Reni Adriano: “as pessoas não confiam suficientemente no texto, na potência dele”

Reni Adriano

Reni Adriano

Reni Adriano, escritor e consultor em leitura e literatura, participou da exposição “Revistas e suplementos culturais: presente-passado-futuro”, realizada na última segunda-feira (5), na Unidade Especial de Informação e Memória (UEIM) da UFSCar.

Aos 28 anos, Reni estreou na ficção com o romance “Lugar”, vencedor do Prêmio Minas Gerais de Literatura de 2009. Graduado em filosofia pela PUC-SP, há 12 anos se dedica à mediação de leitura e formação de leitores públicos, sobretudo com adolescentes. É blogueiro de conteúdo educacional para leitura e escrita do Portal Ecofuturo e mediador do projeto “Leituras em Órbitas”, que será desenvolvido no Sesc Bom Retiro. De 2009 a 2012, o autor teve a oportunidade de conhecer as ações de leitura promovidas por profissionais de bibliotecas comunitárias em 11 estados brasileiros. A reflexão sobre essas práticas resultou no livro Confiar no texto, habitar os livros: boas práticas de leitura em bibliotecas comunitárias, que será publicado e distribuido gratuitamente no segundo semestre de 2014, através do Instituto Ecofuturo.

Depois da palestra apresentada por ele no evento, o autor concedeu entrevista ao Livre Opinião – Ideias em Debate e falou sobre seu livro, seu trabalho com práticas de leitura, um pouco de seu trabalho como autor premiado no campo da ficção e sobre as ações de simplificação de obras clássicas da literatura: “Ser condescendente com as dificuldades dos leitores e, muitas vezes, com a preguiça deles, condena esse leitor a ter acesso a apenas um tipo específico de literatura. É como se disséssemos: ‘Biscoito fino é só para nós! Nós que somos espertos e que temos algo a mais, que sacamos o Machado e o Rosa. Você que é mediano não terá acesso a esse tipo de leitura, porque você não é capaz de fazer'”. Leia e entrevista:

LOID: No livro “Confiar no texto, habitar os livros: boas práticas de leitura em bibliotecas comunitárias”, você vai tratar da mediação, da promoção, entre o texto e o leitor. Então, como é a relação do leitor com o livro no Brasil?

Reni Adriano: É tão precária que eu nem sei por onde começar. Até porque, ultimamente, tenho focado muito no que dá certo e não no que não da certo, até pra eu não ter uma úlcera e enlouquecer [risos], então acabei focando muito no que dava certo e me cerquei de pessoas que estão fazendo coisas que dão certo. Eu começo falando no livro para confiar no texto porque acho que as pessoas não confiam suficientemente no texto, na potência dele. O texto já é potente, não é o mediador que vai desenvolver algo na pessoa, é o texto que, em contato com o leitor, pela potência dele, irá disparar algo no leitor e fará com que os dois dialoguem por muito tempo, tendo suas relações como todos nós temos, leitores que somos. Todos nós temos aquele livro que despertou algo em nós e fez com que dialogássemos com a obra e acompanhássemos aquele livro. Muitas vezes continuamos acompanhando até hoje e outras vezes deixamos pelo caminho.

Mas eu estou falando isso porque as pessoas, mesmo os já leitores, esquecem que a potência está no texto e que é o texto que terá contato com o leitor para iniciar um trabalho e toda uma relação amorosa. Às vezes não é nem o primeiro texto que aparecer: cada um tem o seu texto. O potencial leitor escolhe o texto ou o texto escolhe a o leitor, não sei. Mas acho que, esquecendo a potência do texto, as pessoas focam muito nelas mesmas, acham que o problema é com elas, acham que precisam ter algo extraordinário, ou fazer algo mirabolante, pra que haja esse contato profícuo. Algumas pessoas são muito apaixonadas por literatura e sabem expressar essa paixão muito bem. E, claro, quando você tem isso por atingir as pessoas muito facilmente. Às vezes você gosta tanto de literatura que a pessoa fica quase coagida a gostar de tão impressionada que ela fica, o problema é quando as pessoas ficam buscando estratégias mirabolantes, muitas vezes camuflando a oferta de leitura com outras coisas. Vejo professores que dizem ter realizado uma ação de leitura e eu pergunto “E como é que foi?”, ao que eles respondem: “Ah, fizemos teatro, fantoche e depois teve dança e vimos um filme que era baseado no livro”.

