Marçal Aquino: “No juízo final, espero estar na fila dos escritores”

Marçal Aquino (Foto: Cia das Letras)

Marçal Aquino (Foto: Cia das Letras)

Considerado um dos maiores escritores da literatura contemporânea, o escritor Marçal Aquino transformou o gênero com romances que exploram o submundo e a violência das grandes cidades, destacando O Invasor, O Amor e Outros Objetos Pontiagudos (Prêmio Jabuti 2000), Cabeça a Prêmio e Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios. Escreveu livros infanto-juvenis para a Coleção Vagalume, entre eles O Jogo do Camaleão e A Turma da Rua Quinze.

Marçal trabalhou como repórter no Jornal da Tarde e O Estado de S. Paulo. Contribuiu ativamente como roteirista em filmes inovadores do cinema nacional, como Os Matadores, Ação entre Amigos, O Invasor, Nina, O Cheiro do Ralo e Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios, muitos deles tendo Beto Brant na direção. Na TV, Marçal escreveu, com Fernando Bonassi, as séries Força-Tarefa e O Caçador (ainda em exibição), ambas transmitidas pela TV Globo.

Em entrevista para o Livre Opinião, Marçal comentou qual a forma que o deixa mais confortável, escrever roteiros ou livros: “Estou sempre repetindo que sou, antes de mais nada, um escritor, porque é assim que me vejo”. Ele também falou sobre a parceria com o diretor Beto Brant e a posição do cinema nacional: “Olhando retrospectivamente, penso que aquela leva de filmes que escancarou o real era necessária e urgente”.

Outro aspecto declarado pelo escritor foi em relação à sua experiência como repórter na construção de seus livros: “Minha experiência como repórter, sobretudo, foi muito marcante para o que escrevo em termos de ficção. Acho saudável”. Confira a entrevista na íntegra:

LOID: Primeiramente, o que te deixa mais confortável: escrever roteiro ou livro? Explique-nos qual o seu processo criativo na elaboração de ambos?

Marçal Aquino: Estou sempre repetindo que sou, antes de mais nada, um escritor, porque é assim que me vejo. Adoro escrever roteiro, é sempre um grande desafio, mas minha casa é a literatura. No juízo final, espero estar na fila dos escritores.

Os processos de criação são bem diversos, até porque literatura é sempre solitário, íntimo, enquanto roteiro, no meu caso, é um processo que sempre envolve mais gente. Literatura nunca sei de onde vem, onde vai me levar. Roteiro é um processo bem diferente nesse sentido, e não só na linguagem propriamente dita.

A parceria com o diretor Beto Brant rendeu ao cinema nacional grandes obras cinematográficas do gênero policial e, principalmente, as que retratam o submundo. A seu ver, o cinema nacional estava necessitando voltar a ter esta vertente que analisa a violência e a multifacetada sociedade contemporânea das cidades?

Olhando retrospectivamente, penso que aquela leva de filmes que escancarou o real era necessária e urgente, porque o cinema precisava dar conta do grau de barbárie que havia naquele momento brasileiro. Infelizmente, essa barbárie só se acentuou nesses dez anos passados – e talvez o cinema necessite voltar ao tema, atualizá-lo.

Atuando nos roteiros de séries televisivas como “Força Tarefa” e, atualmente, “O Caçador”, qual é o maior desafio: escrever para um público alvo ou tentar ampliar para todo o espectador que acompanha o canal? Existe pressão da emissora para você “pegar leve” na elaboração das cenas?

Eu e o Bonassi não recebemos até hoje qualquer tipo de orientação quanto ao que escrevemos. Trabalhamos com total liberdade, e é isso que tem feito nossa relação com a televisão ser tão prazerosa e profícua. O desafio é o de sempre: contar uma boa história, que interesse a quem assiste, trabalhando com a dinâmica da TV, que é bem diferente do cinema, bem mais frenética.

Existe o olhar jornalístico em seus livros? É difícil separar a linguagem jornalística da Literatura?

Sempre achei que a literatura só se beneficia quando se deixa contaminar por outras linguagens. A meu ver, é quando ela mais se reafirma como literatura. Minha experiência como repórter, sobretudo, foi muito marcante para o que escrevo em termos de ficção. Acho saudável. Mas, no limite, cada meio tem sua linguagem própria, que se tocam, se apropriam uma da outra, mas nunca se confundem.

Certos críticos apontam a prosa contemporânea como “simples”, ou mesmo tentam classificá-las em eixos que tentem descrever/compreender o trabalho de linguagem desta prosa (os conceitos de Hipermediação e Hipermimetismo, de Alfredo Bosi, por exemplo). No entanto, talvez inúmeras interpretações e inquietações que ela pode transmitir ao leitor parecem ficar esvanecidas nestas circunstâncias. Você espera que seus livros se tornem cânones?

Sinceramente, não penso no que vai acontecer com meus livros no futuro, até porque não estarei presente para testemunhar. Sou muito feliz com a possibilidade de ser lido pelos meus contemporâneos. Isso me satisfaz, me basta.

Sua literatura tem presença em diversas linguagens – como poesia, ficção adulta e juvenil -, para você a dificuldade na construção da narrativa está em qual linguagem?

Acho difícil escrever, qualquer que seja o gênero. Dá trabalho, exige uma disponibilidade física e mental que nem sempre estamos aptos a conceder, em função dos outros desafios da vida diária.

Marçal Aquino é também o invasor de uma classe social pouco conhecida para retratar o cotidiano dessa camada nos livros? O choque social no enredo de “O Invasor” mostra o desejo de ascensão da classe social menos favorecida, assim como o mergulho da classe média no submundo. A seu ver, este equilíbrio é constante na sociedade brasileira? Quem realmente é o invasor?

Quando comecei a escrever O invasor, em 1997, estava tentando refletir sobre o estágio da barbárie naquele momento. Quis escrever uma pensata sobre coisas que estavam acontecendo à minha volta. O próprio filme embaralha essa compreensão sobre quem é, de fato, o “invasor”. Acho bacana que carregue essa ambiguidade.

Em uma entrevista no ano de 2010 para o Estado de S. Paulo perguntaram o que você achava sobre os seus livros estarem disponíveis para download. A sua resposta foi: “Sonho com um país cheio de pirataria de livro (risos). Adoraria ver um meu na banquinha. O importante é a literatura andar”.  Quatro anos depois, Marçal Aquino continua com esta opinião? Atualmente, a literatura tem que andar independente do mercado editorial e do problema do (alto) preço?

Não vi, nesses quatro anos, qualquer mudança significativa no panorama que enxergava em 2010. Talvez as coisas tenham até piorado um pouco. Mas quem está a fim de ler, vai atrás e consegue ler, a despeito de todos os obstáculos.

Você é um grande leitor dos escritores desta geração, indique alguns que estão inovando a nossa Literatura.

Não sei se estão inovando, mas o fato é que gosto muito do trabalho de alguns escritores contemporâneos, como o Luiz Ruffato. Adoro poesia, acompanho com prazer a trajetória de gente como o Fabrício Corsaletti e a Ana Martins Marques. Sem esquecer que este é um momento de particular vitalidade das mulheres na literatura. Nesse sentido, indico a obra que a cearense Tércia Montenegro vem construindo livro a livro.

Entrevistadores: Jorge Filholini e Vinicius de Andrade

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3 comentários sobre “Marçal Aquino: “No juízo final, espero estar na fila dos escritores”

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