Brado retumbante: resistência à ditadura em dois contos de Caio F. Abreu

Caio Fernando Abreu.

Caio Fernando Abreu.

Caio Fernando Abreu, escritor brasileiro, dramaturgo e jornalista, apresenta uma visão dramática do mundo moderno e é considerado um “fotógrafo da fragmentação contemporânea”. Escrevia muito sobre sexo, medo, homossexualidade e solidão, além dos temas sociais e históricos, já que o escritor presenciou os efeitos do golpe militar de 1964. Em 1968 foi perseguido por partidos direitistas e, assim, em 1970 se exilou na Europa, morando em diversos países. Seu regresso ao Brasil ocorreu somente em 1974, voltando para Porto Alegre – sua cidade natal – e lá permanecendo até sua morte (em 1996).

Seus contos se voltam para a perspectiva interior dos indivíduos, mas as problemáticas, as repressões e desilusões que os jovens sofreram como consequências desta época são, também, representadas. Seus textos, em essência, são a investigação interior e o autoconhecimento. O escritor acaba reproduzindo uma “nova” realidade, realidade essa que pode ser vista não apenas como a representação da vida social brasileira, mas também, nas palavras da estudiosa Luísa Lobo, como “uma realidade nova, ‘opaca’, que não pode ser compreendida, em relação ao seu horizonte de expectativa diretamente, mas apenas através das perguntas que lhe proporcionem uma também renovada percepção do mundo e do problema humano”.

Com a abolição da liberdade de expressão em território brasileiro durante a ditadura, todo e qualquer sujeito que apresentasse inclinação ao regime anterior, tendências socialistas e/ou fugisse dos padrões conservadores postulados pelos militares, sofriam com a mão de ferro da ditadura. Esse período é marcado e relembrado pela violência e intolerância das ações policiais, eternizado nos depoimentos de quem sofreu com a repressão.

Leia mais artigos do documento “50 anos do Golpe” e curta a página do Livre Opinião no Facebook

A saída encontrada por opositores da classe média foi o exílio. Fugir para outros países ditos democráticos era a forma de se manter íntegro e vivo durante esse panorama de repressão. Dentre os exilados encontramos vários artistas, como Gilberto Gil, Caetano Veloso, além do próprio Caio Fernando Abreu.

Tomaremos dois contos da extensa obra de Abreu, “Garopaba mon amour” e “London, London ou ajax, brush and rubbish”, e observaremos como o escritor constrói, através de uma narrativa literária, um discurso de resistência à ditadura, denunciando as consequências da brutalidade ditatorial no sujeito brasileiro em dois âmbitos: a ação direta da violência em território nacional e a distância da identidade e cultura na condição de exilado.

TORTURA

Capa do livro Pedras de Calcutá.

Capa do livro Pedras de Calcutá.

O conto “Garopaba mon amour” de Caio Fernando Abreu, pertence ao livro Pedras de Calcutá, cuja primeira publicação ocorreu em 1977. O escritor coloca, em grande parte da obra, suas próprias experiências, já que passou por um momento muito desconfortável de tortura. De férias na praia de Garopaba, no litoral catarinense, ele foi preso junto com a escritora Graça Medeiros. Essa experiência teria sido motivadora para a escrita do conto.

Inicialmente, o título “mon amour” faz referência a um filme franco-japonês de 1959, “Hiroshima mon amour”, do diretor Alain Resnais. A história é sobre um relacionamento entre um homem japonês e uma mulher francesa. A personagem vai a Hiroshima fazer um filme sobre a paz. Lá ela conhece um arquiteto por quem se apaixona. O filme analisa a memória, a psicologia, o comportamento dos personagens, bem como os traumas que os afligem.

Garopaba mon amour” é o que se poderia chamar de uma narrativa fragmentada, na qual não apresenta uma linearidade de narração, pois encontramos lapsos temporais e um não-distanciamento, em que o narrador conta o antes, o durante e o depois da tortura. Vemos uma fusão entre passado, presente e futuro; acontecimentos que já ocorreram e o que virá a ocorrer. O antes da tortura fica bem claro quando lemos a chegada dos jovens na praia e o quanto eles se divertem; em relação ao durante do acontecimento, percebemos os diálogos cruéis, com as atitudes frívolas e agonizantes:

— Conta.

