A dissidência domesticada: consumindo Johnny Cash

Johnny Cash em San Quentin, em 1969, com Carl Perkins à direita. Fonte: Field Trip South.

Johnny Cash em San Quentin, em 1969, com Carl Perkins à direita. Fonte: Field Trip South.

Em 1957, Johnny Cash realizou um show na prisão estadual de Huntsville, no Texas, o primeiro dos 30 shows em presídios que o cantor realizou no sistema prisional americano, shows também responsáveis pela consolidação do seu discurso populista. Dois desses shows foram gravados em vinil: Live at Folsom Prison, lançado em 1968 e, um ano depois, At San Quentin. Os álbuns são uma magistral confluência entre mensagens religiosas, os desafios do amor e a dura realidade de uma vida na prisão. Cash cultivou uma imagem rebelde que só tem aumentado depois de sua morte, mas ele nunca passou mais de uma noite na cadeia (e tudo devido a pequenos delitos e mau comportamento). Como se não bastasse, o cantor agora é pintado com tons de durão, estiloso e renegado que pensa e expressa sua resistência às desigualdades e injustiças da sociedade.

Foto capturada por Jim Marshall em San Quentin. Fonte: NME.

Foto capturada por Jim Marshall em San Quentin. Fonte: NME.

Cash teve seu estrelado na cultura pop com a sua morte, em 2003, e desde então o cantor transformou-se num controverso símbolo de consumo de massa. Uma de suas imagens mais famosas foi capturada durante um show em San Quentin, quando o fotógrafo Jim Marshall pediu à Cash uma foto para o diretor do presídio e o cantor mostrou-lhe o dedo do meio. A imagem tem sido massivamente reproduzida, incluindo aí os anúncios do selo musical de Cash em 1998, tatuagens, capinhas de celular, pôsteres, adesivos e inúmeras camisetas.

Foto capturada por Jim Marshall na prisão de Folsom, em 1968. Fonte: Snap Galleries.

Foto capturada por Jim Marshall na prisão de Folsom, em 1968. Fonte: Snap Galleries.

Símbolo universal do desprezo e do desrespeito, mostrar o dedo parece evocar algo que está à margem da civilidade, um insulto que, se não é um gesto obsceno, está absorvido completamente pelo senso comum do que deve ser uma expressão de desrespeito. Vestindo esse insulto milenar através da grande quantidade de camisetas que carregam na estampa a imagem, pode até violar alguns padrões de comportamento burgueses, mas isso dificilmente se compara ao real desprezo pelas autoridades que Cash expressava em suas músicas. A loja de departamentos Spencers, por exemplo, vende inúmeras versões das camisetas com a estampa de Cash e todas elas implicitamente resgatam a vulgaridade que permeia a imagem e a memória do cantor com sua mais famosa frase, “Hello, I’m Johnny Cash”. Algumas lojas, da mesma maneira, vendem camisetas com a imagem do rapper Tupac mostrando o dedo, acompanhado pelo também rapper “Biggie” (Notorious B.I.G.), prestando um silencioso apoio na foto. Os dois rappers costumavam a alertar “não confiem em ninguém”, isso talvez tenha ganhado ainda mais credibilidade com suas mortes, resgatando de alguma maneira algo que estava relacionado com suas imagens.

Uma das versões de camisetas vendidas pela Spencers. Fonte: Spencer.

Uma das versões de camisetas vendidas pela Spencers. Fonte: Spencer.

Uma camiseta com a imagem de Johnny Cash mostrando o dedo do meio é uma imagem teatral e ambígua, trazendo irreverência para a ordem social, reduzindo o discurso e o ideário de Johnny Cash em um simples estilo. Essa redução talvez possa ser encarada como fruto de mais um daqueles produtos que transformam um momento histórico (em relação à atitude de Cash quando lhe foi pedida uma foto para o diretor) de rebeldia em mais uma simples “revolução enlatada”. A imagem do show de San Quentin foi completamente ignorada até uma grande campanha publicitária da American Recordings, em 1998. A campanha usava a imagem como um sinal de descontentamento com a falta de músicas de Johnny Cash nas playlists das rádios americanas. A imagem, posteriormente, se transformaria num ícone mercantilizado que pretende vender, justamente, a indignação. Isto quer dizer que a grande maioria das pessoas, que hoje vestem ou veem camisetas do Johnny Cash, não têm o mínimo conhecimento do ativismo prisional desempenhado pelo cantor. Não obstante, essas camisetas até podem ser símbolos capazes de acender algum debate ou reflexão, mas isto não quer dizer que levem em conta seu verdadeiro significado ou alguma filiação com um discurso político que a imagem poderia comportar.

 Cash dá um "joinha" em paródia da imagem de San Quentin. Fonte: Shirt Nerdery.


Cash dá um “joinha” em paródia da imagem de San Quentin. Fonte: Shirt Nerdery.

O gesto icônico de Cash tem a aparência de um sentimento autêntico, mas o mercado foi e é capaz de transformar uma genuína indignação em um clichê sem valor. O mercado se aproveita da estética da indignação e oferece ao consumidor deste produto a oportunidade de mostrar alguma distinção, sem realmente reconhecer as desigualdades que permeiam e promovem diversos níveis de alienação. De fato, o cantor criticou o sistema de justiça americano em 1969, mas sem abandonar a ajuda de um marqueteiro, o que aproximou o descontentamento sincero de Cash ao mesmo significado de um “joia” – o que até gerou paródias com a imagem.  Assim, a imagem do cantor parece favorecer e até mesmo aprovar a injustiça (de maneira que transforma uma bandeira de luta no sistema prisional num simples produto de consumo) ao invés de expressar o descontentamento do cantor – e o nosso – com essas injustiças.

Seria exagero concluir que a cultura do consumo reduz toda a distinção e resistência em estilo, mas o mercado com certeza explora a ambiguidade e a riqueza dos símbolos da cultura popular. Johnny Cash é, sem sombra de dúvida, uma figura histórica genuína, mas sua imagem icônica e todo o simbolismo que ela carrega hoje e que foi cultivada pelos seus seguidores, não pode ser simplesmente separada da herança musical que Cash deixou e do discurso que ela carrega. Felizmente, como um símbolo no mercado contemporâneo, Johnny Cash pode querer dizer muitas coisas, mas parece que há ainda alguns de seus consumidores que não querem – e não irão – deixar que o significado de sua imagem seja apelas uma simplista sanção da disciplina, da lei e da ordem burguesas.

Clique aqui para ler as referências e o texto em inglês.

Paul Mullins

Um comentário sobre “A dissidência domesticada: consumindo Johnny Cash

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