Glauber Rocha: 75 anos do Santo Guerreiro

Glauber Rocha

Glauber Rocha

Neste dia 14 de março, Glauber Rocha faria 75 anos de idade. Neste mesmo ano e mês, temos duas efemérides que dão a dimensão dos tempos de auge estético e de ápice do dragão da maldade política brasileira: 50 anos de Deus e o Diabo na terra do sol, filme que representa uma guinada no cinema brasileiro, em sua narrativa poética fecundada pelo exemplo de Euclides da Cunha, autor de Os sertões (1902). Também, 50 anos do golpe militar, que colocou o país em 20 anos de escuridão política.

Glauber não era uma personalidade fácil. No Brasil, o intelectual interessado sempre passa por contradições, inibições, recuos e avanços. Glauber respondia a isso com urros criativos. Outra característica de nosso meio, no qual as respostas às carências têm de causar estrondo. Do contrário, não roça, sequer, nossas questões. Nosso cineasta central aliava a uma consciência estética profunda a necessidade de intervenção audiovisual na realidade carente do Brasil.

Visto com muitas reservas pela esquerda e pela direita, mesmo que identificado a uma perspectiva revolucionária de criação de uma civilização brasileira que pudesse nos redimir no concerto mundial e colocar nosso povo em outro patamar, Glauber seguia seu próprio curso, avesso a patrulhas de qualquer bandeira. Desse modo, pôde realizar leituras da realidade brasileira que prescindem de uma categorização fácil, porque devem ser vistas e compreendidas como essenciais para nossa formação e para “passar o Brasil a limpo”, como gostava de falar seu amigo Darcy Ribeiro.

Glauber começara com Barravento, em 1962. Nesse filme, faz uma crítica pelo viés marxista da mistificação religiosa, entendida como um obstáculo à luta política. Mesmo assim, as imagens que mostra do candomblé, seu respeito pela cultura negra, são visíveis no filme: uma contradição típica brasileira. Seu mestre Euclides é o avatar dessas contradições movidas a carne, mais que a teorias.

Depois de Deus e o diabo na terra do sol, Glauber faria um filme que, a nosso ver, ainda não foi devidamente pensado: Terra em transe. Muita tinta se gastou sobre ele. Mas as melhores respostas não vieram pela crítica, nem pela academia. Vieram pela estética. Caetano Veloso, em Verdade tropical, marca Terra em transe como um dos atos decisivos para a guinada tropicalista, junto à encenação de O rei da vela, peça de Oswald de Andrade dirigida por José Celso Martinez Corrêa. Filme e peça em 1967.  O Brasil de Getúlio e Jango não seria mais visto pelas mesmas lentes: o populismo é desnudado em suas contradições. É política a serviço do povo ou dele fazendo uso? Quais são os desníveis entre Poder e Povo, Estado e Cidadão? E o populismo fracassa. Quem vence ao final é o ditador Porfírio Diaz, a direita imperialista magistralmente interpretada por Paulo Autran. Nada mais adequado ao ano que antecede o AI-5, ato que colocou, definitivamente, as rédeas na produção cultural e a coerção física a serviço do poder.

Othon Bastos em cena de "Deus e o Diabo na Terra do Sol"

Othon Bastos em cena de “Deus e o Diabo na Terra do Sol”

No Brasil, ainda realizaria O dragão da maldade contra o santo guerreiro, lançado em 1968. Nesse filme, dá seguimento à sua linguagem poética, agora realizado em cores. Retoma seu personagem Antônio das Mortes, interpretado por Maurício do Valle, já presente em Deus e o diabo.  O cangaceiro Coirana (Lorival Pariz) e a Santa (Rosa Maria Penna) são entidades populares brasileiras derrotadas pelo mercenário do latifúndio Antônio das Mortes. Antônio, no entanto, não é um mercenário típico. O seu ódio mortífero se liga mais a uma perspectiva destrutiva e niilista que julga necessária, para a erradicação da mistificação e dos obstáculos para a mudança. Não percebe, até então, que o ódio é inócuo. Ao final do filme, depois de matar Coirana e perceber que estava do lado errado, se redime e se junta ao Professor (interpretado por Othon Bastos), conotando a aliança entre o povo redimido e o intelectual participante, aliados para a revolução nacional-popular.