— Não sei. (Bofetada na face esquerda.)

— Conta.

— Não sei. (Bofetada na face direita.)

— Conta.

— Não sei. (Pontapé nas costas.) 

O depois da tortura é marcado por uma grande interioridade: o narrador, em primeira pessoa, conversa com o mar: “Sentimos coisas incontroláveis, Mar: amor narcótico, amor veneno matando para sempre células nervosas, amor vizinho da loucura, maldito amor de mis entrañas: viva la muerte.”. Esses momentos temporais, de três “sequências”, é o que constroem o conto, porém de uma forma não organizada: os três momentos (antes, durante e depois) se mesclam durante a narrativa, tornando-a não linear. Vemos, novamente, outra intertextualidade com o filme “Hiroshima mon amour”, que é conhecido pelas inovações cinematográficas ao que concerne a construção da diegese e o uso de flashbacks.

Inclusive, observamos neste tipo discursivo que há instantes de preconceito e repressão sobre jovens hippies, drogados e homossexuais em uma praia de Santa Catarina, Garopaba. Estabelecendo uma relação intertextual e interdiscursiva, os jovens, assim como a personagem feminina do filme, procuram um ambiente pacífico e que renovem as inquietações do espírito. Logo no primeiro parágrafo, notamos que se trata, sim, da geração de 70, devido aos atos e hábitos típicos desses jovens: “Foram os primeiros a chegar. Durante a noite, o vento sacudindo a lona da barraca, podiam ouvir os gritos dos outros, as estacas de metal violando a terra […]”, ou seja, é uma reunião de amigos em uma praia, ao som de um violão. Durante o conto, veremos referências a essa época, como as drogas, as roupas típicas dessa geração, etc.

[…] latas de cerveja copos de plástico papéis amassados pontas de cigarro seringas manchadas de sangue latas de conserva ampolas vazias vidros de óleo de bronzear bagas bolsas de couro fotonovelas tamancos ortopédicos.

Percebemos, aliás, uma excentricidade ao descrever a praia em que estão por meio de figuras de linguagem:

E baías e matas cheias de gatos selvagens e clareiras com raízes arrancando da terra escura substâncias para transmutá-las através do tronco em flores vermelhas, escancaradas feito feridas sangrentas na extremidade dos galhos.

A disposição das ações dos agressores, no momento da tortura, dentro de parêntesis é outro aspecto que chama atenção nesse conto. Como se fosse possível silenciar as ações dos torturadores, ou mesmo ocultá-las, elas aparecem entre parêntesis, ao longo dos diálogos estabelecidos entre torturador e torturado. Uma das cenas relatadas por diálogos denota um tom de ordem pelo uso do verbo no imperativo, caracterizando a opressão dentro do regime ditatorial. A tortura, aliás, provoca o horror e o medo, que levam a desordem mental: “Clama por Deus, pelo demônio. As luzes do mar são barcos pescando, não discos voadores.” Os acontecimentos relatados provocam um deslocamento de sentido entre o título do conto e o título do filme: aqui não é a paz que reina, mas sim a opressão, a angústia e o transtorno psicológico. O título do conto, então, estabelece uma tensão irônica com seu conteúdo.

Neste sentido, há uma intertextualidade que começa a aparecer em trechos da música do Rolling Stones, Sympathy for the Devil, tornando a letra parte da construção narrativa. Além da música, encontramos passagens que fazem referências a textos sagrados, como Sodoma e Gomorra, as cidades destruídas por Deus: “Depois da grande guerra nuclear, um vento soprando as cinzas radioativas sobre os escombros de Sodoma e Gomorra e a voz de Mick Jagger esvoaçando pelos desertos.” Sem contar o clamor simultâneo por Deus e pelo demônio, vemos também no conto a inclusão de orações em meio à descrição das mazelas que cercam as personagens:

Com Deus me deito com Deus me levanto com a graça de Deus e do Espírito Santo se a morte me perseguir os anjos hão de me proteger, amém. Invoca seus mortos. Os que o câncer levou, os que os ferros retorcidos dos automóveis dilaceraram, os que as lâminas cortaram, os que o excesso de barbitúricos adormeceu para sempre, os que cerraram com força nós em torno de suas gargantas em banheiros fechados dos boqueirões & praças de Munique.

