Tom Zé: “Sempre fazia canções reparando o que estava de errado na maneira de combater a Ditadura”

Tom Zé durante entrevista para o Livre Opinião

Tom Zé durante entrevista para o Livre Opinião

O SESC de São Carlos realiza no mês de março o projeto “Arte Engajada“, cujo tema “Os 50 anos do Golpe Militar brasileiro e a ‘resposta’ da cultura ao regime ditatorial no país”, organiza debate, música, teatro, cinema e literatura. Nada melhor que a participação especial do cantor e compositor Tom Zé para discutir e comentar como foi conviver com a censura que privou diversos projetos da área artística brasileira.

Um dos mais criativos nomes da MPB e expoente – junto com Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, entre outros – do movimento Tropicália, Tom Zé apresentou, na última quarta-feira (12), o show do álbum “Todos os Olhos”, lançado em 1973 e considerado o mais político do cantor,  com canções que abordam sua posição contra o regime Ditatorial (1964-1985). No palco, Tom Zé estava acompanhado por sua banda que conta com Daniel Maia (guitarra), Jarbas Mariz (bandolim, viola 12 cordas e percussão), Felipe Alves (contrabaixo) e Rogério Bastos (bateria).

No repertório, Tom Zé começou com a canção título do álbum comemorativo, “Todos os Olhos”, e em seguida clássicas músicas como “Menina Amanhã de Manhã”, “O Riso e a Faca”, “Augusta, Angélica e Consolação”, “Botaram Tanta Fumaça”, “Capitais e Tais”, entre outras. Atendendo ao público, Tom Zé finalizou o show com “Tô”, do álbum “Estudando o Samba”, de 1976.

Minutos antes do concerto, Tom Zé concedeu uma entrevista para o Livre Opinião e explicou a importância do álbum “Todos os Olhos” no período conturbado da Ditadura Militar. Ele destacou o embate que teve com a censura na época e comentou sobre os novos cantores da MPB, além de opinar sobre as manifestações atuais. Confira a seguir a entrevista na íntegra:

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O show irá tocar na íntegra o álbum de 1973. Em sua opinião, qual foi a importância deste disco no período da Ditadura Militar, assim como na divulgação de suas ideias sobre o contexto?

Tom Zé: É a coincidência de que todo mundo estava preocupado direta ou indiretamente com a ilegalidade, do que era chamado legal. As canções que fazíamos, simplesmente como canções, tinham a preocupação de censura e algumas, é claro, falavam do entorno, como foi o caso da própria “Todos os Olhos”. Mas uma pessoa delicada e de senso crítico, além de observação, vai reparar no que eu queria dizer nas minhas letras. Eu nunca estava de acordo com o regime, embora eu trabalhasse para a classe estudantil, me mantinha como cantor, porém eu sempre fazia canções reparando o que estava errado na maneira de combater a Ditadura. Isto está lá presente o tempo todo no álbum. Quando as canções são referentes à Ditadura eu me lembro do caso que utilizei como tema a imprensa, está na música “Dodô e Zezé”. Outra canção também pode notar diretamente contra o Regime Militar é a própria “Todos os Olhos”, que retrata uma sessão de tortura, mas parece que a juventude está esperando que eu seja um herói, que eu seja uma criatura que saiba dar as ordens políticas e essa espécie de herói era uma coisa errada de procurar.

Sobre a censura no seu trabalho artístico. Como foi o embate?

Tom Zé: Toda a vida, o tempo todo era assim. Não são propriamente recordações agradáveis, porque tinha uma espécie de crime estabelecido como lei. A lei era um tipo de crime. O crime de cercear a liberdade, inclusive de expressão. Tentávamos driblar um pouco isso, sendo que o drible se tornava sempre cômico. Escondendo, às vezes, a crítica que estava sendo contra o Regime Militar, popularmente nas entrelinhas ou cantando com uma expressão que transformava certo tipo de texto aparentemente inocente, em um texto de interpretação que marcava a crítica à Ditadura. Por exemplo, no Teatro de Arena, Augusto Boal [diretor de teatro, faleceu em 2009] transformou a canção “Carcará” [composta por João do Vale e José Cândido], principalmente no verso “Pega, mata e come” parecer como som de um fuzil. A Nara [Leão] ainda cantava com uma delicadeza que só ela conseguia, mas quando [Maria] Bethânia assumiu, a canção tornou-se uma arma. Toda a hora que ouvia Bethânia cantar o verso “Pega, mata e come” era como se falasse: reaja contra a Ditadura. Envolver um texto que, aparentemente, não tem nada a ver com um tema e transformá-lo em um grito de guerra é uma coisa que se usa sempre.

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Tom Zé durante show

A seu ver, os cantores da nova geração – citando alguns como Criolo, Emicida e o grupo Racionais Mc’s – abordam em suas letras uma crítica às Políticas Públicas que não atendem à demanda necessária de certa comunidade. Assim como você fez crítica ao cotidiano durante o período Militar, o que tem escutado e admirado nas canções de hoje?

Tom Zé: Antes de tudo, o orgulho de que o país tenha compositores tão bons preocupados com isto. Porque, realmente, a qualidade do que produz o Emicida, Criolo e todo o pessoal do Rap, é impressionante! A gente vê um show deles e sai com alegria muito grande. Tem um verso que o poeta sempre diz: “quando um poeta começa a escrever mal, é um sintoma de que em cinco anos ele não vai poder nem se governar”. Nós, pela a juventude de hoje e pelo o que ela escreve, mesmo a juventude da periferia que nem tiveram direito a uma educação razoável, dizemos que o Brasil está muito bem munido de armas para o futuro. Que para mim são as armas intelectuais que vão explicar o futuro.

Assim como ocorreu no Regime Militar, as manifestações foram os principais mecanismo de criticar o governo daquele período. Atualmente, com as manifestações que tiveram um grande número de pessoas, cito as ocorridas em junho e julho do ano passado, qual é a sua análise dessas manifestações e a geração que está saindo às ruas?

Tom Zé: Tivemos várias fases das atuais manifestações. Tivemos o momento em que os jornais eram contra, apontando que os manifestantes estavam “atrapalhando o trânsito”. Outro momento os mesmos jornais descobriram que a força da manifestação era grande, sendo uma resposta à sociedade, pelo menos a parte jovem, sobre a maneira de governar. Mas depois teve um momento que as manifestações se tornaram uma força tão grande que todo mundo começou a querer manejar. A direita quis manejar, de repente o Renan Calheiros [atual presidente do senado] estava quase de bandeirola passeando no meio da rua com os outros. Agora, esta arma das manifestações começou a perder a eficiência, porque as pessoas mascaradas entram e quebram as coisas e ninguém sabe se aquilo é baderna ou protesto. É o que está acontecendo. Em todo caso tenho esperança de que este procedimento saiba compreender que não se pode evitar os partidos e a presença de todo o mundo no meio das manifestações. Porque, novamente, a gente poderá estar transformando o ato em uma coisa não democrática.

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Tom Zé durante show

 

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