Em entrevista, o crítico literário Luiz Roncari fala de sua carreira acadêmica e política

Luiz Roncari durante a entrevista

Luiz Roncari durante a entrevista

O crítico literário Luiz Roncari ofereceu, na última quinta-feira (29), uma Aula Magna no Anfiteatro da Reitoria da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Realizada pelo Programa de Pós-graduação em Estudos de Literatura (PPGLit) da UFSCar, Roncari abordou o tema  “A pesquisa literária: experiência e dilemas”.

Professor Titular de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP), Luiz Roncari tem uma extensa carreira na vida acadêmica, muito delas se dedicando à Literatura Brasileira, atuando principalmente nas pesquisas das obras de Guimarães Rosa e Machado de Assis.

Roncari é autor de Literatura Brasileira: dos primeiros cronistas aos últimos românticos (Edusp, 2002); O Brasil de Rosa: o amor e o poder (Editora UNESP, 2004); O Cão do Sertão (Editora UNESP, 2007); e Buriti do Brasil e da Grécia: patriarcalismo e dionisismo no sertão de Guimarães Rosa (Editora 34, 2013).

Após a Aula Magna, Luiz Roncari concedeu uma entrevista para o Livre Opinião. Dividida em duas partes, nesta primeira entrevista Roncari comentou sobre sua carreira acadêmica, a militância no período da Ditadura Militar e o panorama político no Brasil. Confira a seguir a primeira parte da entrevista:

LOID: Você começou a carreira universitária em 1968, daquele tempo para cá quais foram as diferenças que o professor percebeu sobre a pesquisa universitária na Literatura?

LUIZ RONCARI: Entrei na vida universitária num período muito pulsante, em 1968, na USP, e quando a universidade estava mudando da Maria Antonio para a Cidade Universitária, então tinha cursos nos dois locais. Eram dois centros muito interessantes, na Maria Antonia você cruzava com pessoas como Florestan Fernandes, Antonio Candido, Sérgio Buarque de Hollanda, Caio Prado Jr., e até mesmo o Delfim Netto… Enfim, tinha de tudo (risos). Tive a possibilidade de assistir um curso do Sergio Buarque quando ele ainda estava trabalhando sobre a Monarquia. Era um tempo muito pulsante e o contato com os professores era não só na sala de aula mas também nos bares, restaurantes, na sala de espera dos cinemas – aliás, a sala de espera dos cinemas era um ponto fantástico de encontro. Além disso, existiam as livrarias, as livrarias do centro de São Paulo, lá você encontrava todos esses professores que citei. Nas livrarias você podia pedir referências, indicações de livros e os próprios livreiros ajudavam. Então, a vida não estava restrita à universidade.

A universidade transpirava na cidade e a cidade transpirava na universidade, era fantástico isso. Quem conheceu a cidade de São Paulo nos anos 60, o que era realmente o centro da cidade de São Paulo, havia um complexo formado pelo Theatro Municipal, Mappin, Viaduto do Chá, principalmente os prédios que existiam lá, mas derrubaram tudo. São Paulo você acaba sentindo um movimento da destruição da memória, sendo selvagem e voraz. E isso acaba com o processo de identificação, pois o passado que foi o meu não o vejo mais.

Até o final de 1968 a vida cultural era muito rica. Depois de 1969 e do AI-5, veio um movimento muito forte de destruição da cidade. O elemento civilizatório não conseguiu conter a voragem destrutiva do Capital. O Capitalismo tem um movimento de destruição. A destruição criativa, colocar abaixo. Mas tem um elemento civilizatório que contém a voracidade do Capitalismo, disciplina e organiza. Senão, pensar que o Capital é uma coisa construtiva está enganado, ele também é fortemente destrutivo.