Mas cadê a leitura? Ela não aconteceu! Então se equivocam, pois acham que trabalho de leitura é isso. Às vezes também confundem leitura com contação de histórias. Muita gente não gosta que eu fale isso, mas quero que entendam que eu não estou desqualificando a contação de histórias, porque é uma atividade muito importante. Minha avó, por exemplo, sempre me contou muitas histórias e me deixava inventar muitas histórias e isso está lá na origem da minha relação com a leitura, ainda que minha avó não fosse leitora porque ela era analfabeta. Então não é essa a questão, a questão é que a leitura não é contação de histórias! Em certos momentos, talvez até por desencargo de consciência, colocar um monte de situações em que você conta histórias achando que você está ficando quite com a leitura não adianta nada, porque não está! Existe, além de uma questão cognitiva diferente que está sendo desenvolvida, na contação de histórias algo de específico, que é o improviso. Então, vai depender muito da maneira como a pessoa irá contar. Podem até mesmo ser usados outros recursos para realizar a contação, outros instrumentos, mas quando em contato com o texto você dá voz a um texto e isso já é muda-lo um pouco. Você pode contar, por exemplo, “A benfazeja”, do Guimarães Rosa, do jeito que você quiser, porque é uma contação. Mas a leitura tem que chegar idêntica ao texto, então, ou a pessoa lê junto com você, ou todos leem o texto em si, porque é isso que faz o Guimarães Rosa ser o Guimarães Rosa: o texto dele, a forma que tem aquele texto. Mas é disso, justamente, que as pessoas fogem, porque pensam que os alunos acharão chato. Já não confiam mais – e não estou falando de confiança em si mesmo –, elas se esquecem de que o texto é potente, que quando você lê aquele texto a pessoa fica espantada, ou o texto causa estranhamentos. O estranhamento também é fundamental. Então, para falar de um modo muito geral da literatura, é como eu já disse: é tão complicado que já não consigo mais elaborar um quadro sobre isso. Mas já sei que a escola não é mais o caminho para a leitura. Aliás, não é nem mais o caminho para a educação de um modo geral, muito menos para a literatura.

E como você desempenha seu papel de mediador então? Como ele se dá?

Eu costumo priorizar uma forma de leitura. Na verdade, eu pratico duas, mas priorizo uma, que é simplesmente colocar as pessoas sentadas em círculo e cada uma com um texto em mãos. E aí vou lendo e, se for um conto pequeno, proponho que cada um leia até um ponto. Por exemplo, começa-se a leitura com o Vinicius e depois ele quer parar, então depois passa para o Cassius e para o Jorge em seguida, sempre assim, vamos simplesmente lendo. Não precisa de autorização para ler ou parar, ou comentar: cada um é livre para intervir em qualquer momento. E sempre vou fazendo uma conversa a partir da livre associação, tentando amarrar as falas do Vinicius com a as falas do Cassius, por exemplo. Enfim, vou tecendo um diálogo em torno deste texto que é o elemento comum que justifica a gente estar ali conversando. Claro que também existem aquelas pessoas que, durante um exercício como este, não gostam de ler, mas que, de qualquer maneira, estão ali ouvindo a leitura, os comentários, prestando atenção, então é basicamente assim que gosto de fazer.

A outra forma é quando há um público e eu leio para este público, mas não gosto tanto como da leitura em roda que, para mim, é a mediação propriamente dita, porque quando leio para as pessoas sinto que as elas não podem se apropriar do texto como eu me aproprio, pois o texto mexe com o afeto de cada pessoa e ela tem vontade de falar. Aliás, ouvir histórias dá vontade de falar, da vontade de contar coisas. É bom quando temos este tipo de espaço, então, acredito que a leitura em roda é mais completa. Na leitura para um público, a chance de este público achar que só você consegue ler é muito maior, porque quando só você lê a impressão que tenho é que os outros são mera plateia e você é o artista. Já em roda, todos se sentem mais autorizados a ler e comentar também, a relação de leitor para leitor só se estabelece na roda de leitura.

