25 anos sem Paulo Leminski

leminski - saraucizada

Neste dia 7 de junho completam-se 25 anos da morte do poeta Paulo Leminski. O bandido marginal da língua portuguesa, Paulo Leminski foi artista múltiplo que desceu até o fundo da gramática para construir a poética sensível e com toda erudição. O homem com uma dor que teve sua importância na cultura nacional.

Leminski mergulhou profundamente em diversos segmentos da cultura, como a literatura, educação, crítica literária, tradução, música, além de ser faixa-preta de judô. Dono de uma linguagem concisa, mas de inúmeras interpretações, Leminski inovou a poesia no final da década de 1970.

O Livre Opinião selecionou dez poemas do mestre bigodudo para não deixar passar estes 25 anos de um dos melhores poetas da Literatura Brasileira. Nada melhor que homenagear Leminski com sua obra. Ler Leminiski está na certeza de “que aconteça o contrário/custe o que custar”. É para te confundir e ao mesmo tempo entender que toda a poesia do bigodudo incomoda e o significado… Bom, o significado é múltiplo. Ler Paulo Leminski é “o pau na vida/o vinagre/vinho suave”, faz do sujeito a agonizante sensação de ser puxado para o copo de vodka, afogando-se no puro teor alcoólico para soltar soluços tortos. Ler Leminski é saber que “Escrevo. E pronto”. Confira a nossa seleção de escritos do mestre Leminski:

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vão é tudo
que não for prazer
repartido prazer

vãs
todas as coisas que vão

………………………………….

NOMES A MENOS

Nome mais nome igual a nome,
uns nomes menos, uns nomes mais.
Menos é mais ou menos,
nem todos os nomes são iguais.

Uma coisa é a coisa, par ou ímpar,
outra coisa é o nome, par e par,
retrato da coisa quando límpida,
coisa que as coisas deixam ao passar.

Nome de bicho, nome de mês, nome de estrela,
nome dos meus amores, nomes animais,
a soma de todos os nomes,
nunca vai dar uma coisa, nunca mais.

Cidades passam. Só os nomes vão ficar.
Que coisa dói dentro do nome
que não tem nome que conte
nem coisa pra se contar?

………………………………………….

FÉRETRO PARA UMA GAVETA

esta a gaveta do vício
rimbaud tinha uma
muitas hendrix
mallarmé nenhuma

esta a gaveta
de um armário impossível

…………………………………

O QUE QUER DIZER

para Haroldo de Campos
translator maximus

O que quer dizer, diz.
Não fica fazendo
o que, um dia, eu sempre fiz
Não fica só querendo, querendo,
coisa que eu nunca quis.
o que quer dizer, diz.
Só se dizendo num outro
o que, um dia, se disse,
um dia, vai ser feliz.

……………………………………..

PROEMA
      Não há verso,
tudo é prosa,
      passos de luz
num espelho,
      verso, ilusão
de ótica,
      verde,
o sinal vermelho.
      Coisa
feita de brisa,
      de mágoa
e de calmaria,
      dentro
de um tal poema,
      qual poesia
pousaria?
…………………………
ARTE DO CHÁ
ainda ontem
convidei um amigo
para ficar em silêncio
comigo

ele veio
meio a esmo
praticamente não disse nada
e ficou por isso mesmo.

…………………………………………..
INVESTÍGIO
olfato ou fato
um cheiro falso
a brisa traz

um brilho antigo
brinca comigo
de anos atrás

1988 (na passagem da constelação alice)

………………………………………………………..
RIMO E RIMOS
Passarinho parnasiano,
nunca rimo tanto como faz.
Rimo logo ando com quando,
mirando menos com mais.
Rimo, rimo, miras, rimos,
como se todos rimássemos,
como se todos nós rissemos
se amar fosse fácil.

Perguntarem por que rimo tanto,
responder que rima é coisa rara.
O raro, rarefeitamente, para,
como para, sem raiva, qualquer canto.
Rimar é parar, parar para ver e escutar
remexer lá no fundo do búzio
aquele murmúrio inconcluso,
Pompeia, ideia, Vesúvio,
o mar que só fala do mar.

Vida, coisa, pra ser dita,
como é dita este fado que me mata.
Mal o digo e já meu dito se conflita
com toda a cisma que, maldita, me maltrata.

……………………………………………………………
A LUA FOI NO CINEMA
A lua foi ao cinema,
passava um filme engraçado,
a história de uma estrela
que não tinha namorado.Não tinha porque era apenas
uma estrela bem pequena,
dessas que, quando apagam,
ninguém vai dizer, que pena!Era uma estrela sozinha,
ninguém olhava para ela,
e toda a luz que ela tinha
cabia numa janela.A lua ficou tão triste
com aquela história de amor,
que até hoje a lua insiste:
– Amanheça, por favor!
……………………………………………..
Você para
a fim de ver
o que te espera
só uma nuvem
te espera
das estrelas
…………………………………………….
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Confira também o documentário Paulo Leminski – Um Coração de Poeta sobre a vida do escritor.

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2 comentários sobre “25 anos sem Paulo Leminski

  1. Pingback: 25 anos sem Paulo Leminski | Áfricas - orgulho de ser!

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