“Shakespeare é infinito”, comenta professor de Literatura Inglesa sobre os 450 anos do mestre dramaturgo

Prof. Nelson Viana

Prof. Nelson Viana

Há 450 anos nascia William Shakespeare, consagrado e influente nome da literatura mundial, autor de quase 40 peças, mais de 150 sonetos e dois poemas narrativos, tornando-se o maior dramaturgo de todos os tempos. Shakespeare continua moderno e, principalmente, suas peças influenciam diversas vertentes culturais, além de significantes análises e pesquisas em relação às obras deixadas pelo mestre do teatro.

Diante do vasto processo criativo, suas obras marcantes são Hamlet, Romeu & Julieta, Otelo, Rei Lear, Macbeth e A Tempestade. Suas peças foram traduzidas em todo mundo e encenadas em diversos países, permanecendo, mesmo quatro séculos e meio depois, atuais.

O professor do Departamento de Letras da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Nelson Viana, atua no ensino de literaturas inglesa e norte-americana e concedeu uma entrevista para o Livre Opinião sobre o poeta e dramaturgo inglês. Para Nelson, que trabalha as obras de Shakespeare no ambiente acadêmico, “É um grande desafio ensinar, porque não consegue ensinar tudo o que quer sobre ele, pois é impossível fazer isso. Não dá para aprender tudo de Shakespeare. Shakespeare é um desenvolvimento que você faz ao longo de vários anos de estudos e continua sempre”.

O professor comentou sobre a importância de Shakespeare no processo criativo de seus personagens: “A grandeza da obra de Shakespeare e o seu alcance são certamente consequências da qualidade do seu trabalho, envolvendo a forma, a poesia dos seus textos, mas principalmente a densidade psicológica dos personagens”. Ele falou da influência dos textos de Shakespeare na sociedade contemporânea: “Muito dos dizeres da peça de Shakespeare são citações importantes no inglês contemporâneo, as frases são tão marcantes  e profundas que elas deixaram alguma coisa no contexto da peça, passando a significar muito mais em vários outros contextos contemporâneos”. Confira a seguir a entrevista na íntegra.

William Shakespeare

William Shakespeare

Livre Opinião: Para você, como é ensinar Shakespeare na universidade?

Nelson Viana: É difícil ensinar Shakespeare, porque é vasto. Por mais que a gente tente, temos aqui no curso um semestre para estudar Literatura da Era Medieval ao Romantismo, nesta disciplina está incluída as obras de Shakespeare, sendo uma boa parte de análise dos textos dele, em termos de conteúdo que é abrangido pela disciplina. Mas é muito pouco. Digo para os meus alunos: se a gente tivesse um semestre, dois ou três não serão suficientes para tratar de Shakespeare. Então, o que se consegue em um semestre é, na verdade, uma amostra de Shakespeare, mas é uma amostra muito significativa e desperta nos alunos a buscar e perceber que Shakespeare é infinito. Não tem como você trabalhar tudo de Shakespeare, porque são mais de trinta peças, sonetos compõem grande parte da obra dele, embora sejam menos difundidos que as peças. As peças são famosas como Hamlet, Romeu e Julieta, Rei Lear, Macbeth, no entanto, a difusão das peças dele são muito mais amplas do que os sonetos, mas os sonetos são igualmente profundos e importantes.

Agora, trabalhar Shakespeare em um semestre é tentar mostrar uma perspectiva das comédias – da fase inicial -, outra perspectiva boa são as tragédias e finalizando com a parte final de Shakespeare, abordando pelo menos “A Tempestade”, que é vista por muitos como uma tragicomédia. “A Tempestade” é entendida por alguns especialistas da área como a peça em que fecharia a obra de Shakespeare, tanto que no final tem Próspero se despedindo, como personagem, mas muitos entendem que seria uma despedida do próprio Shakespeare. As palavras de Próspero – Prospero’s speech – naquele final significaria a despedida de Shakespeare.

No entanto, nesta grandiosidade é impossível abordar Shakespeare em um semestre. É um grande desafio ensinar, porque não se consegue ensinar tudo o que quer sobre ele, é impossível fazer isso. Não dá para aprender tudo de Shakespeare. Shakespeare é um desenvolvimento que você faz ao longo de vários anos de estudos e continua sempre. A especialista no Brasil de Shakespeare, Barbara Heliodora, que trabalhou sobre muitas peças, fazendo traduções, ela própria deve aceitar que ainda está aprendendo muito sobre Shakespeare. Harold Bloom é outro especialista que tem uma leitura e estudos muito aprofundados sobre Shakespeare, principalmente na obra “Shakespeare – A invenção do Humano”, em que o próprio título já revela a grandiosidade de Shakespeare. Então, Bloom também é alguém que está  aprendendo, lendo, experimentando e vivenciando Shakespeare continuamente.