Quando você diz que muitas pessoas camuflam a literatura em outros gêneros para tentar ensinar ou incentivar a literatura, podemos até mesmo pensar nas práticas mais comuns dos ensinos fundamental e médio, como a utilização de filmes para ensinar um livro, prática que deixa de esclarecer que literatura e cinema, apesar de terem pontos de contato, são linguagens diferentes. Também considere certo preconceito que existe, principalmente na academia, contra a literatura de entretenimento, ou mesmo a recente questão da simplificação do Machado de Assis. Como você enxerga tudo isso? Isso mais aproxima o potencial leitor do livro e da literatura ou mais afasta?

Acredito que afastar dos livros, propriamente, acho que não. Pode mesmo até aproximar dos livros, porém depende de quais livros estamos falando. Porque quando adapto, ou melhor, quando destruo Machado de Assis, o que ele é e o que ele foi, e tenho a convicção de que simplificando a obra dele, como, por exemplo, substituindo a palavra “sagacidade” por “esperteza”, necessariamente estou dizendo assim: “Olhe, cara, a leitura de literatura não é para você não!”. Substituindo, ou simplificando, você obstrui a capacidade do leitor entender pelo contexto ou recorrer ao dicionário ou a alguém: se você é impedido de fazer isso, você nunca irá ler literatura. Você vai ficar condenado a um tipo de literatura, essa mais simples, que pretende ser “mais acessível”. O escritor não escreve apenas para um tipo de leitor! O Guimarães Rosa não poderia esperar a população brasileira ser totalmente alfabetizada, totalmente intelectualizada, para escrever o Grande Sertão: Veredas, porque a exigência da arte do artista é aquela: é aquela a maneira que ele tem de fazer, a maneira como a arte se impõe a ele. Então como você vai ficar facilitando essa leitura? A pessoa também tem que estranhar o livro e é neste estranhamento, nesta briga, que se entra num livro. É também brigando com o livro, amaldiçoando o livro que se entra nele. Eu mesmo, por exemplo, briguei com o Faulkner no O som e a fúria por uns quatro anos. Eu não conseguia ler o livro! Estava perdido, não sabia mais o que era o quê. E meus amigos me dizendo “leia, é muito bom” e eu com aquela frustração – e olhe que eu já era leitor, eu li recentemente o livro –, mas foi com essa briga que finalmente eu entrei no livro e consegui apreciá-lo. Porque também não podemos apenas ficar dizendo que a literatura só dá prazer. A literatura não dá só prazer! Se afirmarmos isto entramos num beco sem saída, porque outras coisas dão prazer, posso substituir então a literatura por outras coisas. Não. A literatura tem algo especifico, que só ela pode nos dar. Ela mobiliza muitas coisas. Às vezes temos que morrer para ler um livro. Por exemplo, quando li A Paixão Segundo G.H., eu morri depois de ler aquele livro. Foi difícil juntar minhas cinzas de novo para seguir vivendo. Foi um livro que me encheu de profunda tristeza, foi uma leitura de ruptura, então tem que ter também esse tipo de encorajamento.

