Influência no samba, primeiro álbum de Cartola completa 40 anos

O cantor e compositor sambista Cartola

O cantor e compositor Cartola

Neste ano, o primeiro álbum lançado pelo cantor e compositor sambista Cartola completa 40 anos. Considerado por críticos da área como o maior sambista da música brasileira, com méritos, Cartola somente gravou seu primeiro registro fonográfico aos 66 anos, marcando para sempre a história do gênero. Logo na primeira faixa, “Disfarça e Chora”, Cartola expõe sua poesia e  com simples versos, declamados na voz mansa, inovou o samba e influenciou diversos artistas das gerações seguintes.

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No disco, lançado em 1974, clássicas canções que atravessaram anos e até hoje são influências, como “Sim”, “Corra e Olha o Céu”, “O Sol Nascerá”, “Alvorada”, “Alegria”, entre outras. Músicas que ecoam o sentimento do morador do morro e a melancolia do amor. Mas é emitindo a luz que o cantor sempre metaforizou como a esperança, o sol está presente em suas letras possibilitando ao eu-lírico um facho que fornece a energia de se erguer, isto está na já citada “Corra e Olha o Céu”, parceria de Cartola com Dalmo Casteli, metaforizando a utopia do cidadão brasileiro que em sua corrida do dia a dia não deixa de olhar para cima e encarar o céu esperando uma resposta do alto, mesmo que seja um mero “bom dia”.

Deste modo, Cartola cantou as mágoas de seu povo, o cotidiano do morro, do trabalhador e do desencanto, nota-se na clássica “O Sol Nascerá”, escrita juntamente com o nobre sambista Elton Medeiros, em que o famoso verso “foi chorando eu vi a mocidade perdida” evidencia a decepção em que o Brasil se encontrava, com a situação da população de baixa renda em que a crônica de Cartola deixou marcada.

Capa do álbum de 1974

Capa do álbum de 1974

Fundador, em 1928, da histórica escola de samba Estação Primeira de Mangueira, Cartola desde os anos de 1930 escrevia e cantava nas rodas de partido alto, porém somente em 1974 conseguiu entrar no estúdio para gravar um LP. Com o seu inseparável óculos escuros, a capa do disco, toda em preto e branco, além do sorriso tímido, traduz um senhor que atrás daquele acessório escuro observou e colocou em prática sua opinião em relação a condição desigual da população, assim como os dois polos – encanto e desencanto – que o relacionamento amoroso pode fornecer.

Muito maduro, Cartola utiliza a temática do amor de modo profundo, quem nunca sentiu o peito afundar com os versos da linda “Sim”, parceria com Oswaldo Martins: “Consegui um grande amor/Mas eu não fui feliz/E com raiva para os céus/Os braços levantei/Blasfemei/Hoje todos são contra mim”. Porém, como disse, com maturidade, o perdão está presente, sem mágoas o eu-lírico expõe que o amor é complexo, mostra ser singular, compreensível disso, em que somente uma pessoa experiente consegue entender, a canção termina com um dos melhores versos já escritos no samba: “Todos erram neste mundo/Não há exceção/Quando voltam a realidade/Conseguem perdão”, tendo como fundo musical os maravilhosos acordes do violão de 7 cordas de Horondino José da Silva.

É interessante analisar uma das músicas mais poética de Cartola, “Alvorada”, escrita juntamente com Carlos Cachaça e Hermínio Bello. Nela, o cantor expressa o morro ideal, onde o compositor relata o que deseja encontrar no ambiente em que vive, um poeta tem sonhos e o de Cartola era viver em um morro que “ninguém chora, não há tristeza, ninguém sente dissabor”, tendo na alvorada a utopia do cantor.

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O álbum comemorativo é importante para o samba, todas as canções assinadas por Cartola, tendo algumas parcerias, expressam um compositor experiente. Com rimas inteligentes, Cartola mostra o cotidiano do morro e da classe baixa que na época não havia possibilidade de opinar. Foi com Cartola, de modo poético, que o morro desceu e colocou em canção a vida da comunidade. Graças ao disco de 1974, Cartola influenciou diversos sambistas que, citando os acordes e versos, fizeram do gênero a marca do país, chegando o mais próximo do relato da rotina dos brasileiros.

Após seu primeiro álbum de estúdio, Cartola gravaria mais três discos, destacando “Verde Que Te Quero Rosa”, lançado em 1977, em que homenageia a escola de samba que ajudou a fundar, Estação Primeira de Mangueira. Em 1980, Cartola silencia sua voz aos 72 anos, mas deixando canções atemporais executadas nos repertórios de todas as rodas de samba do país.

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