Laerte: “Qualquer área de expressão pode ser eficiente para a manifestação de posições ideológicas”

Laerte Coutinho

Laerte Coutinho (Foto: Divulgação)

Laerte Coutinho, cartunista com mais de quatro décadas de carreira brilhante, concedeu entrevista para o Livre Opinião – Ideias em Debate e comentou sobre seu processo criativo na elaboração de tirinhas e sobre sua trajetória artística.

No currículo, personagens marcantes, como Overman, Piratas do Tietê, Hugo Baracchini, entre outros, Laerte contou sobre a construção das histórias das tirinhas e a elaboração de seus personagens. As obras publicadas de Laerte são extensas, destacando Histórias Repentinas, Seis Mãos Bobas (em conjunto com Angeli e Glauco), Muchacha e recentemente em parceria com a cantora Rita Lee, a Companhia das Letras lançou STORYNHAS.

Em relação a forma de expressão transgeneridade, Laerte explicou o seu papel em debates sobre o tema e o preconceito que existe na sociedade. Confira a seguir a entrevista:

Livre Opinião: Como é seu processo criativo? Ao contrário do trabalho de um cartunista, entrevistamos aqui muitos nomes da literatura que podem levar anos para escrever suas obras e, apesar de escreverem todos os dias, não precisam entregar – por assim dizer – um resultado final a cada 24 horas. Como você lida com isso? Como isso afeta ou transforma sua criatividade no processo de criação das tirinhas?

Laerte Coutinho: Bem, eu realmente não posso levar anos para entregar uma tira. Mas posso levar anos para amadurecer uma ideia ou construir um roteiro de história que me satisfaça. Acho que todo mundo tem coisas que precisa entregar todo dia e coisas que podem ser elaboradas em outra dinâmica… Minhas tiras, produto mais “visível”, saem segundo dinâmicas diversas, também. De um certo modo todas elas exigem a totalidade da minha experiência em sua gestação. Nesse sentido, a pergunta “quanto tempo você leva pra fazer uma tira?” pode ser respondida por algo como “quarenta anos e quarenta minutos”.

Suas tirinhas são cheias de humor ou de poesia. Para você, qual é o segredo de uma boa tirinha? Você costuma concebê-las instantaneamente ou guarda algum tipo de caderninho com ideias do dia-a-dia?

Anoto ideias, leio, penso, converso, assisto, ouço – uma tira (ou uma série de tiras) vem de circunstâncias muito variadas. Posso dizer (também) que estou produzindo o tempo inteiro. Ou estou em estado produtivo o tempo inteiro.

Você também seguiu a linha de criticar o sistema político no período da Ditadura Militar por meio das tirinhas, a sua participação política neste contexto foi bem atuante, trabalhando junto aos sindicatos e entidades. Atualmente, esta área artística é uma boa alternativa na crítica ao sistema político?

Não só por tiras – aliás, eu não fazia tiras naquele tempo. Não tiras diárias. Trabalhei na imprensa sindical e em vários jornais e revistas, com cartuns e charges. Qualquer área de expressão (implico com a palavra “arte” nesse contexto) pode ser eficiente para a manifestação de posições ideológicas, partidárias ou não. Não se trata de alternativa.

Quando você assumiu o gênero(?) crossdressing, a mídia mais criticou sua decisão do que apoiou, ou seja, você percebeu que a imprensa tomou uma atitude conservadora em relação à sua escolha de gênero?

Crossdressing não é gênero – é uma forma de expressão que equivale à travestilidade – só que num termo em inglês. O que eu assumi publicamente foi a minha identificação com um processo de expressão de gênero diferente daquele que eu vivia até então (cisgênero). A mídia – jornais, revistas, tevês, rádios e internet – manifestou várias reações, da perplexidade à simpatia, com alguns momentos de agressão quando sentiu que eu ameaçava, de alguma forma, um tabu como a da divisão dos banheiros públicos por gênero. Mas, num balanço geral, fui muito bem tratada pela mídia.

Mas então o que é o crossdressing para Laerte? Como é (ou foi) ser um crossdressing numa sociedade que parece incompreender este estilo/ideologia mais que a homossexualidade, por exemplo?

Crossdressing é um termo em inglês que significa exatamente travestilidade. Foi criado para indicar atividades de expressão transgênera no contexto de grupos masculinos heterossexuais, que queriam assim estabelecer distinção clara da população travesti – na visão deles, identificada necessariamente com a homossexualidade e com a prostituição.

No Brasil o termo serviu mais para distinção de classe social, uma vez que os grupos que se autodenominam crossdressers não enfatizam a orientação sexual – há homossexuais, heterossexuais, bissexuais e assexuais. Eu não me considero mais crossdresser, há vários anos. Também acho que a transgeneridade é vista com mais estranhamento do que as orientações sexuais diversas daquela considerada “normal”. Mas são estranhamentos similares e devem ser objeto da mesma preocupação e pauta da mesma luta.

O seu papel em debates sobre a transgeneridade é bem ativo. Sendo uma figura pública, atualmente você participa de diversos debates em relação ao gênero? Você conhece pessoas que escolheram este gênero e sofrem preconceitos diários?

Tenho ido, na medida das minhas possibilidades, a debates e eventos que discutem o tema da diversidade e dos direitos civis. Acho uma discussão séria e vital para a construção democrática da nossa sociedade.

Pessoas trans não “escolhem gênero” – elas compreendem sua natureza, seu desejo, e o aceitam como parte de si. A única escolha é aceitar ou não. Sim, conheço muitas pessoas trans que sofrem preconceitos em suas vidas. O próprio fato de viverem sua transgeneridade de forma clandestina, escondidas de suas famílias e círculos sociais, é uma demonstração do preconceito social que existe.

Qual é sua relação com as personagens criadas por você? As que se foram e as vindouras?

Não sei se vou voltar a ter personagens – pelo menos não na forma de itens de criação permanente. Quero me sentir livre em relação às minhas histórias, quero que elas gerem personagens sem gerar a obrigação de mantê-los em episódios periódicos.

Recentemente você se juntou à Rita Lee para lançar o livro “STORYNHAS”, poderia contar um pouco sobre a obra?

A Companhia das Letras me chamou para ilustrar este livro, que reúne textos da genial Rita Lee. Aceitei, emocionada. Acho que ficou um trabalho bem legal.

Por: Gustavo Primo, Jorge Filholini, Matheus Torres e Vinicius de Andrade.

4 comentários sobre “Laerte: “Qualquer área de expressão pode ser eficiente para a manifestação de posições ideológicas”

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