Bye bye José Wilker: o lorde cigano da dramaturgia brasileira

José Wilker

José Wilker

Na manhã do último sábado (5), os noticiários divulgaram a morte do grande artista José Wilker, aos 66 anos. O falecimento pegou todos de surpresa, ator e diretor versátil, Wilker foi aquela figura pública que esteve presente no imaginário do espectador. Desde o começo com filmes que moldaram o cinema nacional até seus personagens consagrados na teledramaturgia. José Wilker foi como o personagem Lorde Cigano, de Bye Bye Brasil (1980), o mambembe da área artística que difundiu o valor do artista para todas as mídias. Parte Wilker, no volante da Caravana Rolidei.

José Wilker percorreu a segunda metade do século passado interpretando personagens que marcaram a cultura nacional. Artista múltiplo, José Wilker começou a carreira como radialista e aos dezenove anos desembarca no Rio de Janeiro, trazendo à Cidade Maravilhosa a vontade de conseguir desempenho na vida artística. Sua primeira aparição na televisão foi na novela Bandeira 2, escrita por Dias Gomes, Wilker mostrou talento e conquistou sucesso com a clássica novela “Roque Santeiro”, interpretando o misterioso personagem título, assim como contracenando com outros grandes nomes da teledramaturgia: Regina Duarte e Lima Duarte.

Mas foi no cinema que Zé Wilker demonstrou talento e transformou personagens atemporais. O malandro Vadinho, personagem de Dona Flor e Seus Dois Maridos, de Jorge Amado e dirigido por Bruno Barreto, foi marcante e se tornou influência para os atores que interpretaram o mesmo personagem anos depois.

No papel de Vadinho, da obra-prima de Jorge Amado. Ao lado de Sonia Braga e Mauro Mendonça.

No papel de Vadinho, da obra-prima de Jorge Amado. Ao lado de Sonia Braga e Mauro Mendonça.

Outro talento comprovado de Wilker foi o papel de Tiradentes em Os Inconfidentes, de 1972, dirigida por Joaquim Pedro de Andrade. Resistindo à marca de interpretar uma figura essencial da História do Brasil, Wilker protagonizou um Tiradentes convincente, mostrando as atrocidades promovidas pela Coroa Portuguesa trazendo uma crítica ao método  repressor do regime militar da época. Um belo trabalho de toda a produção do filme, consolidando Wilker na área artística brasileira.

No entanto, foi com o famoso Lorde Cigano, de Bye Bye Brasil, de 1979, dirigida por Cacá Diegues, que José Wilker deixou para a história um dos melhores anti-heróis do cinema nacional. Líder de um grupo circense mambembe, Lorde Cigano corta o sertão nordestino com a Caravana Rolidei levando o talento artístico e, principalmente, o ganho financeiro. Porém, nos anos de 1970, o grupo começa a perder lugar de entretenimento com a chegada da televisão no cotidiano da população, e a mudança dos hábitos e culturas do país.

Wilker está brilhante no papel de Lorde Cigano, malandro e manipulador não deixa de acreditar que sua essência artística esteja perdendo, nos termos televisivos, ibope. A alternativa encontrada pelo “imperador dos mágicos” é confrontar essa modernidade a seu modo, vendendo ilusões aos moradores das cidades nordestinas afastadas e com pouca renda social. Fugindo das antenas instaladas nos telhados, a trupe encontra como solução percorrer a Amazônia em busca de novo público, no caso os índios.

No papel de Lorde Cigano, em Bye Bye Brasil

No papel de Lorde Cigano, em Bye Bye Brasil

Lorde Cigano foi um personagem atemporal na carreira de José Wilker, a crítica da modernidade atrasada e forçada no Brasil, tendo como paralelo a derrocada da cultura anterior. Logo no início do filme, através de um número de mágica, Lorde Cigano faz cair neve no sertão – o que na verdade era coco ralado -, mostrando vender ilusões aos menos favorecidos em um pedaço do Brasil onde a população sonha obter soluções. Deste modo, a frase que Lorde Cigano diz ao fazer nevar é fundamental para a temática: “Sonhar só pode ofender aos que não sonham”.

José Wilker deixa sua marca na história artística brasileira. Ator audacioso, moldou o cinema nacional, bem como a teledramaturgia. Mesmo tendo ficado mais conhecido pelas novelas, Wilker foi essencial para a sétima arte, oferecendo personagens brilhantes. Fica aqui a homenagem ao lorde da dramaturgia, o cigano artístico que influenciou gerações e fincou seu nome como um dos maiores atores de nossa cultura.

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