Especialista na área, Tânia Pellegrini comenta o papel da Literatura no Regime Militar

s200_t_nia.pellegriniDurante o mês de março, o Livre Opinião – Ideias em Debate trará entrevistas em diversas áreas da Cultura com o objetivo de discutir a Ditadura Militar no Brasil. O Documento “50 Anos do Golpe” disponibilizará a cada semana uma entrevista sobre o conturbado período da Ditadura Militar, nos diversos segmentos culturais.

Na entrevista desta semana, o tema abordado é a importância da Literatura nos tempos da Ditadura Militar, discutido pela professora do curso de Letras da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Tânia Pellegrini.

Docente, pesquisadora e orientadora nas áreas de Teoria da Literatura, Literatura Brasileira e Sociologia, principalmente nos temas de narrativas brasileiras contemporâneas e indústria cultural (tem diversas obras publicadas sobre estas temáticas, com destaque para Gavetas vazias – Ficção e política nos anos 70 e A imagem e a letra – Aspectos da ficção brasileira contemporânea), Tânia explicou como foi o posicionamento dos escritores e artistas na época, assim como a autocensura dos autores no contexto Militar.

A professora também comentou a importância da Literatura durante o regime como documento para as novas gerações e o retorno dos discursos e manifestações que anteciparam o golpe de 1964, como por exemplo, a volta da “Marcha da Família com Deus pela Liberdade” e os anseios de seus participantes e organizadores pelo retorno do Regime Militar. Confira a seguir a entrevista na íntegra:

Livre Opinião: Essencialmente, o que significava fazer literatura nos tempos da Ditadura Militar Brasileira? Quais os posicionamentos dos escritores e dos artistas? O que se esperava e o que se via naquela época?

Tânia Pellegrini – No que se refere à cultura em geral, é necessário considerar a censura é também a consolidação da indústria cultural brasileira. A primeira atuou em relação a produtos específicos, cortando ou proibindo a circulação de incontáveis criações em todas as áreas. A literatura não foi menos atingida do que música, cinema ou TV, mas quem sofreu mais foram as telenovelas, por sua capacidade de penetração junto ao público, uma vez que o interesse pela literatura sempre foi problemático no Brasil, devido aos fatores historicamente explicáveis, conhecidos de todos. De qualquer modo, nos anos em que a censura foi mais atuante, muitos livros foram proibidos ou retirados de circulação, mesmo depois de publicados. Já a consolidação da indústria cultural atuou no nível mais geral, fortalecendo uma  forma de produzir literatura e outras criações de modo menos artesanal e individual, ou seja, mais “industrial e moderno”, de acordo com padrões exigidos pelo mercado. Isso aconteceu inclusive com incentivos e subsídios governamentais, implementados por políticas específicas para a área, como a Política Nacional de Cultura, de 1975. Em relação a tudo isso, os autores e criadores tiveram que se enquadrar em novos modos mais profissionais e controlados de produzir.

A professora poderia explicar um pouco sobre a autocensura dos escritores na Ditadura e como isto ficou – se ficou – enraizado na Literatura das décadas seguintes?

A autocensura funcionava como uma espécie de constrangimento interior, relacionado ao medo político e ideológico e à insatisfação geral, que levava os escritores a controlar, no nascedouro, seus temas e modos expressivos, para que não fossem censurados. Eu não acredito que essa autocensura específica, centrada na repressão do regime militar, tenha se enraizado. Acredito mais que a “autocensura” posterior (as aspas são importantes) está mais relacionada com o mercado, com os modos de produção industriais e profissionais, que são controlados pelo mercado livreiro como um todo, incluindo editores, distribuidores e público. Isto é, o escritor, mais do que em qualquer outro período da história, é controlado pelas regras do mercado e pelo gosto do público, já nutrido por esses mesmos mecanismos.

A geração que não vivenciou o período da Ditadura Militar pesquisa esses anos através das narrativas de autores que presenciaram o contexto. No entanto, por meio dessas narrativas, a Literatura na época da Ditadura foi importante como documento histórico?  A professora citaria alguns títulos?

A literatura do período ditatorial foi extremamente importante, pois, nas suas linhas e entrelinhas, podem ser detectados os constrangimentos exteriores a que ela foi submetida, tanto nas escolhas temáticas quanto nos modos expressivos. É nesse sentido que ela funciona como documento histórico. O mesmo aconteceu durante a ditadura Vargas, que foi, no entanto, menos draconiana para a cultura do que a ditadura militar. Desta temos, por exemplo, o memorável documento de Graciliano Ramos, Memórias do cárcere. Do período militar temos outros, não autobiográficos como esse, mas alegóricos, que por outros meios contam a mesma história de arbítrio e repressão, como Zero, de Ignácio de Loyola Brandão, Incidente em Antares, de Erico Verissimo e A festa, de Ivan Angelo, entre muitos outros.

Hoje, alguns dos discursos que assombraram 1964 parecem estar retornando. Nas redes sociais, principalmente, proliferam temas como “a ameaça comunista”, “bandido bom é bandido morto” e, talvez o que mais tenha tido repercussão nos últimos dias, a volta da “Marcha da Família com Deus pela Liberdade” e os anseios de seus participantes e organizadores pelo retorno do Regime Militar. Como você vê esse movimento e, sobretudo, como a literatura contemporânea trabalha – se trabalha – estes problemas?

A literatura contemporânea tem trabalhado, sobretudo, em torno do tema da violência urbana, que começou a crescer a partir da ditadura militar. Esse tema parece ser o que mais receptividade tem junto ao público, não só pelo que representa dos problemas de hoje, mas também por impulsos inconscientes que são extravasados catarticamente por essas mediações. Cito aleatoriamente os textos de Marçal Aquino e Marcelino Freire. Mas existem outros temas, que apostam na delicadeza e na contenção expressiva, para modular essas mesmas preocupações e para trazer a memória da ditadura. Como exemplo, Milton Hatoum, Bernardo Carvalho e muitos outros. E não acredito que esse tipo de literatura tenha relação com “alguns discursos que assombraram 1964”. Naquela época a politização era muito mais densa, embora também fosse da parcela mais escolarizada da população e dos trabalhadores organizados em sindicatos e associações. Hoje existe um “discurso” diluído e fragmentário, que canaliza os mais diferentes tipos de anseios, que vão desde a contestação política legítima até a mais absoluta despolitização. Provavelmente a literatura virá a trabalhar essas questões, se se mostrarem mais importantes e duradouras do que parecem ser.

2 comentários sobre “Especialista na área, Tânia Pellegrini comenta o papel da Literatura no Regime Militar

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