Julio Cortázar, escritor para jovens

O escritor Julio Cortázar

O escritor Julio Cortázar

“Quantas vezes me pergunto se isto não é mais do que escrita, numa época em que corremos para o engano entre equações infalíveis e máquinas do conformismo?” (Cortázar. O jogo da amarelinha, p. 442).


A divergência entre o que é consumido por inúmeros leitores e o que é estudado nas universidades retoma a discussão sobre os valores da obra de arte na contemporaneidade.  Sergio de Sá no livro A reivenção do escritor, publicado em 2010, afirma existir, na literatura argentina contemporânea, um conflito entre academia e mercado.  De um lado, escritores com carreira universitária, que se dividem entre a sala de aula e a escrita literária. E do outro, escritores com menos preocupação teórica e abundante reclamação sobre a leitura acadêmica, que não os “aceitam”. Em níveis diferentes, no Brasil essa discussão pode ser vislumbrada pela figura de Paulo Coelho. Apesar de atual, as consequências desse descompasso alcançam diversos escritores do século passado, como é o caso de Julio Cortázar (1914-1984).

Entre as causas do recente silêncio da crítica literária argentina acerca das obras do autor de Histórias de cronópios e de famas (1964), que viveu maior parte da vida na França,está não só o engajamento político do escritor, como também polêmicas entre ele e alguns conterrâneos argentinos. Além de ter sido acusado de traidor nacional, as obras do escritor vêm sendo rechaçadas por críticos desde a década de 1980, que consideraram uma prosa demasiada romântica, com elementos repetitivos e uma espécie de propaganda política da Revolução Cubana. Essas e outras características contribuíram para que alguns professores universitários e escritores argentinos o tomassem como um “escritor para jovens”.

Enquanto do lado de lá, as polêmicas que envolvem o nome do escritor parecem superar suas obras no âmbito acadêmico, do lado de cá, as obras do autor continuam sendo estudadas e lidas dentro das universidades. A divergência entre as academias brasileira e argentina ganha lugar de destaque no texto “A sobrevaloração de Julio Cortázar no Brasil: um capítulo de nossa ignorância sobre os vizinhos”, de Idelber Avelar, publicado na coluna denominada “Um outro olhar”, em 24 de fevereiro de 2012. Como é expresso pelo título, Idelber Avelar revela que o fato de o escritor argentino ser estudado na academia brasileira como “renovador da literatura” demonstra a ignorância em relação ao que se passa no resto do mundo.Apontando os motivos pelos quais alguns críticos rechaçaram a obra do escritor, Avelar conclui: “É por isso, então, que Cortázar é hoje consumido, na Argentina, principalmente como um escritor para adolescentes. O texto não resiste à releitura.”.

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O atual silêncio da academia argentina acerca da obra de escritores como Ernesto Sábato e Julio Cortázar torna-se ainda mais curiosa, quando se descobre que eles estão entre os escritores mais preferidos pelos leitores daquele país. Uma pesquisa feita pelo jornal Clarín, publicada na revista Ñ, em 22 de abril de 2006, em Buenos Aires, mostrou que os escritores preferidos de quase 80% da população são respectivamente Borges, Sábato e Cortázar. Ignorando a popularidade do escritor, pesquisadores argentinos preferem taxar de “literatura para jovens” obras que foram objetos de estudos de intelectuais latino-americanos como Ángel Rama e Nestor Garcia Canclini.

O preconceito que envolve essa visão está na crença de que ser um escritor para adolescentes faz de Cortázar um escritor menor, devendo, portanto, ser ignorado nos ambientes acadêmicos. Essa visão nos permite pensar não apenas sobre o papel da academia para a legitimação da obra de arte na contemporaneidade, como também a posição conservadora que a academia pode apresentar, quando se revela presa a valores de alta e baixa literatura, ou literatura séria e literatura para jovens.

Mais válido do que trazer essa discussão para o Brasil com o intuito de revelar uma suposta ignorância da crítica literária brasileira, seria apropriar-se dela para demonstrar os diversos níveis da recepção que obras de escritores podem ter em países próximos, mas diferentes. Desse modo estaremos aptos a compreender a popularidade das obras do escritor entre os brasileiros de diversas idades, inclusive os jovens.

Capa do livro "O Jogo da Amarelinha"

Capa do livro “O Jogo da Amarelinha”

Ser referência entre jovens de diferentes épocas, não seria uma maneira de se manter atual? Despida de preconceito, ao reconhecer a aproximação entre as obras de Cortázar e os jovens, a crítica literária poderia demonstrar, por exemplo, a importância que elas tiveram àqueles que participaram das passeatas estudantis de 1968, em Paris. No ano em que se comemora o centenário de Cortázar, as homenagens na Argentina ao escritor já começaram com o relançamento comemorativo, pela Alfaguara, de O jogo da amarelinha (1963), que teve grande importância para a literatura mundial, principalmente por demonstrar possibilidades de ordenar um relato além da linear.