Existia muito estímulo para se dedicar à leitura, à cultura e estudos e, principalmente, à pesquisa. Não fazíamos pesquisa só pela pesquisa, existia também interesse de mudança e transformação. Então, o trabalho de pesquisa estava associado a muitas outras atividades. Esta era a consciência que nós tínhamos: de sermos cidadãos. O que seria isso? O cidadão tinha a sua vida privada e sua vida pública. Para mim foi muito importante participar da formação do MDB [Movimento Democrático Brasileiro], depois da formação do PT [Partido dos Trabalhadores], participei também ativamente da imprensa alternativa, da luta contra a Ditadura – no período era importante a luta contra o governo militar. Então, não deixo de aqui prestar minhas homenagens a dois grandes batalhadores, que hoje estão presos, mas lutaram contra a Ditadura, arriscando as suas vidas: José Dirceu e José Genoino. E não foi só isso, eles lutaram também para constituir a democracia que vivemos, hoje, no país, essa mesma democracia que os mantêm presos hoje.

Voltando à pergunta. Saí de Campinas e caí no CRUSP [Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo], onde conviviam as mais diferentes correntes políticas, das moderadas às mais radicais. No entanto, morar no CRUSP foi muito importante para mim, porque ali tinha estudantes de todas as áreas, coisa que hoje a USP não tem mais. Infelizmente, a USP não tem mais um espaço de encontro, ninguém se encontra com ninguém. Cada professor vai até a USP dá sua aula e vai embora e o aluno também assiste a aula e vai embora. Não tem um centro onde as pessoas possam conviver, se encontrar e conversar, e isso para mim é importante no ambiente acadêmico. Coisas que vocês alunos de hoje devem cuidar de preservar. O que seria? Constituir um centro em que todas as áreas se encontrem e professores também possam conviver e estar juntos. A USP hoje é muito segmentada, com seus feudos. Nenhum reitor pensou nisso, em criar um centro de encontro, nenhum!

Então, a diferença fundamental é essa: a pesquisa e o interesse pelo trabalho intelectual não era uma coisa isolada e sim a atividades que nos colocavam em contatos os mais diversos. Você tinha todo o estímulo, porque se você ficasse para trás acabava não participando daquele grupo, daquela roda, daquela conversa. Tínhamos que ficar atualizados com a nossa leitura e também com o que acontecia ao nosso redor. Além disso, tinha o cinema, o teatro e a música que nos reunia.

A diferença grande é essa, hoje o trabalho isolou as pessoas, elas estão muito isoladas e isso em todos os planos. A principal diferença que eu vejo e a mais negativa é o isolamento. O trabalho sozinho, sem ter muito espaço para a troca de ideias, discussão, convivência, o sentir conjugado com o outro para qualquer coisa. Não tem que restringir sua vida apenas à vida familiar. Aquela coisa de se refugiar no apartamento, construir o seu mundo privado, porque já está no seu apartamento o cinema, o teatro, a música… Levamos tudo para lá [risos]. A dimensão pública da vida é que se perdeu muito atualmente. Reduzindo o indivíduo a um zumbi. Acho que isso é alguma conspiração da CIA, só pode ser! [risos].

Em um de seus textos do livro Um Cão do Sertão, está O Terror na Poesia de Drummond, em que você analisa o poema Elegia 1938. Você poderia comentar um pouco a função da poesia do Drummond nesta verdadeira Era de Emergência que vivemos. Depois do atentado das Torres Gêmeas, Guerras no Iraque e Afeganistão, e o conflito conflagrado no Oriente Médio, como a poesia do Drummond pode iluminar nosso período?

No tempo em que Drummond escreveu essa poesia, em 1938, era muito comum e difundida essa ideia de jogar uma bomba em Wall Street.  De certo modo já estava implícita no poema “O Inferno de Wall Street”, de Sousândrade, que identificava ali como o lugar da pulsão capitalista,  ideia que vinha Marx, da mercadoria como a criatura que iria dominar o seu criador, o movimento da coisas dominando os homens. Foram os homens que criaram um monstro chamado Capitalismo, que tem que se reproduzir, não pode ficar parado e tem que render.
Então, não era só Drummond que expressava esse desejo, Oswald de Andrade fala a mesma coisa numa crônica dele, só que no tempo não era censurado e não saía dessa esfera dos desejos. No meu ensaio, mostro como nas suas poesias subseqüentes Drummond procura superar esses seus impulsos explosivos. Também ainda não tinha acontecido a destruição das Torres Gêmeas. Depois disso, qualquer pensamento mau em relação a Wall Street, o capitalismo e coisa assim, passou a ser identificada como atitude terrorista.