Claro que nunca vou brigar se alguém deu algum livro best-seller para alguém, só realmente não sei se isso irá aproximar o leitor de outro tipo de literatura, porque não sei qual caminho seria seguido se você fica “dourando a pílula”, porque agora nem Machado é mais o Machado, porque não precisa mais do desafio, porque a simplificação pretende facilitar o caminho para você. Não estou dizendo para as pessoas não lerem uma literatura de entretenimento, podemos ler literatura de entretenimento, mas quando discutimos o problema da falta de leitura, estamos discutindo também o problema daquele cara que não transpõe a barreira do Machado de Assis, a barreira do Guimarães Rosa. Ser condescendente com as dificuldades dos leitores e, muitas vezes, com a preguiça deles, condena esse leitor a ter acesso a apenas um tipo específico de literatura. É como se disséssemos: “Biscoito fino é só para nós! Nós que somos espertos e que temos algo a mais, que sacamos o Machado e o Rosa. Você que é mediano não terá acesso a esse tipo de leitura, porque você não é capaz de fazer”. Então acabamos criando guetos, por assim dizer, de leitura. Dessa forma ela não chega como deveria ao leitor: ele deveria se apropriar dessa literatura e ir para além da questão da comunicação do texto. Se reduzíssemos o Dom Casmurro, por exemplo, à mera capacidade de comunicação, a história de Bentinho e Capitu seria uma chatice, se ela traiu ou não e etc. Não vai existir mais diferença então se a Capitu traiu o Bentinho ou se o ator global traiu a namorada com não sei quem, entende? Quando, na verdade, existe uma brutal diferença, que é como o Machado entra na questão, como ela aborda essa questão, seu trabalho de linguagem. Eu penso assim, se essa escritora que “facilitou” o Machado, a Patrícia Secco, se ela não quer capacitar as pessoas para lerem o Machado de Assim, tudo bem, fique no canto dela, só não venha tentar vender gato por lebre e fazer o público acreditar que você está lendo mesmo o Machado, porque não está!

Ainda neste sentido, então, o que são e onde estão os espaços não-canônicos de leitura?

Sinceramente? Em todos os lugares que não seja a escola. Acredito que é isso. Se você vai entrar na escola, necessariamente haverá um embate com o currículo escolar e outros componentes que cerceiam, de certa forma, a leitura. É impressionante e terrível dizer isso, mas em todo o lugar a leitura é viável, mas quando se pensa na escola ela acaba sendo, infelizmente, o lugar menos provável para que ela aconteça.

Em seu livro, uma das ações citadas por você são as bibliotecas que viajam. Você poderia comentar um pouco mais sobre estas bibliotecas? Elas são parecidas com as bibliotecas itinerantes?

Bom, estas bibliotecas têm muito a ver com a questão de extrapolar o espaço físico. Elas não precisam, necessariamente, ser um caminhão de uma grande rede, com patrocínio da Petrobrás. Pode ser um cesto de livro que você leve para algum lugar e possa oferecer a leitura a alguém. Às vezes, é função da biblioteca também, além do trabalho realizado no prédio em si, não só levar a leitura para outros lugares, mas também levar o gesto leitor para o espaço público, isso é uma biblioteca presente e desenvolvendo a sua função. Sou muito mais a favor disso, mais do que o livro deslocado, o gesto leitor, pessoas lendo publicamente. E, inclusive, banalizar a leitura – no bom sentido – tirar esse ar de extraordinário da leitura, essa falsa impressão de que só alguns podem fazer, e torna-la numa coisa que todos possam fazer. É por isso que acredito que qualquer espaço possa ser não-canônico, com exceção da escola, porque na escola a literatura nunca pode ser um gesto banal: você nunca pode pegar um livro por puro prazer, porque tem que dar conta dele em algum momento, haverá prova, haverá um direcionamento, a leitura tem que ter uma utilidade. É isso, na escola, a leitura tem que ter utilidade, tem que resultar em nota. Também acho esse um grande problema da escola, de um modo geral, não só em relação à leitura. Você não sabe como é a regra do jogo claramente, você nunca sabe como está sendo avaliado. Eu me lembro que, quando estava na quarta série, a professora me disse que eu iria passar de ano e fiquei impressionado. Perguntei o porquê eu iria passar de ano e ela respondeu: “você não tem nenhuma nota vermelha”. Fiquei estupefato, porque não sabia que o aluno passava de ano quando não tinha notas vermelhas [risos]. Eu nem imaginava como é que era, ainda mais por ser criança. Para mim era uma decisão muito misteriosa por trás que se dava depois da reunião de pais, porque minha mãe sempre vinha com essa notícia para mim depois da reunião. No caso da leitura na escola é a mesma coisa, você não sabe ao certo o que está sendo avaliado. Então não se lê por prazer, não se sabe qual a pergunta que cairá na prova, mas pode ter certeza que nunca serão: “o que você gostou?”, “o que te fez pensar?”, “como é que foi?”, “conte um pouco sobre suas viagens durante a leitura, seus afetos”, “você chorou? Riu?”, etc. Nunca é isso. Então, nunca sabemos o que está em jogo com este tipo de leitura. Existe também aquele tipo de prova que a costumávamos – ou costumamos – fazer nos ensinos fundamental e médio – na universidade espero que não – que, quando iniciamos as respostas, pensamos: “será que está certo mesmo? E se não estiver?”. Parece que tem algo além do que está proposto, que só um professor muito poderoso pode decidir e decifrar, parece que aquilo não está ao seu alcance. É um jogo muito perverso e, dentro deste jogo perverso, como é que alguém ficará encorajado a ler literatura?

