A profunda relação entre pai e filho em “Nebraska”, de Alexander Payne

Nebraska, de Alexander Payne

Nebraska, de Alexander Payne

O diretor Alexander Payne sempre pautou nos seus filmes a busca dos protagonistas de preencher aquele vazio íntimo, a lacuna que acaba motivando-os a construir a identidade que lhes falta, impulsionando-os na tentativa de compreender o seu lugar na sociedade. Payne vem projetando a cada filme esta análise do ser humano na mudança de conduta por meio de fatos que desconstroem o ambiente rotineiro.  Caso de obras como As Confissões de Schmidt (2002), Sideways (2004) e Os Descendentes (2011), onde os protagonistas reavaliam os próprios modos.

A mais recente obra cinematográfica do diretor, intitulada Nebraska, que estreia nesta sexta-feira (14) no Brasil, fornece a compreensão de vida de modo diferente, proporcionando uma (auto)análise para o espectador. Indicado a seis Oscar, cinco nas categorias principais, Nebraska aborda o choque da sociedade antiga que presenciou o período do desencanto e medo com a recente sociedade que está convivendo, mas de outro modo, a decepção de seu tempo.

Nebraska é o tipo de filme que surpreende pelas atuações que complementam o belo enquadramento elaborado por Payne, junto de uma fotografia brilhante. Filmado todo em preto e branco, que garante o tom melancólico do enredo, o filme constrói a temática clássica da sétima arte ou particularmente torna-se um álbum de família em movimento. Pode-se afirmar que Payne acertou em filmar nesta estética, qualificando os ambientes por onde os personagens passam, onde todo o espaço a melancolia molda os personagens.

Bruce Dern está notável no papel de Woody Grant, um idoso que acredita ter ganho um milhão de dólares devido uma correspondência que anuncia ele como vencedor do prêmio, no entanto a carta é apenas uma das tantas propagandas para atrair clientes. Sem licença para dirigir e sem a cooperação de sua esposa (June Squibb sempre que aparece rouba a cena, excelente atuação) que coloca empecilho na aventura do marido e soltando a língua ferina contra quem não concorda com sua ideia, Woody ocorre para sua única alternativa: caminhar de Billings, em Montana – onde reside -, até Lincoln, no Nebraska, local onde a carta manda retirar o prêmio.

Cena de Nebraska (Foto: Divulgação)

Cena de Nebraska (Foto: Divulgação)

David (Will Forte), o filho mais novo do casal, sentindo um certo apreço pelo pai decide levá-lo até a cidade almejada por Woody. Inicia-se o que mais Alexander Payne sabe fazer: um road-movie. A estrada motivará, pelo menos para o filho, a sintonia entre os dois no longo percurso até Nebraska. Então, surge a pergunta fundamental: até que ponto você conhece seu pai? David a partir desta viagem começa a compreender Woody e os motivos que fizeram o pai cair na insanidade – a sequência da conversa de pai e filho no bar é genial.

O rosto deprimido de David revela um desencantamento que envolve a relação com a família, o trabalho e o relacionamento com a ex-namorada, sendo que muito do desencanto vem da convivência com o pai – sempre citado como alcoólatra e ausente. Por sinal, Woody não demonstra afeição por ninguém tendo como única meta percorrer dois estados em busca de um falso prêmio. Woody não necessita mais procurar sua identidade, mas é em David a busca de compreender o seu caráter e se foi este modelado corretamente.

Cena de Nebraska (Foto: Divulgação)

Cena de Nebraska (Foto: Divulgação)

Percebe-se que Woody construiu um mundo particular, não podemos fazer parte, pois o seu universo é compreensível apenas por ele. Diante disso, tudo que é colocado para nortear Woody não é contemplado pelo mesmo, seu empenho de conseguir um milhão para comprar uma caminhonete nova e um compressor se resume para os parentes apenas por um “porque eu quero”. Um personagem complexo – ressalto a brilhante atuação de Bruce Dern – que nos mostra a terceira idade e seus desafios de sempre estar mudando conforme a transformação da sociedade, muitos se habituaram outros não, Woody carrega ainda o desencanto vivenciado por guerras, desilusões na carreira, falta de coletividade e as decepções da vida conjugal. Nota-se que Woody contempla seu próprio universo nas tantas vezes que reponde a todos com simples “o quê?” depois de um tempo de total silêncio.

Nebraska é o filme mais sério de Payne – mesmo que o espectador solte um sorriso em algumas cenas, culpa da interpretação de June Squibb e dos ataques ranzinzas do personagem de Bruce Dern – em que a análise do ser humano é focada por completo, porém a busca de identidade é sempre percorrida e nunca estabelecida – vide a sequência em que a família visita a casa onde Woody viveu durante a infância. Talvez a bolada em que Woody tanto ambiciona seja o estopim de uma relação que irá fornecer maior compreensão às pessoas que o rodeia – seus filhos e esposa,

Nebraska, 2013

Direção: Alexander Payne

Roteiro: Bob Nelson

Elenco: Bruce Dern, Will Forte, June Squibb

jorge-filholini2

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