Neste ponto sobre a censura, existia a autocensura com você na época da Ditadura?

Muito! A autocensura era muito forte, não me levava a não escrever, mas em buscar formas mais oblíquas de dizer as coisas. Eram metáforas, figuras de linguagem e alegorias. Isso marcou muito a música popular brasileira com Wally Salomão, Jorge Mautner, Chico Buarque, Caetano Veloso, todos procuraram formas mais indiretas e oblíquas de dizer o que pensavam com relação à situação que viviam e o que pensavam do regime militar.

No auge da Ditadura, ou você entrava na luta armada ou se exilava, sendo quase uma condenação à morte. Mas procurávamos sempre saídas, não ficávamos paralisados, dou como exemplo o caso  do Antonio Mendes Jr, o saudoso “Paxá”; ele estava preso junto com Caio Prado Jr., e os dois pensaram num modo de levar a pesquisa acadêmica e universitária para a sala de aula, com isso fizeram um projeto de livro didático de História, do qual fui um dos autores. Era um período em que nós tínhamos um posicionamento muito militante, de ganhar corações contra a Ditadura, de convencer de que aquele regime autoritário não era satisfatória e precisava mudar. Então, não era mais a luta armada e sim a luta política.

Eu era professor e tinha uma militância constante na sala de aula, mas sempre me policiando, medindo as palavras, pensando sempre no que iria dizer, porque poderia acabar em prisão. Fui preso quatro vezes, primeiro por morar no CRUSP, quando os militares invadiram, depois em 1972, logo em seguida em 1974, quando a “linha dura”e o aparelho da repressão queriam mostrar para o Geisel que a esquerda estava se rearticulando. Então, naquela época tínhamos que ter os devidos cuidados, mas nós insistíamos. Felizmente, buscávamos os mais diversos modos de lutar contra o regime militar.

Não era fácil, muitos desistiram, outros se renderam, mas ao mesmo tempo estimulava o espírito de luta, porque nós sentíamos que não estávamos sozinhos. Se fosse preso, as pessoas estavam olhando por você, pensando em você, te apoiando, denunciando a sua prisão. E isso que estimulava a força de coletivo, não nos sentíamos tão isolados. Então, procurava outras formas de dizer e não se render.

Tinha como se render, por exemplo, uma alternativa no tempo era a contracultura, uma atitude anti-intelectualista. Rolavam drogas, se você não usasse drogas você acabava sendo excluído de alguns meios, era uma coisa coletiva. Isso era chamado de desbunde, o termo que se utilizava era “tal fulano desbundou”, ou seja, ele desistiu da luta e foi fazer outras coisas. “Os idiotas da objetividade”, dizia Nelson Rodrigues, ele deu muito pano para a manga para isso. Mesmo o Caetano, com alimentava um certo espírito “Odara”, de não se ficar pensando muito em crítica política e tal.

No Brasil, a ideia de que a “política suja as mão” é muito forte, claro que a classe dominante quer que você se aliene e deixe o poder nas mãos dela. Ela quer te levar a pensar que a atividade política é degradante. Mas o homem moderno é o que se realiza também na política, ele tem a sua vida privada, mas também a pública, junto à coletividade, por isso ele é chamado de cidadão, reúne as duas dimanes˜oes. Esse é o Homem Moderno, pós-Revolução Francesa. O cidadão passa a ter uma dimensão privada e uma pública, a política. Nesse tempo [Ditadura Militar] existia uma cultura que levava para o desbunde, numa perspectiva mais hedonista. Então existiam essas duas formas: ou você vai para a luta armada e política ou vai para o desbunde.

Apesar das dificuldades, foram tempos em que encontrávamos muitas satisfações pelo companheirismo, solidariedade, não se sentindo isolado. Víamos que era possível mudar, por fim a Ditadura, constituir um partido político e a luta sindical.

Segunda parte da entrevista será publicada na terça-feira (3/6)

Entrevistadores: Julio Bastoni, Jorge Filholini e Vinicius de Andrade

 

  

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