Agora queríamos falar sobre os blogs. Essa geração, principalmente, constrói blogs ou mantém redes sociais para divulgar suas leituras, suas ideias e seus escritos. Você acha os blogs ou as redes sociais boas alternativas para a divulgação da literatura?

Sim. Os blogs e as mídias sociais, de um modo geral, são sim. No ano passado, participei da curadoria da mostra Twiteratura, no Sesc Santo Amaro. E twiteratura é um fenômeno literário que surgiu no Twitter, onde o cara tem que escrever em apenas 140 toques. Fiquei impressionado, pois encontrei muita gente que só conheceu a poesia através dessa twiteratura. E, o mais bacana, é que quem está fazendo a twiteratura não são os autores canônicos, temos aí o Denison Mendes, de Porto Alegre, por exemplo. Neste tipo de literatura há uma relação horizontal, porque quem lê o Denison na timeline ,ao mesmo tempo e do mesmo modo, lê um escritor famoso que foi postado lá e essa mistura é fantástica. Então, acredito que as mídias sociais são algo muito positivo neste sentido. Outra coisa, na rede, as pessoas descobrem que elas também podem fazer literatura. Apesar de muitos torcerem o nariz e dizer “Ah, agora todo mundo pode fazer poesia”, eu pergunto: qual o problema? Qual o problema de uma pessoa descobrir que a linguagem tem outra função na rede além daquela de dizer: “estou comendo um hambúrguer”, ou “partiu praia, feriadão”, ou seja, a simples comunicação? A palavra pode mais do que isso e, se alguém descobre este poder, não nos cabe decidir se ela é ou será um grande autor: o que interessa é que esta outra forma da palavra foi descoberta. Outros reclamam também por ser uma mistura muito grande, mas eu acho ótimo que haja essa mistura! Citei o Denison Mendes porque gosto do que ele faz – que, aliás, acho muito incrível, escrever algo literário em apenas 140 caracteres. Ele faz isso tão bem e é tão querido que seu sucesso é tremendo nesse meio, ele tem uma rede de admiradores e também pessoas que talvez nem saibam quem ele é. Então, de vez em quando aparecem nas redes sociais aquelas frases atribuídas a grandes autores como a Clarice Lispector, por exemplo, e um dia apareceu uma frase atribuída ao Caio Fernando Abreu mas que, na verdade, era do Denison! [risos]. Por esta razão, durante a mostra que aconteceu no Sesc, tentamos fazer com que a aparecessem na tela os trechos misturados, para não hierarquizar. Colocamos frases do Machado, por exemplo, misturadas com as de autores desconhecidos. Pegamos 50 autores clássicos e os misturamos com autores desconhecidos, algo totalmente horizontal. A leitura na rede não passa por uma questão de determinar o que é literário, não é fazer um juízo de valor. O importante é essa apropriação, saber que a palavra pode ser usada de outras formas que não a mera comunicação e que você tem o direito de fazer isso. Que os outros se mordam, porque, no fundo, quem reclama destas manifestações é o vaidoso, que queria ser o único que pudesse escrever, quem tem aquele sonho de tomar cafezinho na Academia Brasileira de Letras.

Reni, você diz, em seu livro que será lançado no próximo semestre, que o a literatura é escrita para todos, porém nem todos têm acesso à essa literatura. Então, o que te fez começar a querer melhorar isso, mudar esse quadro?