Glauber, nessa treva histórica que foi a ditadura brasileira, só voltaria a filmar no Brasil um grande filme ao final da década de 1970. Para A idade da terra, lançado em 1980 e seu último filme, cuja poesia atinge o paroxismo. Nesse filme, a situação colonial é recolocada dentro da forma mítica da legenda de Jesus Cristo. Em quatro Cristos: um guerrilheiro, um negro, um índio e um militar. Explora as possibilidades cinematográficas, entre poesia pura, teatro e documentário, retomando as lições já exploradas na obra central Deus e o diabo: o distanciamento entre narração e narratário, meio e espectador, cinema e consciência. O bom e velho Brecht já maravilhosamente posto no sertão na interpretação de Corisco, por Othon Bastos, quando dialoga consigo mesmo, Corisco, e Lampião. O diálogo se baseia em cortes e expressão do ator. Em A idade da terra, Glauber não hesita, para o mesmo efeito de distanciamento, em dirigir atores e atrizes em voz alta, montar repetições da mesma cena, sequências longas filmadas em cortes dialéticos, segundo a velha e boa lição de Eisenstein.

Glauber Rocha

Glauber Rocha

Nesse ínterim em que se exila, entre 1969 e 1976, Glauber gravaria apenas filmes fora do Brasil. Neles, está a súmula do que fizera no país e o prenúncio de A idade da terra. Cabeças cortadas (1970), um filme sobre as ditaduras e o poder, deliberadamente sem localização espacial, Der leone have sept cabezas (1971), uma alegoria do imperialismo europeu em África e Claro (1975), filme realizado na Itália cuja dura poética distanciada seria reutilizada em sua última obra. Ainda gravara Câncer, no Brasil, antes do Santo Guerreiro, sem roteiro e sem pudores: prenúncio do cinema marginal.

Quando volta ao Brasil, Glauber sofre. Sofre pela incompreensão das esquerdas, perdidas em dogmas colonizados, entre União Soviética e uma política sem atenção ao povo brasileiro. O velho MDB, partido criado no seio da ditadura, abrigava de comunistas a liberais. A questão não se resume aí, no entanto. Como se revisitasse, em vida, os dramas de Terra em Transe, Glauber sofre na pele a distância entre um país miserável e uma política cujas cogitações estavam em Brasília e nas metrópoles. Nunca em Monte Santo. Era um Eldorado fracassado. E deu no que deu. A esquerda e a direita que criticavam Glauber se confundem hoje na mesma submissão ao imperialismo econômico e ao capitalismo chamado tardio, uma estrutura que a poesia desmontou, mas não pôde alterar.

Glauber é um universo a se explorar. Não falamos de seus documentários, Maranhão 66 e Amazonas, Amazonas, que são peças à parte, modelos do que deve ser feito para a real agressão à imagem plácida do país. Nem falamos de sua participação no programa Abertura, da TV Tupi, no qual, diga-se, botava a cara a tapa na crítica à intelectualidade brasileira (indicamos um vídeo desse programa abaixo). Permanece, logo, muito mais que atual. Imagino o que Glauber diria para um Brasil novo que se manifesta hoje. Ele não viu as Diretas. Mas deveria, mesmo, ter visto as manifestações de 2013, na qual o patriotismo mais arcaico juntava a suas reivindicações a ânsia mais básica: comer, morar, ter saúde. Esse país precisava de mais Glauber. Essas contradições são nossas. E a resposta ele tinha. Glauber, sempre como disse sua mãe, Lúcia Rocha, em entrevistas à imprensa, “morreu de Brasil”, jovem, aos 42 anos. O Brasil era seu cancro e seu amor. Glauber é nosso sintoma e nossa cura.

De seus filmes, apenas os gravados no Brasil estão disponíveis em DVD, à exceção de Câncer, pela Versátil Home Video.

Vídeo do Programa Abertura, da TV Tupi, no qual Glauber, de Euclides ao Teatro Oficina, coloca questões a respeito da estrutura franqueada ao artista brasileiro. No panorama de uma indústria de cinema dominante, Hollywood, a carência cultural depende estritamente da carência material do país, como um todo, cujas questões representam desde o fator da produção artística estadunidense até a ausência de uma cultura ativa, em diálogo com a população. O que nos resta, no vídeo, e é mais fecundo, é a integração entre criação e crítica, poesia e política, que perpassam seus filmes.

Um documentário – ou algo que se aproxime – sobre a morte, velório e homenagem à vida de Di Cavalcanti: Di Cavalcanti di Glauber (1977).

Julio Bastoni

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