O Encantamento da Pobreza

O hotel Emoya Shantytown.

O hotel Emoya Shantytown.

Muitos ocidentais têm sido fascinados pela pobreza e, ao mesmo tempo, encantados pela determinação humana em face de dificuldades e preocupações com as injustiças sociais em meio à riqueza de alguns. Em 1896, por exemplo, o viajante HC Bunner observou que “já deixei de conhecer galerias de arte, palácios, teatros e catedrais (catedrais particularmente) em variadas cidades, mas acho que nunca perdi uma favela“. Bunner é um dos muitos observadores narrando a vida em meio à pobreza através de fotografias, muitas vezes propositalmente pintadas com um empobrecimento humilhante, tão forçado que são ridículos, na melhor das hipóteses. Em muitos casos, as representações de penúria são simplesmente condenáveis.

Uma das interpretações contemporâneas mais crassas de pobreza pode ser o Emoya Shantytown Hotel, um hotel Sul-Africano que “imita” uma aglomeração de casas em favelas daquele país, em Bloomfontein. O hotel pretende proporcionar aos hóspedes “a experiência de ficar em um barraco sul-africano, porém dentro do ambiente seguro de uma reserva de caça privada. Esta é a única “favela” no mundo equipada com piso aquecido e acesso à Internet sem fios! “É difícil resistir a ridicularizar esse entusiasmo ofensivo em visitar os ares da pobreza durante uma noite. O site Gizmodo, por exemplo, zombou do intuito do resort em “recriar as ‘alegrias’ de uma favela viver sem os incômodos do crime, doenças ou falta de saneamento“; Atlas Obscura concluiu que “Ao contrário da atmosfera de luta e perigo que existe para os milhões de pessoas que vivem em favelas sul-africanas reais, o Emoya Shanty tenta fomentar uma vibe que está em alta da comunidade back-to-basics“, o que “pode ser o ápice do turismo de classes, um lugar onde as pessoas podem pagar mais para fingir que têm menos”. Stephen Colbert apelidou o estranho resort de “favela do glamour“.

Recém-casados após seu casamento no Emoya. Zachary Levenson observa que os números dos quartos são feitos para imitar marcações de numeração como as das favelas, pintadas nas portas de lata.

Recém-casados após seu casamento no Emoya. Zachary Levenson observa que os números dos quartos são feitos para imitar marcações de numeração como as das favelas, pintadas nas portas de lata.

“As casas de favela” do resort são, naturalmente, apenas uma imaginação do empobrecimento para alguns privilegiados, uma imitação distorcida de uma vida na favela que nunca existiu. No entanto, o escárnio da mídia ao Emoya corre o risco de deixar escapar o inquieto encantamento com o empobrecimento profundo e com as desigualdades – que, por si, cria a demanda para a existência de um hotel como este – por fazer uma crítica como se apenas esmagasse uma praga (o hotel). As existentes dimensões dos voyeuristas “favelados” e a “pornografia da pobreza” parecem reconhecer essas realidades, mas, ao mesmo tempo, exibi-las de maneira a moderar nossas apreensões de injustiça em face de uma pobreza gritante. Ao invés de torna-las em telas populares rasas de simples lamento e pobreza, podemos articular essa fascinação pelo empobrecimento e investigar como ela pode levar a novas formas de ativismo e não simplesmente legitimar penúria.

Até o final de século XIX, muitos cidadãos consideravam as visitas em favelas parte da rotina burguesa da vida urbana e também do turismo. Charles Dickens abriu o caminho com suas American Notes for General Circulation, de 1842, quando excursionou por cinco bairros de Nova Iorque e concluiu que “quando você se depara com os becos escuros, alguma figura rasteja como que recém-despertado, como se o julgamento final estivesse ao alcance da mão, como se cada sepultura estivesse num gesto obsceno de devolver seus mortos ao mundo. Onde os cães uivavam antes de se deitar, também mulheres, homens e crianças se acomodavam para dormir, forçando os ratos agora desalojado a se afastar em busca de melhores habitações. “Em 1884, o jornal The New York Times alegou que o turismo de favela teve início no Reino Unido, onde “o London Slumming tem trazido ao conhecimento dos ricos um enorme sofrimento, o que, em parte, levou à realização de muitas reformas sanitárias”. O jornal também sugeria que “a visita em favelas das grandes cidades por senhoras da alta sociedade e deputados para passear” iria “tornar-se uma forma de disseminação de uma nova moda neste inverno entre as nossas beldades”. Em contraste com o Reino Unido, no entanto, “o turismo em favelas aqui assumiu a forma de simples passeios – a ambição mais nobre, aquela de aliviar a condição dos desesperadamente pobres através destas visitas, parece não animar àqueles que tomam parte desta aventura”.

Muitos destes turistas de favelas reduziram a pobreza a uma simples – e atraente, para o propósito de se parecer gentil – estética, que simbolizava a diversidade racial, étnica e de classe. Em 1899, por exemplo, o viajante escocês William Archer concluiu que “as favelas de Nova York têm um ar sulista, uma variedade de contorno e cores – em alguns aspectos, quase se poderia dizer uma alegria… Por um lado, as varandas são onipresentes e as saídas para o fogo servem para quebrar a monotonia daquela linha, e emprestar, por assim dizer, uma textura peculiar à cena, isso sem falar das oportunidades que nos oferecem para nos exibir seus espaços de variadas tonalidades e cores. As casas são quase sempre brilhantemente, para não dizer barulhentamente, pintadas; na espumante e ainda assim cinzenta atmosfera de Nova York, as favelas mais esquálidas resgatam o aspecto multicolorido do Sul”. A sugestão de Archer de que as favelas de Nova York têm uma estética afro americana foi repetida por Ray Stannard Baker, em 1904, quando observou que nas cidades do sul, “O temperamento do Negro é irrepreensivelmente alegre, ele simplesmente transborda de sua pequena casa… e sua miséria não é nada pitoresca”.

