Revolução dos Cravos: 40 anos na História e na Arte

25_Abril_1983_Porto_by_Henrique_Matos_01“Foi bonita a festa, pá / Fiquei contente / Ainda guardo renitente / Um velho cravo para mim”, cantou Chico Buarque, na música “Tanto Mar”, em homenagem aos portugueses que haviam se libertado dos longos anos de governo ditatorial. Mas em tom melancólico, Chico na canção pede que o feito de 1974 aconteça também no Brasil, ainda inserido no período conturbado do regime militar.

Neste ano, exatamente no dia 25 de abril, a histórica Revolução dos Cravos completa 40 anos, quando o movimento social destituiu o poder autoritário que perdurou por mais de quatro décadas sem interrupção, privando – como em todo regime desta espécie – diversos segmentos que eram contra a postura dos governantes vigentes.

O movimento derrubou o regime salazarista em Portugal, com o intuito de estabelecer as liberdades democráticas, de modo a transformar o ambiente político-social do país. Naquele dia 25, em sua meninice ainda, às 00h20, a rádio Renascença tocou a canção “Grândola, Vila Morena”, de Zeca Afonso, a senha para que os militantes iniciassem a mobilização que faria com que Marcelo Caetano, sucessor de Antonio de Oliveira Salazar, fosse deposto e colocando de vez o fim da ditadura em Portugal.

Militares militantes

25042011105945Desde que chegou ao poder, em 1932, e impôs, em 1933, o Estado Novo – regime autoritário de partido único –, Salazar e suas medidas começaram a acumular o descontentamento dos intelectuais e artistas portugueses – descontentamento que, cada vez mais, ia se generalizando. A atuação da PIDE na censura da arte, da imprensa e também na censura política causava perdas irreparáveis e revolta. Portugal já tinha vivenciado quase 30 anos de Estado Novo quando, em 1961, surgiram as primeiras rebeliões internas contrárias ao domínio português na África. Sete anos depois, Salazar – que viria a falecer em 1970 – é afastado por problemas de saúde, deixando o cargo a Marcello Caetano, que mantém o regime apesar da insatisfação dos próprios militares.

Além da insatisfação e medo generalizados, um dos principais motes para a revolução foi justamente a insatisfação militar que, organizada no Movimento das Forças Armadas (MFA), tinha como uma de suas lideranças Otelo Sarava de Carvalho, líder de extrema esquerda – uma agremiação pouco comum dentro dos quartéis da Europa ocidental. Os militares estavam descontentes com os 13 anos de guerras ultramarinas nas colônias africanas, que consumiam cerca de 40% do Orçamento do Estado e grandes baixas militares. Angola, Moçambique e Guiné-Bissau empreitavam movimentos separatistas muito bem articulados e cobertos de razão e, apesar de enfrentarem baixas imensamente maiores que o colonizador, conseguiram enfrentar um contingente militar português que chegou a mais de 100 mil homens.

Apesar de Marcello Caetano deposto e assumindo António de Spíndola, finalmente colocando um ponto final no regime salazarista, no entanto, após a revolução o clima era confuso. Passada a festa da liberdade e da vindoura democracia e, apesar de a revolução do dia 25 ter tido forte caráter de esquerda, essa ideologia já se esvanecia entre os militares que viriam a assumir importantes posições no pós-revolução – aquela força libertadora, que queria por um fim das guerras coloniais na África, que impeliu aquele 25 de abril, se perdia aos poucos. Assim, os dois anos seguintes seriam marcados por instabilidades políticas – Spíndola seria afastado em julho, cedendo o cargo a Vasco Gonçalves e, em novembro, se iniciariam os conflitos do chamado “verão quente” – e fortes ameaças de contragolpe.

