Lourenço Mutarelli: “Foi o meu trabalho que me salvou dos meus demônios e de mim mesmo”

Lourenço Mutarelli durante a entrevista

Lourenço Mutarelli durante a entrevista com o Livre Opinião

Convidado pelo escritor Marcelino Freire, o Livre Opinião – Ideias em Debate participou, no último sábado (17), no B_arco Centro Cultural, do “Da Pá Virada: Virada Literária Especial”. No evento, várias atrações com lançamentos, leituras, pequenos shows e uma entrevista ao vivo com o escritor e autor de histórias em quadrinhos Lourenço Mutarelli para o site.

Artista múltiplo, é escritor, ator, dramaturgo e autor de histórias em quadrinhos. Sempre original Mutarelli leva o leitor até o abismo da consciência, não se importa de traçar os perfis mais deploráveis da nossa sociedade.  Mestre dos diálogos marcantes da atual literatura, suas obras se destacam pela imagem crua do ser humano, incomodando o leitor, mas fazendo-o refletir sobre a multifacetada sociedade. Dos anos 80 com quadrinhos que já são clássicos, até os anos dois mil com romances que inovaram a literatura brasileira, rasgando o cânone e desestruturando o conceito tradicional da narrativa, Mutarelli transformou a cultura nacional.

Obras como A Confluência da Forquilha, Mundo Pet, Eu te amo Lucimar, O Dobro de Cinco, O Rei do Ponto, A Soma de Tudo 1, A Soma de Tudo 2, Desgraçados (1993), OverDoze, entre outros quadrinhos; os romances O Cheiro do Ralo, O Natimorto, Jesus Kid, A Arte de Produzir Efeito Sem CausaMiguel e os Demônios e Nada me Faltará;  e a coletânea Teatro de Sombras, que reúne cinco de suas peças, são uma parte da vasta obra do autor.

Mutarelli participou de um bate-papo descontraído com o Livre Opinião,  falando um pouco sobre as criações de suas obras: “Para mim, é que cada trabalho seja uma experimentação. Isto é o mais importante”. Ele também explicou como foi a passagem dos quadrinhos para a Literatura: “Entrar na Literatura aconteceu acidentalmente”, assim como sobre sua contribuição no teatro escrevendo peças e atuando: “Para mim o teatro é um lugar de muita liberdade, muita possibilidade de experimentação e não tem nada mais gratificante do que você vê o seu texto e seu personagem ganhando formas”. Confira a entrevista:

Livre Opinião: Pergunta praxe, como é o processo criativo de suas obras?

Lourenço Mutarelli: Sim, bem praxe (risos)! Na verdade, para mim, é que cada trabalho seja uma experimentação.  Isto é o mais importante.  É começar uma coisa onde eu esteja de alguma forma perdido, isto sim é o que mais me motiva e instiga. Creio que hoje, embora eu seja um punk em negativo [passa a mão na cabeça calva], sou mais radical do que quando eu comecei, e isso é que eu não quero perder. Quero continuar expondo e experimentando profundamente o meu trabalho.

Uma curiosidade: você começou com quadrinhos nos anos 1980, certo? Como foi então a transição para a Literatura, já que seu primeiro romance foi publicado no início dos anos 2000? Como foi esse processo em você?

Eu sempre respeitei demais a Literatura. A Literatura era algo que até me assombrava, já no quadrinho não se tem um olhar tão sério, pode-se experimentar muito nele. Entrar na Literatura aconteceu acidentalmente. Eu tinha acabado de ler Capão Pecado, do Ferréz, e fiquei impressionado com o livro. Quando eu leio um livro não importa qual, calhou de ser o Capão Pecado, tem que ser exatamente o que me aproxima da realidade. Escrever é meio que um ilusionismo, é mais ou menos tentar fazer com que você veja o que estou propondo e faça você acreditar naquilo. O quadrinho já é uma interpretação do mundo, já tem um filtro ali. Então fiquei com muita vontade de tentar evocar as imagens através da palavra, e foi isso.