A rua da comunidade Birmingham que abriga a série Benefits Street é a rua James Turner  na vida cotidiana.

A rua da comunidade Birmingham que abriga a série Benefits Street é a rua James Turner na vida cotidiana.

A série da BBC Benefits Street, de 2014, é muito parecida com as viagens vitorianas e os hotéis-favelas burgueses que se alimentam da curiosidade para ver, senão experimentar, a pobreza. Benefits Street é uma série que traz os moradores de Birmingham, em um bairro que o Channel 4 descreve como “um dos bairros mais dependentes de benefícios/auxílios da Grã-Bretanha”. Os cinco episódios do documentário/reality show traz à tona a experiência cotidiana de pobreza entre alguns indivíduos, observando-se as táticas cotidianas e o desespero, formando o cenário da pobreza material e social. Os índices, sozinhos, sugerem a existência de uma curiosidade generalizada sobre pobreza e bem-estar naquele país: os 4,3 milhões de espectadores no primeiro episódio da série, em 6 de Janeiro, tornou-a mais popular do que qualquer outro programa que o Channel 4 exibiu desde 2013, e os dois episódios subsequentes atraíram 5,1 e 5,2 milhões de telespectadores. No entanto, os primeiros episódios mostram táticas como furtos e tráfico de drogas, o que leva alguns telespectadores a se queixarem de que a série explorou preconceitos e estereótipos sobre pobreza, ao invés de, por exemplo, mostrar a “união entre a vizinhança e o espírito de comunidade”, como inclusive alguns moradores que participaram da série acreditavam que seria. Usando uma fórmula semelhante à Benefits Street, a série de 2013 da BBC3, People Like Us, acompanhou a vida de moradores pobres de um conjunto habitacional em Manchester. O jornalista do The Guardian, Fern Brady, refere-se à série como uma “pantomima” da pobreza, na qual “cada estereótipo antigo da classe trabalhadora é endossado – obesidade, desvios sexuais, alcoolismo, consumo intenso de cigarro e comportamento antissocial “.

A imagem da rua James Turner.

A imagem da rua James Turner.

Já a BBC sugere que Benefits Street e Benefits Street: The Debate serão parte de uma avaliação da seguridade social daquela população. No entanto, esses discursos tentam deliberadamente mascarar os sentimentos de parte dos espectadores a respeito dos benefícios do Estado cedidos às camadas mais baixas da sociedade, o que daria respaldo à manobras políticas em andamento no país. Para alguns espectadores, por exemplo, o programa confirma sua aversão profunda à política de segurança social promovida pelo Estado. O Secretário de Estado do Trabalho do Reino Unido, Iain Duncan Smith, afirmou que a “chocante” série confirma “porque o público apoia o nosso pacote de reforma da segurança social, para conseguir mais pessoas de volta ao trabalho, para acabar com esses abusos”. O jornalista do portal Breitbart, Raheem Kassan, lamentou que Benefits Street tenha revelado “como algumas pessoas atendidas pelos programas sociais do Reino Unido tentam forjar ou falsificar a sua incapacidade para o trabalho, a fim de ficar em casa e receber o dinheiro do contribuinte no lugar de um salário”. O chefe de produção de Benefits Street argumentou que “É um retrato muito honesto e verdadeiro da vida na Grã-Bretanha e as pessoas estão com medo disso”. Em contraposição, Owen Jones, do jornal The Independent, lamentou o show por realizar uma “caça aos piores exemplos de desempregados – neste caso, em uma rua de Birmingham – e retratá-los da pior forma possível. Alimentando um sentimento de parte da população de que as pessoas que recebem os benefícios são aproveitadores”. A leitura de Jones sobre Benefits Street conclui que “Uma mídia saudável deveria enfrentar os ricos e poderosos. Mas não a nossa, que, ao invés disso, se posiciona contra os pobres e sem voz”.

A repercussão intensa de Benefits Street e do surgimento de turistas curiosos que começaram a visitar aquele bairro ressalta a ansiedade e o fascínio que a sociedade tem com seus membros mais marginalizados materialmente. O grau em que sabemos alguma coisa sobre a pobreza, o racismo e o sexismo é profundamente moldada por nossas experiências com a diferença, e, para muitos de nós, essas experiências vêm através de cultura de massa. Seja através de poucos minutos de um noticiário local, seja através de cinco horas de um documentário filmado ao longo de um ano, inevitavelmente, receberemos fatos previamente selecionados da vida cotidiana que pensamos estar conhecendo. A mídia, em grande parte, tenta fazer com que lugares como o Emoya Shantytown sejam tidos como uma fantasia crível em algum nível: ou seja, o hotel-favela Emoya é uma experiência higienizada e possível. No entanto, o que a mídia e o pensamento que permeia parte da sociedade hoje em dia, não mostra que o Emoya imita abertamente nossas próprias caricaturas distorcidas da vida em meio à pobreza mais extrema. Benefits Street pode até parecer um exercício interessante, mas, em última análise, comete o mesmo erro que muitos dos turistas de favela por fixar-se em momentos cotidianos idiossincráticos na vida das pessoas pobres e não refletir as condições estruturais que o modo de vida da atual sociedade promove e que tornam o empobrecimento não apenas possível, mas absolutamente inevitável.

Para ler as referências e o texto em inglês, clique aqui.

Paul Mullins

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s