Nas colônias

Com a Revolução dos Cravos, aos poucos, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e, posteriormente, Timor Leste conseguem se libertar da mão de ferro portuguesa. No entanto, o cenário de celebração da liberdade pouco prevaleceria nas colônias, enfraquecidas por elites coloniais portuguesas que se estabeleceram em território africano e que, mesmo depois de expulsas com a libertação, já haviam deixado máculas e um legado nas estruturas de poder que viriam a minar quase todas as possibilidades de prosperar das ex-colônias, que sofreriam ainda com inúmeras guerras-civis e embargos econômicos que moldaram a conturbada realidade social e econômica das ex-colônias portuguesas na África de hoje.

Do início ao fim do Estado Novo nas artes

PessoaNas artes, de início, assim como num clima geral que tomava Portugal em 1933, o pensamento era confuso. Fernando Pessoa viveu apenas seus dois últimos anos de vida sob o regime e isto bastou para que deixasse sua impressão em poesia. Contrária à opinião de Pessoa que, mais à frente deste poema, dirá “Visão grande! Ódio à minúscula! / Nem para prová-la tal / Tem alguém que ficar triste: / União Nacional existe / Mas não união nacional”, havia ainda a arte de apoio a Salazar. Almada Negreiros era responsável por alguns dos cartazes pró-Estado Novo, ainda que sua posição em relação ao regime seja difícil de apurar, numa linha que compreende a dissimulação pela sobrevivência e a real crença nos ideários salazaristas. Curiosamente, em 1954 pintou o famoso retrato daquele que considerava mestre, o próprio Pessoa e, se não bastasse, Almada viria a falecer no mesmo quarto do Hospital São Luís dos Franceses em que Pessoa faleceu.

Durante os longos anos do regime ditatorial português, a política do Estado visava implementar uma imagem ideológica do país que congregasse toda a população portuguesa, numa tentativa de fazer com que cada cidadão se sentisse identificado por essa imagem. Essa concepção vinha ainda do século XIX, de que cada povo teria uma identidade que pudesse ser traçada – ou, como no caso brasileiro, construída – para formar as chamadas identidades nacionais. Em Portugal, a construção dos discursos que tentavam unificar a identidade nacional apelava sempre ao passado “glorioso” português, das grandes navegações e dos descobrimentos. Assim, através da censura, o governo operava a construção e o controle dessa imagem de maneira a que fosse depositada uma confiança quase que total no Estado Novo – e foi aí que entraram, conscientemente ou não, alguns artistas portugueses.

Cartaz de Almada Negreiros.

Cartaz de Almada Negreiros.

Porém, a arte, com seu caráter eminentemente transformador, ainda que inserida neste ambiente castrador e opressivo à criação artística que muitos autores, a despeito de suas posições ideológicas e filiações estéticas, construíram subterfúgios que possibilitaram não apenas escapar à força esmagadora do Estado e da censura, mas também empreender uma massiva descodificação dos signos e dos símbolos para que os valores impostos por Salazar pudessem ser repreendidos, levando o leitor a empreender uma leitura das obras de arte que, seja pelos caminhos da ironia e da alegoria, seja pelos recursos estéticos mais elaborados, possibilitasse não só uma crítica ao regime, mas também que estas obras passassem despercebidas pelos dentes de ferro da censura – o que não foi muito diferente do Brasil. A imagem tão bem construída, ainda que forçosamente, pelo Estado Novo, aos poucos, começava a ruir.

Na literatura, principalmente, os autores lançavam mão de recursos como: a reflexão sobre o seu material de escrita, a sua própria função ou a sua vida pessoal; metáforas profundamente visuais como os monstros, o medo, os fantasmas; o reaproveitamento de intertextos clássicos, bíblicos ou da lírica trovadoresca; a descrição do reino da Dinamarca e a manipulação de Hamlet de Shakespeare para, a partir deles, revelarem de maneira transmutada o que eles consideravam ser a verdadeira face de Portugal ou, ao menos, a outra face, aquela que o Estado arduamente tentava rasurar. A força poética, a poesia, tinha o papel de desmentir: o texto poético tentava implodir a construção levada a cabo pelo revelando o que nela havia de manipulação da História. Foi por esta razão que alguns autores iriam não só questionar os valores do Estado Novo, como também utilizar os grandes escritores portugueses, como Camões e Pessoa, para evidenciar que as suas imagens de Portugal não correspondiam à vivência quotidiana da população, que o Estado havia ocultado as faces podres do país e que o tinham aprisionado num tempo inexistente: o Portugal dos Descobrimentos que se pretendia recuperar.

