Em entrevista, crítico literário Luiz Roncari fala da política atual e o futuro das universidades

Em destaque: Wilton José Marques e Luiz Roncari durante a entrevista

Em destaque: Wilton José Marques e Luiz Roncari durante a entrevista

O crítico literário Luiz Roncari ofereceu, na última quinta-feira (29/5), uma Aula Magna no Anfiteatro da Reitoria da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Realizada pelo Programa de Pós-graduação em Estudos de Literatura (PPGLit) da UFSCar, Roncari abordou o tema  “A pesquisa literária: experiência e dilemas”.

Luiz Roncari é Professor Titular de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP) e estudioso das obras de Machado de Assis e Guimarães Rosa.

Nesta segunda parte da entrevista para o Livre Opinião,  Luiz Roncari comenta sobre a política atual do Brasil, seus romances e trabalhos acadêmicos, a participação nos suplementos literários e o futuro das universidades. Confira a entrevista:

Para ler a primeira parte da entrevista clique aqui.

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Luiz Roncari

LOID: Você lutou ativamente contra o governo militar. Desde a abertura democrática até hoje, como está a política no Brasil?

LUIZ RONCARI: Como já havia falado, eu participei da formação do MDB [Movimento Democrático Brasileiro], participando da campanha do Ulysses Guimarães, logo depois participei do PMDB [Partido do Movimento Democrático Brasileiro]. Enfim, nós tínhamos um grupo, a maior parte de ex-presos políticos, que saíram muito escaldados e foram para a luta política. Nos reuníamos e participávamos de tudo, como a imprensa alternativa, também participei da formação do PT [Partido dos Trabalhadores].

Bom, sempre votei no PT, acreditei muito no Lula e acho ele um sujeito admirável. Por tudo, toda a vida dele, de um sujeito que não tinha nada e se tornou uma pessoa digna. O Lula foi para mim um abridor de caminhos. Quando o horizonte está negro e você não sabe por onde sair, é incrível como no Brasil ele construiu um caminho e para o país. Então, para mim o político é fundamentalmente isso: Diante da situação difícil ele encontra um caminho, bem ou mal ele abre um caminho. E o Lula abriu um caminho inédito no contexto mundial. Continuo votando no PT, tenho muita confiança nesse partido. Existem pessoas aproveitadoras e oportunistas, mas no geral eu confio nos políticos do PT. Votei na Dilma e vou votar novamente.

Estava comentando com o Wilton [José Marques] sobre a rede das universidades federais. O que é isso? A rede de universidades federais é efetivamente uma grande rede nacional de coesão, de reunião. Aqui na UFSCar pode entrar o aluno do Piauí, do Rio Grande do Sul e como um daqui da federal ir para outras universidades de outros estados. Tudo isso graças ao ENEM, SISU, programas federais. Além disso, existe o intercâmbio de professores que devia ser muito mais estimulado. Então, o futuro, caso tenhamos um, vai depender da construção dessa entidade que supere o local, o regional, o provinciano, tendo uma consciência de nação,do nacional. Eu digo nação não só no sentido territorial, mas social. Com a conquista do pobre e do aluno da escola pública que quer ir para uma boa universidade, constituindo suas próprias lideranças. O grande exemplo do Lula é que ele veio de baixo e nunca abandonou de fato a camada social de onde veio. Ele continuou mantendo a sua identidade e tenta levar para frente.

Em 1964, estava acontecendo algo parecido ao que vemos hoje. Era um período de emergência social, mas a direita atravessou e o golpe foi justamente com vista a isso, conter a emergência de novas lideranças políticas, principalmente da esquerda e das camadas populares. Hoje, novamente, a direita está atrás de um novo Collor, encontraram o Joaquim Barbosa e depois viram que poderiam perder o controle ou ele não topou, mas parece que ainda estão apostando nele. Criando uma imagem dele de homem duro e justiceiro e ele espertamente está deixando. Então, mais do que nunca depende do trabalho de vocês jovens para evitar um novo golpe, hoje talvez mais civil do que militar, e fazer com que o que foi conseguido até agora siga em frente e não regrida.

Você pode comentar sobre a sua tese que virou livro, Rum Para Rondônia. Como foi o processo de construção do livro?

Na verdade, durante um tempo eu quis ser escritor. Escrevi um primeiro livrinho de contos chamado Os Olhos de Sebastião Valadares, são contos eróticos. Os anos de 70 não deixavam muito espaço para outra coisa além de pensar em droga e sexo, era a cultura do tempo, um período que tudo chamava para o sexo, erotismo e sexualidade. No Brasil a promiscuidade sempre foi do homem rico com a mulher pobre, sempre se utilizaram da mulher pobre, como da escrava negra e índia, como suas amantes.

Nos anos de 1970, a moça da Casa Grande saiu para a rua e foi um movimento quase que de compensação histórica, ou seja, o negócio era transar com as burguesas, porque a mulher burguesa era considerada mais gostosa, melhor vestida, tratada e bonita. O período foi muito festivo, devido a Ditadura não tínhamos muita saída a não ser fazermos festas. Todo final de semana aconteciam festas na casa de um ou de outro, na minha também. Eram festas de arromba [risos]. Eu morava na Vila Madalena, numa casinha que tinha um fundo grande com jabuticabeira, então fazia umas festas lá.