Entre os leitores brasileiros das obras de Cortázar, destacam-se escritores e críticos como Eric Nepomuceno e Davi Arrigucci. Assim como cineastas mundialmente consagrados, como Jean Luc-Godard, que teve como inspiração para o filme Week-end, de 1967, o conto “A auto-estrada do sul”, e também Michelangelo Antonioni, que adaptou o conto “As babas do diabo” no filme Blow up – depois daquele beijo, de 1966. Suas obras também tiveram grande influência para Roberto Bolaño (1953-2003), que, assim como Cortázar, via o romance como artefato. O escritor chileno apropriou artifícios literários que consagraram as narrativas de Cortázar, como a hibridização entre política e literatura. Além disso, a atual repercussão mercadológica das obras de Bolaño tem semelhanças ao sucesso que Cortázar alcançou durante as décadas de 1960.

Revisitar as obras de Cortázar em 2014, ano em que se comemora o centenário do escritor, possibilita compreender suas obras para além das efervescências e polêmicas que o autor protagonizou, superando discussões, muitas delas, fruto de seu engajamento político e de sua estadia na França. Além disso, com análises atuais sobre as obras do escritor, os leitores e críticos podem perceber o que elas apresentam de atuais, seja em contribuições importantes para se pensar aspectos contemporâneos de nossas sociedades, seja na influência de diversos escritores de gerações posteriores à década de 1960.

O escritor utilizou diversas técnicas para não só incorporar os leitores na escrita, como também para que eles tomassem consciência no modo como os temas sociais e políticos estavam latentes nas obras. Para isso, Cortázar utilizou técnicas como a alegoria, a ambiguidade e, principalmente, a metalinguagem. Por meio da escrita metalinguística, como apontou Davi Arrigucci,

Desnudam-se […] procedimentos técnicos por alusão direta no próprio texto ficcional, provocando o efeito de estranhamento que quebra a ilusão realista e desmascara o laboratório literário, convidando o leitor a participar do jogo da ficção, a passar de mero consumidor passivo a consumador ativo do texto. (ARRIGUCCI, 1995, p. 25)

Ao revelar os procedimentos narrativos numa escrita metalinguística e alegórica, Cortázar não só incorpora o leitor à escrita, mas também se esforça para que ele se atente ao fato de que, para compreender, é preciso sair da leitura convencional do texto. Transformando a literatura em máquinas contra o conformismo, esse procedimento permite que o leitor, eventualmente, tome consciência não só do ato de leitura, mas dos problemas da sociedade ao redor. Essa posição torna-se nítida no conto “Continuidade dos parques” (1969), em que um leitor de um romance não percebe que está lendo a história de seu próprio assassinato. Alienado pelo ato da leitura, ele é morto com uma punhalada pelo personagem do romance que está lendo. Neste conto, Cortázar resume a crítica ao leitor que está alienado com a literatura e, por isso, não consegue perceber o que se passa ao seu redor.

Ao aliar o ato literário ao lúdico, Cortázar construiu em suas narrativas complexos jogos literários, os quais exigem leitores dispostos a encontrar interstícios para vislumbrar novas descobertas. Na era dos jogos com kinect, que exigem jogadores dispostos a participar do jogo, não é de se estranhar que as obras de Cortázar tenham como grande público os jovens. Mas vale destacar que as críticas literárias que objetivam distinguir públicos revelam ser problemáticas, pois a produção de significados depende principalmente da capacidade e criatividade do leitor. Ao serem lidas em outras sintonias, as obras do escritor argentino poderão incitar diálogos abertos com leitores dispostos a produzir novos significados e saberes. É por não subestimar seus leitores que as obras de Cortázar continuam dialogando com as gerações posteriores à década de 1960, sendo eles jovens ou não.

nícolas-totti

2 comentários sobre “Julio Cortázar, escritor para jovens

  1. Há uma grande diferença entre o escritor popular na Argentina e o escritor popular no Brasil, uma vez que nossos vizinhos leem muito mais que nós – falo isso de forma geral. Até os mais vendidos aqui não são exatamente os mais lidos, porque pesquisas mostram que muitas pessoas compram livros ditos ‘best sellers’ e nunca os lêem. E, neste caso, Paulo Coelho lidera a lista. E, por fim, não tenho dúvidas das qualidades literárias do senhor Cortázar. Acho que o problema está mesmo na crítica literária argentina, mistura questões históricas com literárias, algo que os formalistas russos fizeram questão de eliminar muitos anos atrás. Gostei muito do texto, do blog. Voltarei sempre. Abraços.

  2. Pingback: Julio Cortázar aborda a arte de escrever em ‘Diário de Andrés Fava’ | Livre Opinião - Ideias em Debate

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