Tempos efêmeros

foto simEra um tempo em que o passado ficava atrás. Nas visitas de casa, bolo de chocolate, cafezinho e o momento tão esperado para o álbum de fotografias.

A viagem ficava guardada com cada um. O encontro tinha um fim. As crianças haviam crescido e as fotos representavam as lembranças, às vezes felizes, de um tempo em que sabíamos que jamais voltaria.

O álbum era aberto, abrindo as cortinas da sala para melhorar a qualidade da luz. E, sentados confortavelmente no sofá, cada foto era exposta, contando suas histórias, as particularidades e os pequenos acontecimentos que ali não estavam enquadrados.

Um mundo particular era mostrado por quem realmente havia vivido aquilo, enquanto os espectadores viam e ouviam atentos, curiosos ou descuidados. Não havia foto por ela mesma, o que havia eram histórias. Histórias do passado que eram contadas, recriadas e, depois, esquecidas.

Com o tempo, as fotos amarelavam, assim como nossas mãos que envelheciam. Destinos de um tempo da mãe-terra que é findo, exemplo de que as coisas começam, transforma-se e acabam. Os rostos, antes nítidos, começavam a desaparecer, assim como as pessoas reais e como as lembranças. Quando totalmente amareladas e transparentes, as fotos eram descartadas pelos mais novos.

Desrespeito? Não, afinal cada coisa tem seu tempo e cumpre o seu papel. As pessoas, as fotos e as lembranças. E todas elas têm seu fim, já que as histórias foram contadas e passadas aos outros.

Hoje, é um tempo em que não há tempo. O passado mistura-se com o presente, agredindo o futuro. As visitas em casa já não acontecem e o cheiro do bolo com cafezinho não é mais um convite ao encontro real. Mas as fotografias persistem. Só elas, estáticas, sem histórias, sem vida. Pessoas e paisagens que se tornam efêmeras por não encontrarem mais vida, a surpresa e o presente.

As figuras que antes ficavam no nosso passado, e era bom para alimentar a nossa criatividade poética das lembranças, agora estão escancaradas no nosso presente. Pessoas que fizeram parte de um período de nossas vidas e que hoje, com as mudanças, com as transformações, nada mais tem a ver com a gente. E elas ressurgem, agredindo o nosso presente, levando a nossa fantasia de um passado adormecido.

Já não sabemos em que tempo estamos. Tudo se mistura tanto a ponto de se tornar uma massa homogênea de nada. E somos obrigados a conviver, diariamente, com os mortos do passado, os vivos do presente e os fetos do futuro. Não há respeito com o ciclo da vida. Infelizmente, as histórias acabaram e o sabor do cafezinho com bolo, agora amargo, virará filme de época.

Larissa Lisboa

Texto originalmente publicado no blog Diabólicas

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