Observamos nesse enxerto, então, a atualização do discurso religioso para o discurso de resistência. Não só os textos sagrados constituem esse conto de forma intertextual, mas também o interdiscurso – que constitui o discurso analisado – e os elementos do século escravocrata aparecem de forma comparativa ao tempo/época da narração:

Recusava-se a pisar nos paralelepípedos, os pés nus acomodavam-se melhor ao redondo quente das pedras antigas, absorvendo vibrações perdidas, rodas de carruagem, barra rendada das saias de sinhás-moças, solas cascudas dos pés dos escravos. Mar veio correndo sobre as carruagens, as sinhás-moças, os pés cascudos e pretos.

Caio F. Abreu rompe com a estrutura tradicional através dos parágrafos, distribuições das frases e pontuações, o que Bakhtin denomina de “carnavalização” – a introdução do carnaval na linguagem, partindo do interior –, a qual vai se manifestar na própria linguagem. Com isso, Abreu utiliza-se, inicialmente, a terceira pessoa para narrar, principalmente quando usa o discurso direto livre (“Pela manhã sentaram sobre a rocha mais alta, cruzaram as pernas, respiraram sete vezes, profundamente, e pediram nada para o mar batendo na areia.”). Porém, mais tarde nos primeiros diálogos, ele se volta para a primeira pessoa (“Mar, ainda não te falei de ontem. Talvez não haja mais tempo. Não sei se sairei vivo. Ontem lavamos na fonte os cabelos um do outro”) para romper a distância entre narrador e leitor, fazendo com que nos aproximemos dos eventos narrados. Notamos as mudanças da voz narrativa, da pessoa narrada, através dos pronomes pessoais e das conjugações verbais. É travado um jogo de relações do discurso, a força do mesmo, com a linguagem, constituindo um sentido para o texto, uma condição de produção em sentido mais amplo, abrangendo o social, o histórico e o ideológico.

Neste conto, há as particularidades de uma época turbulenta, quando se expressar não era permitido e muito menos fazer parte de um partido político opositor. Se fosse, sofreria as graves consequências, como o que ocorre no que aqui está retratado: a tortura militar. Por mais que o texto soe como uma narrativa suave, musical e com tom poético, percebemos a crueldade e a tristeza daqueles – não só de Abreu – de que foram torturados, e a consequência física, psicológica e emocional das pessoas.

EXÍLIO

Protesto contra a censura durante a Ditadura Militar Brasileira.

Protesto contra a censura durante a Ditadura Militar Brasileira.

Como já dito, durante a ditadura militar brasileira, como forma de se distanciar da repressão presente nas ruas do país, muitas pessoas – da classe média – se exilaram em outros países. Caio transpõe, também, através de seu trabalho literário, os efeitos presentes no subjetivo do sujeito que deixa sua pátria por medo e alça novos voos no desconhecido, como vemos no conto ‘London, London ou ajax, brush and rubbish’, publicado em 1977 no livro Pedras de Calcutá.

O título e a obra em si representam a experiência de Caio na capital inglesa atuando como faxineiro durante o exílio. As palavras ‘ajax, brush e rubbish’ (ajax, escova e lixo) remetem a objetos utilizados na limpeza doméstica. O título do conto também estabelece uma relação intertextual e interdiscursiva com a canção, de mesmo nome, composta por Caetano Veloso e lançada na década de 1970.

A canção do baiano, também escrita nas mesmas condições de produção de fuga da crueldade militar no Brasil, ao servir como título para o conto do gaúcho, produz, no entanto, um deslocamento de sentidos sobre o que é estar exilado.

I’m lonely in London, London is lovely so

I cross the streets without fear

Everybody keeps the way clear

I know I know no one here to say hello

I know they keep the way clear

I am lonely in London without fear

Caetano canta a liberdade e a solidão (I’m lonely) do exilado em Londres, produzindo efeitos de encantamento sobre a cidade (London is lovely) e de liberdade em andar pela metrópole (I cross the streets without fear). Portanto, na música de Caetano, o exílio é interpretado como libertação das amarras que os opositores da ditadura sofriam no país, e parece encontrar no exterior a expressão máxima de liberdade. Agora observemos um excerto do conto de Abreu:

Afasto as pernas das pessoas, as latas de lixo, levanto jornais, empurro bancos. Tenho duas opções: sentar na escada suja e chorar ou sair correndo e jogar-me no Tâmisa. Prefiro tomar o próximo trem para a próxima casa, navegar nas waves de meu próprio assobio e esperar por Mrs. Burnes, que não vem, que não vem.