Gaibéus, de Alves Redol

Gaibéus, de Alves Redol

Autores e artistas antisalazaristas foram censurados e perseguidos pelo regime, que tentava de todos os meios evitar publicações e manifestações contrárias ao regime, boicotando obras mesmo que não houvesse mais que uma suspeita sobre seu conteúdo. Foi o caso de Maria Velho da Costa, Maria Teresa Horta e Maria Isabel Barreno, que viram-se envolvidas num processo judicial que ficou famoso devido à publicação da sua obra conjunta Novas cartas portuguesas, que conteriam partes pornográficas e imorais – hoje se sabe que a obra faz apenas uma crítica mordaz ao patriarcalismo lusitano e à condição da mulher em Portugal. Maria Velho da Costa escreveria mais tarde, em revolta pela situação, a obra Ova Ortegrafia, que se inicia assim: “Ecedi escrever ortado; poupo assim o rabalho a quem me orta…”.

Vagão J., de Vergílio Ferreira.

Vagão J., de Vergílio Ferreira.

Além delas, muitos foram os autores que viram os seus livros apreendidos ou que chegaram a ser perseguidos e presos como Soeiro Pereira Gomes, Aquilino Ribeiro, José Régio, Maria Lamas, Rodrigues Lapa, Urbano Tavares Rodrigues, Alves Redol, Alexandre Cabral, Orlando da Costa, Alexandre O´Neil, Alberto Ferreira, António Borges Coelho, Virgílio Martinho, António José Forte, Alfredo Margarido, Carlos Coutinho, Carlos Loures, Amadeu Lopes Sabino, Fátima Maldonado, Hélia Correia, Raul Malaquias Marques, Vergílio Ferreira, entre muitos outros. O jornal O Público chegou a lançar uma coleção fac-similar com as 13 obras mais importantes da literatura portuguesa proibidas pelo Estado Novo. São elas: Gaibéus, de Alves Redol; Histórias de Amor, de José Cardoso Pires; Fátima, de Tomás da Fonseca; Povo, de Afonso Ribeiro; Quando os Lobos Uivam, de Aquilino Ribeiro; O Encoberto, de Natália Correia; Vagão J, de Virgílio Ferreira; Rã no Pântano, de António de Almeida Santos; Minha Cruzada Pró-Portugal, de Henrique Galvão; Um Auto para Jerusalém, de Mário Cesariny de Vasconcelos; Diário VIII, de Miguel Torga; Refúgio Perdido, de Soeiro Pereira Gomes e Escritos Políticos, de Mário Soares.

Luuanda, de Luandino Vieira

Luuanda, de Luandino Vieira

As consequências (ou inconsequências) do aparelho de censura português também se estenderam às suas colônias ultramarinas, como no caso de Luandino Vieira. Em 1965, a Sociedade Portuguesa de Autores teve a ousadia de atribuir o Prémio Camilo Castelo Branco ao escritor angolano por seu livro Luuanda. Luandino então cumpria uma pena de 14 anos de prisão no Tarrafal, sob a acusação de terrorismo (lutava pela independência de Angola). A consequência foi a extinção da sociedade, por ordem do Ministério da Educação, e da destruição de sua sede em Lisboa. A notícia de que Luandino havia recebido o prêmio foi proibida em todos os jornais e sua obra foi imediatamente retirada de circulação. Jaime Gama, que escreveu um artigo sobre o assunto no jornal Açores (transformado depois no Açoriano Oriental) foi preso pela PIDE, assim como alguns dos escritores que faziam parte da comissão julgadora do prêmio. Como se vê, as ditaduras marcam um tempo nefasto na história das nações. Tempos de sofrimento, é verdade, mas também de lutas, de arte e de renovação histórica.

 

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