Eu escrevi O Cheiro do Ralo, a Lucimar [esposa de Mutarelli] tinha ido viajar com o meu filho, Francisco, que era pequenininho e eu tinha um monte de trabalhos de desenhos para fazer. Foi um momento em que eu estava muito cansado de imagem, não tinha uma imagem limpa e tudo era imagem. Eu trabalhava muito com imagem, e então comecei a mexer no Word. Eu falo uma coisa que pensam que é brincadeira: eu não entendia nada de Word e aparecia sempre um “clipizinho” que ficava animado se mexendo e aquilo me dava muita agonia. Tentei tirar aquele “clipizinho” e ele se tornou um “einsteinzinho”, que ficava falando: “Olá, vou te ajudar!” (risos). Aquilo me dava muita aflição, tudo no computador tinha imagem e som e eu estava muito saturado disso e acabei escrevendo em cinco dias O Cheiro do Ralo, por causa de um surto mesmo, uma tentativa de evocar a imagem através da palavra.

Uma pergunta meio cachorra. Por qual dos dois gêneros você têm mais afeição? Você se aproximou mais da Literatura ou dos Quadrinhos?

Eu gosto mais da Literatura! Eu continuo fazendo quadrinhos, não parei, só que eu faço quadrinhos para mim, faço quadrinhos póstumos que é para pagar o meu enterro quando eu morrer (risos). Eu queria muito que tivesse um busto ou o corpo inteiro de bronze… Para os pombos (risos). O meu epitáfio será “Eu vou, mas eu volto” (risos). Não acredito em espírito, é só para assustar umas pessoas que vão achar que estão longe de mim. Eu queria mesmo uma estátua minha, então eu tenho uns trabalhos póstumos para tentar realizar isso tudo (risos).

Mas não, eu faço quadrinhos extremamente experimentais e no meu próximo livro vai ter um pouco disso encartado nele. Pedi para que costurassem junto, porque, naturalmente, a editora quer separar, pois será um livro e um quadrinho, mas eu quero mostrar que é uma coisa só. É um quadrinho extremamente experimental em que eu queria, a princípio, extrair um texto do quadrinho, apenas nesse texto, mas eu gostei muito do resultado, gostei muito do processo, então eu vou costurar ele no meio do livro.

A diferença do quadrinho acontece assim: eu estou desenhando, construindo, simulando uma realidade, tem uma distância, mas quando eu escrevo é como se eu mergulhasse, é como se eu estivesse muito além do que estou escrevendo. Então, a minha relação é muito mais profunda quando eu escrevo apenas texto. Por isso é a minha “preferência”.

Qual a liberdade que a Literatura te oferece e os quadrinhos não? Por exemplo, como você percebeu que O Cheiro do Ralo seria melhor na linguagem literária do que na linguagem dos quadrinhos?

O Cheiro do Ralo tinha elementos que eu queria que fossem ideais para cada leitor, por exemplo, a bunda é um personagem importante no livro. Eu costumava dizer que quanto menos descrição eu der dessa bunda será melhor para cada um poder construir a sua bunda ideal. Se eu desenhasse isso acabava matando totalmente o que eu queria propor.

Por outro lado, quando eu voltei do meu ultimo quadrinho, que se chama Quando meu pai se encontrou com o ET fazia um dia quente, eu voltei meio obrigado, me fizeram uma proposta irrecusável financeiramente e, como uma boa prostituta, eu aceitei, mas pensei: “vou fazer um anti-livro”. Eu vou fazer um livro que ninguém vai comprar, então o livro chama Quando meu pai se encontrou com o ET fazia um dia quente. Você abre o livro, na primeira página tem um tiozinho falando com o extraterrestre: “Calorão, hein?”. Eu pensei: esse leitor vai fechar o livro e não irá comprar e ainda vai falar “não sou trouxa” (risos). Então era uma revolta, era um livro em que lutei. Eu fiz, cumpri e recebi, mas eu queria que ninguém lesse. No entanto, eu gosto do livro, eu gosto do resultado, mas nesse momento foi uma coisa que eu percebi que o quadrinho me dá e eu não consigo isso na minha literatura, que é o silêncio. O quadrinho me dá silêncio e eu não consigo encontrar o silêncio no meu texto, isso é uma coisa que eu gostaria, mas ainda não atingi.