Embora livre, é enfatizado o sofrimento do exílio. O deslocamento é reforçado pelo título alternativo do conto: ‘ou ajax, brush and rubbish’. A paisagem encantadora de liberdade construída por Caetano serve de pano para a narrativa, mas são produzidos efeitos de sentidos diferentes sobre a experiência de se refugiar, sintetizado pelo ajax (produto de limpeza), a escova e o lixo. O sofrimento da ditadura é problematizado por Abreu mais profundamente. A repressão atravessa fronteiras e o desolamento está presente também no discurso de quem procura outras terras para viver.

Observamos na obra de Caio F. e, logo, nesse conto, como já dito, a fragmentação do sujeito, vítima do regime ditatorial. Em ‘London London ou ajax, brush and rubbish’ encontramos o discurso de um homem longe de sua terra, de suas tradições e cultura. A perda de identidade nesse processo é representada através do uso de diferentes idiomas na materialidade do conto.

Bolhas nas mãos. Calos nos pés. Dor nas costas. Músculos cansados. Ajax, brush and rubbish. Cabelos duros de poeira. Narinas cheias de poeira. Stairs, stairs, stairs. Bathrooms, Bathrooms. Blobs. Dor nas pernas. Subir, descer, chamar, ouvir. Up, down. Up, down. Many times lost me by undergrounds, corners, places, gardens, squares, terraces, streets, roads. Dor, pain. Blobs, bolhas.

O português, língua materna desse homem, e o inglês, língua oficial do país em que trabalha como faxineiro, mesclam-se em uma tenda textual de retalhos linguísticos e representam a fragmentação cultural da experiência de exílio. A língua, comumente dada como elemento mais expressivo das raízes de uma cultura, apresenta-se diluída neste conto. Isso implica a dificuldade desse sujeito de encontrar algo que seja propriamente seu.

Traz um cinzeiro prata (tailandês) e eu apago meu cigarro (americano). But, sometimes, yo hablo también un poquito de español e, if il faut, aussi un peu de français: navego, navego nas waves poluídas de Babylon City, depois sento no Hyde Park, W2, e assisto ao encontro de Carmenmiranda com uma Rumbeira-From-Kiúba.

Caio enfatiza o viver no exterior. Nada ali é propriamente seu. Logo, não se é nada. O narrador procurar pelas ruas da acinzentada Londres algo que seja familiar.

Para o exilado, a ruptura da ancoragem narcísica se faz em um conflito violento, sobretudo para quem outrora tinha um papel social reconhecido por ele e pela comunidade. Perde o espelho múltiplo a partir do qual criava e nutria sua própria imagem, seu personagem. No exílio, ninguém o conhece, ninguém o reconhece. Aquele que eu era não existe mais. (Viñar & Viñar 1992: 70).

No discurso da personagem é expresso o desejo de voltar para casa e juntar todos os fragmentos que se dispersaram:

Mon cher, apanhe suas maracas, suas malhas de balé, seus pratos chineses – apanhe todos os pedaços que você perdeu nessas andanças e venha para meu tapete mágico. Te quieres volar conmigo hasta los sitios encantados? Something else. (ABREU, 1988, p. 50)

O autor sugere, portando, que o exílio – embora cantado de forma positiva por Caetano – fragmenta o sujeito e diluí sua identidade nacional. Logo, a ditadura obriga a sobrevivência em terras desconhecidas, pondo em xeque as raízes e reconhecimento cultural no diferente. Estar, mas não pertencer.

Com esses dois contos Caio cria um panorama amplo da ação militar no país e descreve em sua escrita de tom lírico, confessional e, por vezes, amargo, as consequências das diferentes formas da violência de um regime que nos tirou a liberdade, afetando o brasileiro da carne ao espírito.

Luana_Sacilotto

Matheus

Anúncios

Um comentário sobre “Brado retumbante: resistência à ditadura em dois contos de Caio F. Abreu

  1. Pingback: Morrer Dói? | Livre Opinião - Ideias em Debate

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s