Na verdade, no começo, eu não queria mudar quadro nenhum. Eu nem me dava conta do quadro que existia, eu era apenas apaixonado pela leitura. Desde o ensino médio eu era o cara da leitura, todos me conheciam como o cara da leitura, falava-se em leitura chamavam logo o Reni [risos]. Eu promovia saraus na escola, reunia pessoas nos intervalos e começava a realizar leituras e isso chamava ainda mais gente. Foi quando uma instituição infantil chamada Instituto Fernando Braudel, que estava procurando novas escolas para realizar o projeto Circulo de Leitura, pois já haviam tentado em outras escolas, mas não deu certo. Então, chegaram nesta escola onde eu estava, que era tida como referência na rede pública, falaram com a diretora e ela logo disse que a pessoa certa era o Reni. Assim, fui convidando as pessoas e foi dando certo, o projeto cresceu, foi para todo o estado e acabei trabalhando por 8 anos nisso. Foi no projeto que aprendi tudo e comecei a perceber o problema e entender, finalmente, aquele quadro. Mas tudo começou pela paixão: eu não queria combater a falta de leitura no Brasil, eu não tinha essa bandeira. Eu queria ler e queria que as pessoas lessem também, porque era bom. Chegamos a realizar leituras em ônibus, mesmo saraus dentro dos ônibus, tentando passar esse encantamento, essa alegria que tínhamos com a leitura. E, depois daqueles 8 anos, percebi que já estava tão envolvido que não teria como fazer outra coisa na vida, aquele seria meu trabalho.

Já que falamos bastante sobre seu trabalho com a leitura, qual a diferença entre o Reni divulgador literário e o Reni romancista?

Não sei! [risos] Porque, na verdade, o Reni divulgador é o Reni leitor. Gosto de chegar num lugar em que o encontro seja bom para mim também, então, quando eu não tenho o prazer de leitor, para mim meio que não dá certo, não acontece. Existe o Reni autor e o Reni leitor, e esse Reni leitor pode ser tanto aquele leitor solitário como aquele que se desdobra em infinitas ações de leitura. E, claro, só comecei a escrever porque a leitura sempre me tocou e mobilizou coisas em mim. Mas, no fundo, não sei qual é diferença, para mim parece algo indissociável, até porque refleti pouco sobre isso.

Mas qual foi a importância do Reni leitor no caminho da escrita?

O escritor se impõe na medida em que eu não escolho o que quero escrever, é uma inquietação que vem não sei de onde. Mas o leitor se impõe na medida em que quero um texto que eu goste de ler, então escrevo pra eu ler. Se existe um ponto de contato, se é que essas coisas são realmente separadas, é este: o escritor é independente porque tem suas inquietações e precisa escrever e o leitor chega nessa hora porque ele quer que seja algo bom de se ler depois.

Bom, já que o Reni leitor tem que gostar do que o Reni escritor escreve, você gosta de ler seu romance, o “Lugar”?

Gosto. Modéstia à parte eu gosto [risos]. Mas eu já gostava antes de ter sido descoberto e continuaria gostando se tivesse dado tudo errado, editorialmente falando. Tanto que ele ficou guardado durante 2 anos depois que eu escrevi e não tive preocupação nenhuma em publicá-lo. Inclusive gosto tanto que, depois de lançar o livro, tive uma crise terrível, porque o texto já não era meu. Tudo bem, até existe aquele clichê de que é o filho que sai para o mundo, mas não era só isso. Era imaginar que tinha gente lendo e tendo opiniões sobre o texto e, na minha cabeça, elas não tinham o menor direito de fazer isso, porque elas não sabiam do sofrimento para escrever aquele livro, o quanto aquilo me tocava e era importante pra mim. Só eu era capaz de entender, de fato, o meu texto, mesmo quando falassem bem sobre meu texto, porque o texto era meu [risos]. Então, essa crise, tive mesmo, quis até ligar para a editora e pedir para retirar de circulação, que eu pagaria – sei lá como – o prejuízo [risos]. E tem também aquele problema que vem depois da repercussão do primeiro livro, porque parece que tudo que você vai escrever depois fica sob o olhar de um monte de cabeças anônimas atrás de você, te examinado, e isso me paralisou por um bom tempo. Até eu me relacionar com isso de novo, até eu ter um espaço meu com meu texto de outra vez, levou um bom tempo.

Entrevistadores: Cassius Nakabashi, Jorge Filholini e Vinicius de Andrade.

Confira a galeria da exposição:

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