Resumidamente, como foi chegar a Shakespeare que o fez seguir para a carreira profissional, na maneira de ensinar Shakespeare?

De maneira geral foi no interesse em Literatura e depois pela formação em Letras-Inglês. Tive muitos cursos bons na área de literatura inglesa, focalizando Shakespeare. Acho que foi da demanda, a necessidade de ter alguém que trabalhasse com as obras dele, principalmente no Departamento de Letras da UFSCar. No entanto, esta não é a minha área de estudos da pós-graduação, a minha área na verdade é o Ensino de Línguas Estrangeiras.

Ensinar Shakespeare foi por gostar muito de Literatura e pelo envolvimento. Quanto mais me envolvia com as obras de Shakespeare algo a ensinar se vai aprendendo e, ao aprender, se envolve cada vez mais com Shakespeare, no sentido de buscar entender ele melhor, descobrindo essa grandiosidade dele e isso é o movimento sequencial. Shakespeare foi isso para mim.

Hoje em dia aparecem discussões da área s foi ele mesmo que escreveu suas obras, de quem foi essa influência e se na verdade ele teve alguma influência. Eu já pretendo pensar Shakespeare como uma entidade sagrada. Não interessa muito verificar detalhes se alguém escreveu por ele. Na verdade, Shakespeare a gente vê como uma entidade grandiosa que deve ser estudada para que se entenda a própria vida melhor.

São 450 anos de Shakespeare, a seu ver como foram as adaptações de suas peças e como é o Shakespeare na atualidade?

As adaptações são inúmeras, no cinema, desenho animado, seriados, ou seja, em várias mídias. Além disso, têm releituras dos textos de Shakespeare no próprio teatro. Muitas peças de Shakespeare são encenadas em uma perspectiva contemporânea. Ás vezes boas, outras nem tanto. Porque os textos originais são tão bons que as montagens clássicas ainda são certamente mais bem vistas. Há sempre algum arranjo novo que vale a pena, mas as encenações clássicas continuam sendo as melhores.

Agora, o cinema se aproveitou muito de Shakespeare, existem adaptações em vários países. Você vê muito Shakespeare no cinema japonês, em novelas brasileiras, por exemplo, em “O Cravo e a Rosa” que é uma adaptação de “A Megera Domada”. No entanto, no cinema americano e britânico existem muitas adaptações, a BBC filma montagens e são consumidas, no bom sentido, como encenações excelentes. Não há dúvida de que existem muitas adaptações que favorecem o uso das peças em diversas mídias.

Um dos legados de Shakespeare é o seu texto universal, como você vê a importância de Shakespeare fora do ambiente acadêmico?

Na disciplina, um dos objetivos é mostrar que Shakespeare diz nas peças faz parte da própria cultura de países de língua inglesa. No entanto, muito dos dizeres da peça de Shakespeare são citações importantes no inglês contemporâneo, as frases são tão marcantes  e profundas que elas deixaram de ser de alguma coisa no contexto da peça passando a significar muito mais em vários outros contextos. Encontramos seus enredos em contextos políticos, por exemplo, na Dinamarca sempre que se tem algum podre na política é utilizado o contexto das peças de Shakespeare. Ou seja, está tirando dali algo que ele quis dizer na peça.

A grandeza da obra de Shakespeare e o seu alcance são certamente consequências da qualidade do seu trabalho, envolvendo a forma, a poesia dos seus textos, mas principalmente a densidade psicológica dos personagens. Não podemos deixar de mencionar a densidade psicológica dos personagens, pois é essa complexidade que revela a natureza humana (e em nós).

Entrevista: Jorge Filholini e Vinicius de Andrade.

 

4 comentários sobre ““Shakespeare é infinito”, comenta professor de Literatura Inglesa sobre os 450 anos do mestre dramaturgo

  1. Boa noite!
    Estou montando um projeto teatral sobre Shakespeare e gostaria muito de entrar em contato com o referido mestre.
    Há alguma possibilidade de isso acontecer?
    Obrigada.
    Rosane Lobo.

  2. Pingback: “- Você é louco? / – Não, sou poeta”: 20 de Outubro, dia do Poeta | Livre Opinião - Ideias em Debate

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