Para Morrer”, de 1984

começou a se interessar na área cinematográfica depois de participar de uma palestra sobre cinema no MASP. Logo em seguida, juntando uma grana considerável, partiu para a França estudar direção e edição, no mesmo país teve início na  elaboração de seus primeiros documentários.

Ao retornar no Brasil, Coutinho mergulhou na estética cinematográfica vigente da época, o Cinema Novo, bem como integrou o  Centro Popular de Cultura, o CPC da UNE, onde começou a gerar a sua obra-prima “Cabra Marcado Para Morrer”.

Juntamente com outros nomes importantes do cinema brasileiro – como Leon Hirsman, Cacá Diegues e Eduardo Scorel – Coutinho foi perseguido pela Ditadura Militar, tendo seus filmes censurados ou interrompidos pelos órgãos do regime. Na semana passada o site Arquivos da Ditadura Militar, administrado pelo jornalista Elio Gaspari divulgou um documento protocolado pelo governo militar elaborando investigações a cineastas brasileiros, durante a matéria destaquei o caso ocorrido com as filmagens de “Cabra…” e a interrupção das filmagens devido a perseguição militar.

No decorrer de sua carreira, Coutinho venceu diversos prêmios tanto pelas obras lançadas quanto por sua importância no cinema mundial. Honrarias que destacaram o respeito da crítica mundial pelos documentários que forneceram uma aprofundada análise sobre a vida de anônimos e a importância de seus relatos, chamando a atenção do espectador em relação à desigualdade social e o preconceito à população periférica do país.

Coutinho durante sua palestra na FLIP 2013

Coutinho durante sua palestra na FLIP 2013

FLIP 2013

A última grande homenagem registrada do cineasta Eduardo Coutinho foi na Feira Literária Internacional de Paraty (FLIP), em julho do ano passado. Comemorando os 80 anos de vida, a mesa do documentarista foi uma das mais marcantes do evento. Bem humorado, Coutinho contou para o público sobre sua vida pessoal e a carreira de cineasta, bem como o seu método de entrevistar os personagens de seus documentários, na ocasião, Coutinho foi aplaudido de pé em diversas vezes pelos presentes no evento.

Jorge Filholini

Um comentário sobre “As lentes se fecham: Morre o cineasta e documentarista Eduardo Coutinho

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