Agora sobre o teatro: O que te fez escrever peças e também atuar no teatro?

Atuar eu fiz só uma vez. Foi uma brincadeira que eu fiz com o Mario Bortolotto e nunca mais vou fazer (risos). Eu já atuei em filmes, mas é muito diferente, o cinema é algo que se trabalha com uma equipe, é fechado. Claro que quando o filme sai existe uma exposição, mas durante o processo a pessoa está muito protegida por uma equipe que está cuidando dela, e essa pessoa não sente a exposição. O teatro não, o teatro é todo dia, você entra lá e é extremamente tenso, não dá para entrar sóbrio (risos) e tem que tomar um certo cuidado no grau de bebida, porque corre o risco de perder o texto (risos).

Agora escrever para o teatro, todos esses desdobramentos que o meu trabalho teve, foi fruto d’O Cheiro do Ralo. A partir do momento que o livro saiu, um grupo de teatro me convidou para comprar os direitos e montar o teatro, mas eu já tinha vendido os direitos. No entanto, falei que se eles quiserem eu poderia escrever algo novo, conheço o grupo e falei “se vocês forem pessoas simples eu posso escrever alguma coisa”. Curiosamente, a gente ensaiava nesta sala [b_arco Centro Cultural] que nem era o b_arco ainda, aqui era um galpão e todo sábado a gente desenvolvia a minha primeira peça.

Para mim o teatro é um lugar de muita liberdade, muita possibilidade de experimentação e não tem nada mais gratificante do que você ver seu texto e seu personagem ganhando formas. Eu tive a honra de trabalhar com atores incríveis, tudo isso engrandece muito quando tem essa corporificação do ator, o peso do trabalho do ator. Eu acho muito fascinante quando o autor vê isso acontecendo.

Há diversos Mutarelli nos personagens de seus romances? Como eles aparecem nas narrativas?

Geralmente eu me coloco mais ridículo do que sou e eu já sou bastante (risos)! Então sempre há desdobramento de uma caricatura minha. Tem muito de mim e não tem. Às vezes eu acho que são muito distantes de mim. Meus personagens são muito desprezíveis, eu não gosto de me ver neles, mas sempre tem. Quando eu fiz O Cheiro do Ralo a minha ideia era fazer um antagonista, o contrário, mais ou menos alguém que fosse o oposto de mim. Eu não sei comprar e nem vender nada sem tomar prejuízo e eu sou muito maltratado no comércio, porque eu trabalho com desenho e tem muita tinta, além de eu andar parecendo um mendigo e acabam me tratando muito mal (risos). Então a minha ideia era criar um personagem ao contrário de mim, só que, naturalmente, por mais distante que ele fosse tem um ponto da escrita onde eu me misturo também com ele. É difícil não se misturar.

Você disse que se mistura às vezes com personagens e tem muito disso no teatro, o entrar no personagem. Você também sofre esse processo, a dificuldade de sair?

Não! Meu trânsito é muito fácil, é muito rápido. Eu trabalho numa jaula de verdade, eu trabalho num quarto de empregada sem janela e com grade para os meus gatos não entrarem porque trabalho com pintura. Lá é um cantinho do inferno, é um lugar apertado, já que meu trabalho é pesado. Mas a coisa que eu sempre faço é não contaminar a minha casa com o meu trabalho. Então é só fechar a porta do quartinho e sou outra pessoa. Meu objetivo é fazer piada, alegrar o ambiente da minha casa, dos meus amigos. Eu me divirto, eles não (risos). Eu me acho muito engraçado.

Mas tem esse transe nas vezes que eu atuei, principalmente no caso mais denso que foi em O Natimorto, onde eu não fiz o meu personagem, fiz o personagem do diretor, que era muito diferente do personagem que eu deslumbrava. Eram cenas extremamente pesadas, mas o trânsito era muito rápido. Às vezes parava no meio de uma cena extremamente densa, a gente ia embora e no outro dia voltávamos sete horas da manhã para começar naquele ponto que havia sido parado no dia anterior, e eu consigo acessar e sair desse ponto facilmente. Não misturo.

