Alice quer ser astrônoma, mas a elite mesquinha não permite

Por: Felipe Albertao

Sem querer, o novo Cosmos expõe a realidade da sociedade brasileira que acredita que educação é mérito e não direito.

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Semana passada foi o lançamento do novo Cosmos, do Neil deGrasse Tyson. Eu estava empolgadíssimo com a estreia, não só como fã do deGrasse Tyson, mas também como discípulo do Carl Sagan: Afinal foi a série Cosmos que despertou a minha paixão pela ciência e tecnologia: Eu me lembro de um episódio em específico em que Sagan instruí o espectador a mudar para um canal fora do ar, e baixar completamente a saturação da televisão: 1% dos pontinhos que sobram são raios cósmicos. Eu provavelmente tinha 7 ou 8 anos, mas isso me impactou profundamente, tanto que eu me lembro até hoje: “Quer dizer que esses pontinhos que eu estou vendo aqui na minha frente vêm de lá de cima do infinito????”. Eu ganhei meu primeiro computador com 13 anos, aprendi a programar, alguns anos depois instalei o SETI@home, e décadas mais tarde tive a sorte de morar por coincidência ao lado do Instituto SETI em Mountain View. Sem sombra de dúvidas o Carl Sagan impactou a minha vida.

A Alice é uma amiga da família: 16 anos, estudiosa e esforçada, mora na periferia, e estuda em escola pública onde o professor de ciência aparece a cada duas semanas. A mãe se sacrifica para pagar cursos extras e livros para ela, mas por não ter instrução também não sabe guiá-la — Inclusive há alguns meses atrás ela estava sendo enganada por uma escola de inglês charlatã que cobrava mas não ensinava nada.

Quando descobri que ela queria ser astrônoma, eu comecei a procurar recursos gratuitos para ajudá-la. E fiquei impressionado: O que não falta são cursos, palestras e bibliotecas sobre o assunto: No planetário do Ibirapuera professores da USP ministram cursos do básico ao avançado, totalmente gratuito. No Centro Cultural São Paulo tem uma seção inteira só de astronomia. Na Consolação tem um “space club”, onde entusiastas (nerds) levam seus telescópios e trocam experiências. Imprimi tudo isso e dei para a Alice.

Mas é aí quando a realidade do Brasil dá um tapa na cara. São três horas e quatro (QUATRO!) conduções para chegar da casa dela para o planetário, e não dá tempo de sair da escola e acompanhar o curso. Mesmo que pudesse, ela mora em outra cidade, então o Bilhete Único não cobre: Seriam R$12 de condução por dia de curso, ou quase R$100 por mês. Mesmo que ela tivesse este dinheiro, são 6 horas de viagem total: E tempo para fazer lição de casa?

Aí ela tenta o Centro Cultural: Um busão, duas linhas de trem, e duas linhas de metrô depois, e a Alice tem o mesmo problema… Com o agravante de não ter professores para guiá-la entre o mundo de livros disponíveis.

guernica_la_mediumVocê já entrou no MASP ultimamente? É ridículo como a própria curadoria é elitizada. Em museus da Europa, EUA e China eles têm uma preocupação de fazer o visitante confortável, explicando o básico até com áudio com música e sons como se fosse um documentário. Mas aqui não! Aqui você é OBRIGADO a saber o que o pseudo-Guernica representou (exposto no pseudo-restaurante gourmet do subsolo), e não existe a mínima preocupação em conectar a opressão que o Picasso pintou (que é universal) com a realidade da violência urbana que a molecada enfrenta. Eu sinceramente tenho vergonha de levar amigos estrangeiros ao MASP (e de fato não levo), pois ele é uma cópia kitsch de um museu de primeiro-mundo sem um nada de Brasil.

carl_sagan_largeVoltando ao Cosmos… O primeiro Cosmos foi produzido pela PBS (canal público americano, o mesmo da Vila Sésamo), e passava na Globo às 7 da manhã de domingo. A Globo não é exatamente uma PBS, e domingão 7 da matina não é exatamente acessível, mas pelo menos era gratuito. O novo Cosmos pelo contrário é produzido pela Fox e passa na NatGeo, à cabo. E adivinha se a Alice tem cabo? Então fui eu tentar ajudar. Achar o episódio foi fácil (livraria do Paulo Coelho tem tudo), mas e as legendas? Um grupo (não me lembro o nome) já havia feito o upload do vídeo e legenda no YouTube, e eu acabei tendo a sorte de baixar a legenda SRT antes deles tirarem do ar — provavelmente por direitos autorais (a nossa forma ocidental de censura). Depois de gastar algumas horas fazendo o mixing do SRT no MP4, consegui gravar um DVD razoavelmente tocável.