Os anos de 1970 foi um período em que as classes se misturaram, sendo o local de encontra as festas. Enfim, foi um período de experiência no campo da afetividade e do erotismo. No entanto, escrevi um outro livro chamado Assim Não Brinco Mais. Eu tinha tantas namoradas que só queriam sexo e não queriam casar [risos]. Então ficava com uma moça, fazia sexo e quando eu estava começando a gostar, elas já fugiam e eu tinha que procurar outra [risos]. Até a minha mãe estranhava, eu levava uma namorada em casa e minha mãe começava a se apegar também,  iniciava a tricotar uma blusa para ela, só que de repente eu já chegava com outra [risos]. Era todo o tempo isso, um troca a troca, então escrevi o livro Assim Não brinco Mais. Era uma época que havia somente o corpo, e eu queria também um pouco de alma.

Senti que era um tempo difícil e resolvi escrever algo sobre ele, então decidi fazer um projeto mais longo, escrever um romance. Eu tinha acabado o mestrado,  não sabia se continuava na vida acadêmica. Havia várias possibilidade e em vários campos, daí eu resolvi juntar os dois, escrever e continuar estudando Literatura. Eu havia terminado o meu trabalho sobre Machado de Assis, e convidado para fazer o doutoramento na Literatura Brasileira, decidi tentar um projeto: escrever um romance e apresentar como tese. Foi mais ou menos assim, foi aprovado o projeto e o toquei para frente, escrevi o romance Rum Para Rondônia.  Apresentei-o como doutoramento… A banca pelo menos se divertiu.

Depois disso tudo eu mandei o livro para um concurso de romances da Secretaria de Cultura do Estado e ganhei em primeiro lugar. O prêmio era a publicação e mais vinte mil dólares, não era pouco não. Comprei um carro novo, pois o meu estava caindo pelas tabelas, peguei minha esposa e fomos para Cuba… Gastamos o resto do dinheiro lá, essa foi a nossa contribuição para a Revolução Cubana [risos].

Então o romance era a própria tese?

Sim, era a própria tese! Mas tinha um ensaio sobre a experiência de escrever um romance. Esse ensaio eu nunca publiquei. Ficou parado. Mas de novo o dilema: viver do que e fazer o quê? Eu senti que para ser escritor iria viver muita pressão, você tem que publicar a cada dois anos, depender do beneplácito de editor e de editora, então eu decidi: “Não quero ser escritor”. Prestei concurso na USP, decidi seguir a vida acadêmica, porque lá posso estudar, tenho autonomia, posso decidir, não preciso pensar em mercadoria e vendas. A pior relação que existe é com o editor, se você entrar com um original na editora e apresentar para publicar ficará parecendo que você está indo lá pedir esmola! E isso não sei fazer isso. O editor olha para você com um olhar de “Ih, lá vem mais um” [risos].

Professor, o nosso site é cultural e vimos que os suplementos culturais estão entrando em extinção, você era um leitor ativo dos suplementos e participou de alguns? Atualmente, como está sendo difundida a literatura e qual é o papel do crítico literário?

Essa é uma coisa espinhosa e difícil. Mas eu aprendi muito e me formei lendo suplementos, por exemplo, o Suplemento Literário do Estado, assim como a Revista Civilização Brasileira. Nela tinha política, cinema, literatura… Tudo!

Escrevi muito no Leia Livros, da Brasiliense, também escrevi no Folhetim e escrevo ainda hoje, eventualmente, no Caderno Eu, do Valor Econômico. De vez em quando me pedem e acabo escrevendo para eles.

O campo dos suplementos está tendo uma perda muito grande, pois os suplementos ajudavam a difundir a cultura. Eu estou um pouco fora do mundo da internet, vou esperar me aposentar de fato e tentarei entrar nesse mundo, mas acho que existem coisas boas por lá. Tenho um pouco de medo de entrar na internet, mas no futuro tenho que entrar e participar disso, assim como produzir dentro dele.

E o seu papel de crítico literário atualmente?

Então, depois que entrei na universidade comecei com Machado de Assis, depois Guimarães Rosa e acabei me fechando um pouco, dei mais importância para o passado e não olhei muito o presente. Infelizmente não acompanho muito a produção atual.

Aliás, recomendo dois livros que eu acho muito importantes. O primeiro é Verdade Tropical, do Caetano Veloso, que eu fiquei curioso para ler depois de um ensaio escrito pelo Roberto Schwarz. Li o Verdade Tropical e realmente achei impressionante a consciência de Caetano que acompanhou e participou desse tempo dos anos 60 e 70, do qual falei, com toda clareza e brilho. O outro livro é o do Rodrigo Naves, meio ficção, meio ensaio meio relato de experiências, chamado A Calma dos Dias. Esse é um livro muito importante, incrivelmente bem escrito.

Então, estou meio que me aposentando e comecei a olhar mais para a produção atual. A vida da gente é assim, às vezes pensa que está escolhendo e na verdade está sendo escolhido. Ás vezes dá sorte outras vezes dá errado. Mas é a vida. Minha vida foi que nem a do Riobaldo: em ziguezague, não era ele o Cerzidor, eu me encontrei me perdendo [risos]. Não foi em linha reta.

Entrevistadores: Julio Bastoni, Jorge Filholini e Vinicius de Andrade

 

2 comentários sobre “Em entrevista, crítico literário Luiz Roncari fala da política atual e o futuro das universidades

  1. Prof. Roncari, como sempre, contando suas boas histórias! Tive o privilégio de ter sido uma dos muitos alunos de Literatura Brasileira que passaram pela USP. Parabéns pela entrevista!

  2. Pingback: Em entrevista, crítico literário Luiz Roncari fala da política atual e o futuro das universidades | Áfricas - orgulho de ser!

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