Teve uma matéria que saiu na Folha de S. Paulo ou no Estadão, não me lembro, dizendo que eu tinha me misturado tanto com o personagem que eu não queria ir embora mais do set. A verdade é que o carro me pegava às 5 da manhã e me levava para gravar, mas filmagens começavam às 7 da manhã e iam até às 7 da noite. Quando acabava eu tinha de uma a duas horas e meia para bater o texto do dia seguinte e naquela hora eu já tava morto de cansaço, então era melhor eu dormir mesmo no set, pois já ficava direto. Então não é que eu tinha me misturado, eu só queria dormir um pouquinho mais (risos).

Você falou dos gatos e lembramos de uma entrevista sua para o Saraiva Conteúdo em que você estava com um gato em seu colo. Naquela entrevista, você havia falado que em seu trabalho você procurava tranquilidade. Então, queremos saber: tudo isso que você tem feito, como quadrinhos, romances, peças – mesmo que tenha sido apenas uma experiência – te deu tranquilidade?

Tem uma brincadeira que eu faço com a minha mulher, ela até não gosta, mas eu falo que desde que eu me tornei perfeito tudo que faço é espetacular (risos).

Foi o meu que trabalho que me salvou dos meus demônios e de mim mesmo. Claro que teve muita terapia, foram 28 anos de antidepressivos e tranquilizantes, mas o meu trabalho é fundamental, então o processo muitas vezes não é tão simples, no entanto, cada trabalho que eu termino fico melhor.

Há muito de São Paulo nos seus trabalhos, qual a sua relação com a cidade: é de amor e ódio?

Eu tenho uma coisa curiosa, às vezes faço viagens para o interior de São Paulo e sempre que eu chego numa cidadezinha do interior algo me toca profundamente. Adoro as coisas de raiz. Desde que meus ancestrais vieram da Itália para cá, há quatro gerações, todos viveram em São Paulo, mas eu adoro a coisa regional, adoro o interior.

Eu gosto de São Paulo porque eu tenho meu ritmo, quando tenho que viver no ritmo de São Paulo eu não gosto. Não dirijo há dois anos e quando vou para algum lugar sempre utilizo o metrô, ônibus ou táxi e chego duas horas antes do que eu marquei para poder ir no meu ritmo. Sempre ando com a mochila com livro, caderno para desenhar ou escrever, gravador, tudo que eu precisar para matar o tempo. Eu tenho um ritmo só meu, ando muito devagar e as pessoas que andam comigo forço a andarem devagar, porque eu detesto a pressa, detesto entrar no ritmo de São Paulo. Quando eu entro no ritmo desta cidade eu enlouqueço de verdade.

Mas tenho muito carinho e admiração por tudo que é do interior, isso me atrai muito! Aliás, logo mais vou conhecer todas as rotatórias de Pirassununga (risos).

E a pinga de Pirassununga também?

Lógico! Whisky é o meu forte, mas a pinga é o nosso Whisky (risos)! Aliás, São Carlos eu já conheço e gostei muito.

Qual o cheiro do ralo que incomoda Mutarelli?

Isso é engraçado, porque na época em que escrevi O Cheiro do Ralo, eu alugava um apartamento que também tinha um quarto de empregada. Lá tinha um banheirinho e vinha um cheiro insuportável daquele ralo e um dia eu pensei “esse cheiro vai me deixar louco”, então eu percebi a graça nisso, pois não é o cheiro que vai me deixar enlouquecido.

Eu acho que o cheiro é um pouco o que o livro e o filme falam, de que é a gente não ter vergonha do nosso próprio cheiro. Todos têm seu próprio mau cheiro e na estrutura do livro eu construo para que você possa vencer esse mau cheiro e entrar na história. Se a gente usar menos perfume, uma coisa que me dá alergia e dor de cabeça, a gente se entende melhor!

 Entrevistadores: Jorge Filholini e Vinicius de Andrade

 ★

 

16 comentários sobre “Lourenço Mutarelli: “Foi o meu trabalho que me salvou dos meus demônios e de mim mesmo”

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