E aqui está o meu ponto: No Brasil se você é pobre, você precisa ser absurdamente dedicado para aprender. Todos os recursos de aprendizado são criados, desenvolvidos e mantidos pela elite e para a elite. Encarar 6 horas de busão 2 vezes por semana para assistir uma hora de aula requer uma força de vontade extraordinária. Sem contar no custo do transporte, nos livros e a própria incompatibilidade de horários com a escola. E sobre o Cosmos? Só a elite tem grana para pagar R$100 / mês para uma TV a cabo básica que inclui Internet. E se não tem os R$100, vai depender de alguém que tem conhecimentos técnicos para pegar um streaming, colocar legendas, gravar o DVD, e ter tempo de repetir o processo 13 vezes (o novo Cosmos tem 13 episódios).

Ou seja: Não depende só da “boa vontade” de aprender, mas também do acesso ao conhecimento, que também é elitizado pois requer dinheiro e conhecimento técnico. Comparando a minha experiência de criança com a experiência da Alice, é fácil perceber que não tem nada a ver com mérito, e sim sorte: Eu estudei em escola pública (como ela), mas morava relativamente perto do Parque do Ibirapuera (ou seja, do planetário). Nunca tivemos muito dinheiro, mas meu pai é um cientista formado em física, e portanto eu tive a sorte de ter um mentor que sabia onde arranjar recursos para me expor à ciência e tecnologia. E nem na biblioteca eu precisava ir, já que meu pai tinha em casa uma estante cheia de livros de ciência e ficção científica. Meus melhores amigos da escola (aliás, amigos até hoje) éramos todos nerds, quando ser nerd não era cool. Então nós visitávamos lugares de nerd e formávamos um “grupo de aprendizado” sem querer. Nada disso está disponível para a Alice. Para quem mora no centro e não na periferia é fácil dizer “só não estuda quem não quer”. Mas ter vontade de aprender e ainda ter que enfrentar uma sociedade elitista que impõe barreiras para alguns e não para outros, e ainda chamar isso de “mérito” é no mínimo perverso.

O Neil deGrasse Tyson termina o primeiro episódio do Cosmos contando uma história emocionante: Ele mostra a agenda do Carl Sagan, abre e mostra o nome “Tyson” marcado em um Sábado. O Carl Sagan, naquela altura já famoso, reservou um sábado inteiro para mostrar a universidade dele, a Cornell (uma das mais prestigiosas nos EUA), para um menino negro do Bronx. Mas o mais impressionante eu aprendi em outra entrevista: Mesmo morando no Bronx (periferia de New York), os pais do Neil deGrasse Tyson levavam ele para atividades culturais no centro de NY todo final de semana. Um dia eles foram para o planetário, e foi aí que o Tyson se apaixonou por astronomia. Com 9 anos de idade.

A diferença entre New York e São Paulo? ACESSIBILIDADE AO CONHECIMENTO. Uma corrida de metrô do Bronx para Manhattan são meros 40 minutos. Um moleque de 9 anos em escola pública tem bibliotecas disponíveis lá no bairro dele. Os pais tem uma escolha enorme de atividades culturais públicas para seus filhos. Se os pais desconhecem os recursos disponíveis, os professores das escolas públicas sabem como guiá-los.

E o mais surpreendente: Foi o próprio Carl Sagan quem convidou o Tyson para estudar na Cornell após ler a sua redação de admissão (que faz parte do processo de seleção), pois ele entende que o conhecimento é para todos, e não apenas para uma elite.

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Artigo originalmente publicado no blog shanzhaier. Para ler a publicação original, clique aqui.

felipe

2 comentários sobre “Alice quer ser astrônoma, mas a elite mesquinha não permite

  1. SENSACIONAL… é bem isso mesmo que acontece. o triste é que ninguem vê! quer dizer, nós elitizados nao vemos. não queremos ver que eh esse o problema.
    Mas, é bom ressaltar que “meu filho se dedicou ao colégio, e não pode entrar na usp pq tem cotas… absurdo! isso é brasil…”
    eu fico realmente indignada com a mente das pessoas. e tudo é motivo pra falar que o brasil não anda e que é um lixo. sem nem ao menos ter passado por dificuldades reais.

  2. Abaixo está uma resposta do Gustavo Haddad Braga:

    “Não estou nem mais respondendo perguntas por aqui, mas sinto-me no dever de rebater a opinião absolutamente equivocada que é expressa nesse artigo. Ela não tem condições de chegar até o planetário? Que pena. Sabe quantas vezes na minha vida eu, que estudo astronomia há anos, entrei num planetário? Quatro (isso mesmo, quatro!). E mesmo assim fui duas vezes medalhista de Bronze na Olimpíada Internacional de Astronomia e Astrofísica. Não estou dizendo que o planetário e as palestras não ajudem, nem que não sejam importantes. Estou apenas dizendo que não é a ausência deles que será fator impeditivo. Quer estudar, estude: basta um computador e acesso à internet. E, já que você conseguiu enviar essa pergunta, parece que ao menos isso você tem ;-)”
    http://ask.fm/ghaddadbraga

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