Fez-se Justiça? – Pergunte ao Crânio

Negro-amarrado-a-posteSem mais, “sou do bem”, e fim. Foi a defesa da apresentadora do telejornal do SBT, depois de aplaudir o ato dos ditos “justiceiros” que amarraram um jovem negro todo esfolado e ensanguentado no poste, para todos verem a caça. Sim, exibiram o jovem como se fosse o final de uma caça, o prêmio pela busca, um animal indefeso que perdeu seu instinto de defesa.

Estive quieto nestas últimas semanas, pretendi analisar os fatos ou refletir a que ponto a sociedade progrediu, ou regrediu? Forças estranhas, não espirituais – nem acredito nisso -, invadem os tubos de nêutrons televisivos para divulgar  o absurdo, bem como formar opinião completamente retrógrada. Desta opinião muitos compartilhamentos, muitos aplausos – em pé “Bravo! Bravo! Bravíssimo!” – ecoam e invadem as redes sociais. “Tá com dó? Leva pra casa!”, fecha-se a cortina do teatro dos reaças.

Lembro-me do extraordinário livro do Luiz Ruffato, em “Eles eram muitos cavalos” o autor cria um dos melhores personagens o “Crânio”, porém descrito por seu irmão. O “Crânio” é o tipo Macunaíma moderno à procura de sua identidade na sociedade. “É preto que nem a água preta que escorre no meio dos barracos”, não é preto retinto e nem filho da noite, muito menos nascido no fundo do Mato-Virgem, o Crânio vive é na periferia, longe das concretizações das políticas públicas, longe de infraestrutura e dos atendimentos médicos. Porém, o Crânio “passa o dia inteiro lendo”, cria conhecimento, no entanto para os “milicos” é apenas mais um insistente que desce o morro para sujar a ordem de nossa sociedade “perfeita”. Este tema foi bem analisado pelo próprio escritor em uma entrevista concedida para este site no ano passado.

Vide um trecho que profetiza o fato do jovem no poste: “Outro dia o crânio foi barrado na boca da favela/os milicos estavam fazendo um comando/mandaram ele apresentar os documentos/cacete ele não tem carteira-de-trabalho nem erre-gê nem CIC/a polícia mandou ele deitar no chão sujo/a cara encostada no riozinho de esgoto/colocaram algemas nos punhos e nos calcanhares dele/deixaram ele assim deitado humilhado a comunidade inteira revoltada”. Este trecho foi bem analisado em uma matéria realizada para este site.

Rapaz esperto, ambiguidade de crânio, estas características não são analisadas pelas classes média e alta de nossa sociedade. É PRETO?sbtrachel AMARRA NO POSTE… OU PELOURINHO. Vamos aplaudir os atos de heróis modernos que tiveram a sã ideia de prender o pretinho que fez “cagada”. Antes ficasse no morro que é o lugar dele. Estas opiniões, infelizmente, cabem num vagão do metrô em horário de pico. O que fazem crer que tal atitude mereça Louvor, ó heróis de nosso país, que descumprem a lei e por termos uma unidade policial em frangalhos necessitamos deste propósito para ficarmos em paz e seguros. Aliás, temos o apoio da imprensa também, que beleza!!!! Lamentável senso crítico que se cria em nossa sociedade.

E o Crânio? Pois é, nota-se que quem tem tal posição para se denominar sábio de convicção. As amarras continuam naquele poste, o sangue demorará para sumir, mas as mentes decisivas e sem apontar o pré-julgamento faz surgir a opinião que valoriza a posição do “contra quem ninguém tem bronca”. Dos postes ao espetáculo, a sociedade brasileira atual têm formadores de opinião que ensinam o fatídico desmérito em relação ao outro, a segregação social e a justiça com as próprias mãos.

O faroeste contemporâneo ou a Lei de Talião? Cada vez mais notamos a retaliação da sociedade, o individualismo que transforma as leis em defesa inglória, acarretando na barbárie assistida no horário nobre.  E aí, fez-se justiça? O Crânio de cada um responderá.

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