Controle do Cosmos: a coleta de meteoritos

A internet está repleta de distintos, senão ímpares, objetos colecionáveis: um breve levantamento das coleções presentes na Internet revela conjuntos de barras de sabãolenços umedecidostorradeirassacos de vômito e fiapos de umbigo. Mesmo tais coleções incomuns têm duas dimensões fundamentais: em primeiro lugar, elas são formadas por objetos pedagógicos – que ilustram ou ensinam algo sobre o universo ao qual pertencem ou pertenceram. Em segundo lugar, elas reconfiguram, criticam, imaginam e até mesmo impõem alguma ordem idealizada sobre o mundo. Alguns colecionadores são capazes de articular reflexivamente um porquê de seus objetos refletirem as suas experiências e visões do mundo social, enquanto outros talvez fiquem um pouco mais presos no magnetismo de suas “caçadas por coisas colecionáveis”. No entanto, a maioria das coleções são fundamentalmente espelhos que distorcem o reflexo de como o mundo deveria ser, as ansiedades que a vida provoca, e as consequentes dimensões de nossas vidas.

O meteorito Willamette em 1906 (imagem wikipedia, do Popular Science Monthly).

O meteorito Willamette em 1906 (imagem wikipedia, do Popular Science Monthly).

Marchando para o universo dos colecionadores está agora um exército de russos abocanhando os fragmentos do meteorito que caiu perto de Chebarkul e Chelyabinsk, em 15 de fevereiro de 2013. Alguns desses “catadores” (e suas congéneres internacionais) são simplesmente impulsionados pela percepção do potencial de lucro a ser feito vendendo fragmentos de meteoritos, muitas vezes intensificado por seu próprio desespero financeiro. Os “catadores” de detritos intergalácticos buscam os artefatos como prêmios, mas não há, aparentemente, algum valor verdadeiro e estável no mercado para estas coisas: um fragmento de 23 centímetros do meteorito Seymchan, recuperado na Sibéria, em 1967, foi vendido em Nova York por 43.750 dólares em outubro de 2012 e um pedaço de um meteorito que “pulverizou” uma vaca de Nova York em 1972, o único no mundo conhecido por causar uma fatalidade, foi vendido apenas por 1.375 dólares.

Agora, se pensarmos melhor, talvez seja inviável fazer a distinção entre os meteoritos como coisas com valor de troca, quando são objetos cujo sentido reside fora dos valores de mercado. No entanto, a atração de um meteorito recolhido, um brinqued do Doctor Who, ou um pôster de filme (e todos os outros materiais passíveis de serem colecionáveis) têm simbolismos distintos que não são redutíveis a valores de troca. Meteoritos invocam o poder de imprevisibilidade da natureza, o que se reflete na onda de cobertura da mídia na semana da queda do meteoro na Rússia, contemplando como os seres humanos podem controlar tais colisões de detritos interestelares aleatórios. Ondas de pessoas estão agora se preparando para vários apocalipses iminentes, então uma  companhia mineradora de asteroides encontrou um público receptivo para a sua advertência de que “muitos asteroides passam pela terra com pouco ou nenhum aviso. Nós não estávamos exagerando. … Embora nem todos os asteroides que se aproximam possam ser detectados, neste caso, um pequeno aviso teria impedido muitos ferimentos e controlado o pânico que se seguiu após a queda do meteorito” (sublinhado no original). Teorias absurdas de conspiração sobre o meteorito russo como testes de armas americanas, apocalipse bíblico e invasão alienígena são, em última análise, esforços para explicar eventos aparentemente inexplicáveis.

Uma fatia meteorito Krasnojarsk no Museu Americano de História Natural (imagem cortesia Jon Taylor).

Uma fatia meteorito Krasnojarsk no Museu Americano de História Natural (imagem cortesia Jon Taylor).

Em 1794, o abade italiano e geólogo Ambrogio Soldani escreveu um dos primeiros estudos científicos de meteoritos quando publicou Em uma chuva de pedras que caíram no dia 16 de junho em Siena. A análise de Soldani documentou uma chuvas de meteoritos em junto daquele ano em Siena, na Itália, e avaliou alguns dos fragmentos que haviam se formado, segundo o que se conhecida na época, nas “nuvens altas”. A partir dali, no entanto, iriam mudar as explicações sobre a origem daqueles fenômenos em direção a suas raízes cósmicas, um ponto argumentado mais constantemente por Ernst Chladni, cujo estudo, também de 1794, A Origem do Pallas de Ferro, outros similares a ele e alguns Fenômenos Naturais associados defendeu as origens espaciais dos meteoritos. O “Pallas de Ferro” (mais conhecido como o meteorito Krasnojarsk) foi um meteorito russo coletado em 1772, por Peter Simon Pallas, e avaliado em 1.500 libras.

Os primeiros a coletarem seus fragmentos foram principalmente museus, com objetivos  que pareciam estar ao menos direcionados à descoberta científica. No entanto, quando Chladni analisava alguns d​​os fragmentos dos meteoritos de Siena, em 1797, ele notou que os fragmentos do meteorito estavam sendo continuamente vendidos a alguns turistas ingleses. Chladni, que adquiriu e montou sua própria coleção, preparou um catálogo daqueles fragmentos em 1825, mostrando que a maioria acabou passando para coleções de museus. Em 1913, o curador de geologia do Field Museum, Oliver C. Farrington, ligou as coleções de meteoritos não só aos museus mas também aos “detentores” da alta cultura, dizendo que o ato da busca e recolha de um meteorito “pode facilmente ser utilizado para se demonstrar civilidade“. Farrington afirmou à época, talvez bastante preconceituosamente, que um mapa de pontos de recolha de meteoritos “é quase exatamente um mapa da raça caucasiana, ou, em outras palavras, dos povos civilizados… Um mapa mostrando a localização do ponto de impacto de um meteorito serviria também, de uma forma geral, para um mapa dos museus do mundo e a presença de museus, como bem se sabe, é uma marca da mais alta cultura”.

