“Vidas ao Vento” retrata um Japão da invenção bélica e o suposto adeus de Hayao Miyazaki

Vidas ao Vento

Vidas ao Vento

Anunciado como o último filme do mestre da animação Hayao Miyazaki, criador de obras-primas como A Viagem de Chihiro, O Castelo Animado e Meu Vizinho Totoro, assim como sócio-fundador do Studio Ghibli, considerado um dos melhores estúdios de animação, “Vidas ao Vento” é definitivamente o seu trabalho maior.

A animação narra a biografia de Jiro Horikoshi, engenheiro aeronáutico que desenvolveu diversos projetos de aviões modernos durante a Segunda Guerra Mundial. Criatividade se mistura com desencanto. Jiro entra na decepção por construir modelos inovadores que são utilizados como máquinas de morte. No entanto, a questão da guerra é um traço forte na característica do personagem e Miyazaki explora este fator muito bem, acompanhando Jiro no conflito interior de se tornar engenheiro brilhante na carreira e a mágoa de ver suas criações serem encarregadas na destruição de vidas.

“Vidas ao Vento” percorre as fases de Jiro desde a infância quando recorria às revistas ocidentais sobre aviação, constituindo ídolos internacionais da área, passando pelo grande terremoto de 1923, em Tóquio. Durante o terremoto, Jiro encontra sua futura paixão, a jovem Naoko, além de ajudar na reconstrução da cidade. Sua notável carreira como designer de aviões foi destacada com a criação do inovador Mitsubishi A6M Zero, conhecido apenas como avião Zero. Os Zeros foram utilizados no ataque á base de Pearl Harbor, em 1941, nos EUA, firmando a entrada do exército americano na Segunda Guerra Mundial.

O interessante é desenvolver esta carreira de Jiro em animação, considerado o trabalho mais sério de Miyazaki, principalmente polêmico em retratar a história de um projetista que criou aviões de guerra. “Vidas ao Vento” aborda o período entre guerras no Japão, a entrada do país na modernidade, no embate com a tradição milenar, os bastidores da construção aeronáutica – tornando-se uma aula de engenharia mecânica. Miyazaki foca brilhantemente o desenvolvimento da equipe de designer aerodinâmico, centralizando a imaginação de Jiro, de genialidade à parte permite que o espectador mergulhe em sua mente ajudando-o na elaboração de seus projetos. Outro aspecto notável são as representações dos objetos da época em animação, trabalho magnífico da equipe do Studio Ghibli.

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É uma aula de direção e animação que Miyazaki transmite na tela, a chuva é de tamanha originalidade que deixa o espectador fascinado. O vento é destacado na obra em todas as sequências, acompanhamos a dança dos ventos nas decisões de Jiro e o reencontro dele com Naoko. É de extrema competência a construção das cenas e ambientes, principalmente a aerodinâmica dos aviões em testes no céu. São tantas as sequências belas que se o filme fosse desenvolvido por outro estúdio não teria a importância que se tornou. “Vidas ao Vento” foi sucesso de bilheterias no Japão e indicado ao Oscar deste ano na categoria de Melhor Animação, mais uma vez a decepção das escolhas desastrosas dos vitoriosos pela Academia, “Vidas…” perdeu o prêmio para “Frozen”, da Disney.

O amor pela aviação transforma Jiro, combustível de vida que prefere estar nos céus de encontro ao vento, a sequência inicial em que entramos no sonho de Jiro ainda criança é uma pré-visita à mente geniosa em construção. Assim como Miyazaki é importante em seu país nesta geração, Jiro foi também a um período conturbado.

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Com um final majestoso e crítico, “Vidas ao Vento” já pode ser considerado uma obra-prima em que conta, por meio da animação – o que é formidável -, um período do Japão ainda romântico nos ambientes e relações, além da presença forte da tradição, um Japão muito antes das bombas atômicas e do desenvolvimento tecnológico. Um país em construção na invenção bélica, focalizando a decisão ideológica da pré-Segunda Guerra Mundial. Nota-se também nos diálogos um suposto adeus de Miyazaki – principalmente nos diálogos entre Jiro e Caproni -, que recentemente anunciou a aposentadoria. Se realmente este for o último filme de Hayao Miyazaki, ele nos deixou sua obra-prima.

A mágoa de Jiro por transformar suas criações em armas é o empecilho que marcou sua vida, mas no final do filme o que realmente importa é continuar a viver, pois toda a causa tem como efeito ir embora com o vento.

 Por: Jorge Filholini

 

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