O meteorito Willamette no Museu Americano de História Natural de hoje (imagem cortesia wikipedia usuário Meteor).

O meteorito Willamette no Museu Americano de História Natural de hoje (imagem cortesia wikipedia usuário Meteor).

Talvez o mais famoso meteorito americano seja o meteorito Willamette, que foi documentado pela primeira vez pelos europeus no início do século XX e é avaliado em cerca de 53 mil dólares. A propriedade legal do meteorito foi entregue ao Oregon Iron and Steel Company em 1905 que o vendeu a um colecionador que, posteriormente, devolveu-o para o Museu Americano de História Natural, em 1906. Conhecido pelos povos nativos como Tomowanos, o meteorito se tornou alvo do Native American Graves Protection and Repatriation Act (NAGPRA), que reivindicava o retorno do meteorito aos povos nativos de Oregon. Em 2000, o Museu assinou um acordo com as tribos confederadas da Grand Ronde Community of Oregon para garantir o acesso permanente ao meteorito por membros da tribo, incluindo cerimônias anuais realizados no museu e que estão registrada na página da comunidade no facebook .

O fascínio suscitado por tais detritos provavelmente girou em torno de sua evocação material dos elementos primordiais do universo e do misterioso das dimensões não explicáveis ​​da natureza e do cosmos. Possuir um destes objetos – e tentar explica-lo – assegura algum sentido de poder sobre uma natureza, uma forma inconstante e incontrolável. As explicações podem ser dissecções puramente científicas sobre as origens químicas de meteoritos e detritos espaciais, que fornecem alguma medida de explicabilidade sobre os objetos. Contudo, o que se pensa quando ouvimos a palavra “meteoritos” pode soar esquisito, mas ainda são avisos inquietantes sobre o poder da natureza: afinal, a cratera de Chicxulub, na península de Yucatán, foi formada por uma colisão de asteroides que infligiu uma extinção em massa há cerca de 66 milhões de anos.

A coleção de meteoritos do Museu de História Natural de Viena.

A coleção de meteoritos do Museu de História Natural de Viena.

O fascínio com tais objetos certamente também é inflado por seu suposto valor de troca, mas este valor não foi criado pelo mercado: no caso de coleções de detritos espaciais, a curiosidade sobre a coisa e sua invocação do poder da natureza precedeu um mercado de negociação que torna os objetos em coisas simplesmente intercambiáveis, em commodities. Quando fragmentos do meteorito Willamette foram colocadas à venda em um leilão, os povos indígenas foram contra os vendedores, incluindo um vendedor em 2007, que afirmou que “As crenças da Grand Ronde [povos indígenas do Oregon] não deverão impedir a ciência ou o comércio de meteoritos ” (o fragmento eventualmente ficou aquém das sua estimativa de pré-venda e não foi comprado).

A coleta de tais objetos que materializam os esforços para garantir o controle simbólico sobre a vida é um pouco semelhante ao estudo de Gabriel Moshenska sobre as coleções de estilhaços da Segunda Guerra Mundial. Durante a Segunda Guerra Mundial, as crianças recolhiam, negociavam e, em casos, faziam uma certa curadoria dos estilhaços produzidos pelo conflito para “conseguir lidar com a agitação e a brutalidade de toda aquela guerra”. Moshenska argumenta que a coleta de estilhaços era distinta da outra coleta de material em seu esforço para negar a destruição do conflito, ou domesticar a violência durante a guerra. Por isso começaram a ter um ativo papel simbólico na guerra. Como os meteoritos, cada pedaço de estilhaços estava torcido e dilapidado com exclusividade, em sua forma contemporânea, refletindo suas próprias origens peculiares. Os estilhaços estavam livre para a coleta, sem ambições de longo prazo para o comércio dos fragmentos para outra coisa senão o acúmulo de estilhaços “diferentes dos comuns”, por isso escapou à especulação dos valores de mercado (embora estilhaços agora sejam negociados no Ebay e em comunidades de colecionadores).

Em 1938, um meteorito atravessou por este assento de carro em Benld, Illinois, agora exposto no Museu Field (imagem cortesia Shsilver)

Em 1938, um meteorito atravessou por este assento de carro em Benld, Illinois, agora exposto no Museu Field (imagem cortesia Shsilver)

Toda coleta envolve alguma aspiração que se possa controlar a forma como as coleções serão usadas para categorizar um mundo e uma vida social. Objetos associados à violência, no caso de estilhaços, ou da fúria imprevisível da natureza, no caso de meteoritos, certamente pretendem estabelecer algum controle sobre as coisas que não podem ser controladas. Qualquer rocha, seja ela terrena ou não, leva o símbolo do tempo geológico profundo, o que faz muitas pessoas coletarem amostras geológicas que tecem a história do tempo e carregam em si uma imensa complexidade geológica. No entanto, meteoritos invocam essa profundidade primal de tempo e da natureza, ressaltando sua imprevisibilidade e refletindo a necessidade que algumas pessoas têm em encontrar alternativas às explicações científicas. Para alguns desses observadores, fragmentos de meteoritos são menos sobre o valor de troca do que a sua iluminação simbólica das profundezas da natureza e da ausência de controle sobre a natureza dos seres humanos. Para alguns são ciência e a oportunidade de um aprofundamento do conhecimento científico. Mas, para muitos, ainda são apenas uma boa oportunidade para se fazer dinheiro.

Leia as fontes e o texto em inglês.

Paul Mullins

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