O impressionismo é um humanismo

sartre-novo

“Então, é isso que é o inferno! Nunca imaginei… Não se lembram? O enxofre, a fogueira, a grelha… Que brincadeira! Nada de grelha “O inferno… O inferno são os outros!”, diria Garcin em seus momentos de ardência e tédio, do lugar onde se encontra e não se sabe bem – ele tampouco o sabe com toda certeza – onde é. [Dependendo do ponto de vista, o inferno somos cada um de nós…]

Para além de nossas divagações a respeito de onde viemos e para onde vamos depois disto que acreditamos ser a vida (mas não entendemos, talvez nunca entenderemos, a plenitude de sua significação), a peça No Exit, Entre Quatro Paredes, de Jean-Paul Sartre, dirigida por Caco Ciocler e encenada por Chris Couto, Daniel Infantini, Sabrina Greve e Ando Camargo versa sobre o peso da existência e sobre o peso da responsabilidade pelo processo da existência, a partir da reflexão existencialista sobre a liberdade humana. Confira também o artigo Araraquara Existencialista

Segundo o existencialismo ateu de Sartre, não existe natureza humana, porque não há um ser anterior que pôde formulá-la. Para ele, citando Heidegger, a única existência possível de preceder à essência é a realidade humana, pois “o homem existe primeiro, se encontra, surge no mundo, e se define em seguida” (SARTRE, 2013 [1946]:19). Se não há natureza humana não somos nada até que existamos, até que sejamos o que fazemos de nós. Até que nos confrontemos com nossa realidade humana e nos concebamos por meio dela. Aquilo que projetamos ou queremos não é o que somos; somente somos aquilo que de fato fazemos, realizamos. “O homem não é nada além daquilo que faz.” (SARTRE, 2013 [1946]:21) É neste sentido que tento entender minhas impressões de No Exit, Entre Quatro Paredes.

"NO EXIT - ENTRE QUATRO PAREDES

“NO EXIT – ENTRE QUATRO PAREDES

Em entrevista ao LOID, o diretor Caco Ciocler afirma que optou por não adaptar o texto sartreano, presenteando-nos, assim, com cada tensa e seca linha do original. Somada à intensidade do texto, a escassez de adornos e elementos cênicos no palco nos inquieta deixando espaço para que toda a ação dramática se concentre nos quatro atores. Para que o palco seja preenchido pelo peso e espaço das existências representadas. Para que o espaço representado seja minúsculo para abrigar tamanhas angústias, o sofrimento advindo da reflexão tardia, o tempo infinito combinado às possibilidades infinitas de “ranger de dentes” e ardências no inferno íntimo sem portas de saída. Desde o momento em que entramos na sala do teatro, já sentimos a construção do clima tenso, que perpassará todo o espetáculo, quando percebemos a observação e recepção de um dos atores já encenando seu papel de criado (Ando Camargo).

No palco, começa a formar-se um ambiente ambíguo e indefinível no qual chegam 3 personagens chamados, pelo criado, de clientes. Joseph Garcin, “jornalista e homem de letras”, Inês Serrano, “senhorita” e Estelle Rigault ex “orfã e pobre” se embatem, se comprazem, se debatem em agruras, lembranças e acusações mútuas. Não há luxo, não há excessos. Quase não há movimento. Só há existências. “Será o inferno?”, eu pensava enquanto assistia:

(Criado) – Aí está a dignidade humana que volta. É formidável. […] Está bem, desculpe. Mas, o que quer? Todos os fregueses fazem a mesma pergunta. Mal chegam e querem saber: “Onde estão as estacas”? Garanto que nesse instante nem estão pensando em fazer sua toilette. Depois, ficam mais calmos, e aí vem a escova de dentes. Mas, pelo amor de Deus, pense um pouco. Afinal de contas, permita que eu lhe pergunte: por que escovar os dentes?” (SARTRE, 1944:2)

(Inês) – Entre assassinos. Estamos no inferno, minha filha, e aqui não pode haver erros, e não se condena ninguém à toa. (SARTRE, 1944:9)

“Mas… como será possível o inferno – representação cristã do castigo eterno resultado de vidas pouco regradas nas leis religiosas – ser o espaço privilegiado de uma obra teatral de um existencialista ateu?” Tampouco poderia ser o céu uma alternativa ao inferno. Seria uma metáfora? Uma alegoria? (“O inferno são os outros…!”)

De uma coisa sabíamos: todos estavam mortos. A princípio, estão relutantes em aceitar e afirmar sua condição e depois passam a compartilhar detalhes de suas vidas e de como morreram. Todos os três têm angústias, têm ânsias de julgar os outros e sentir-se ora superiores, ora inferiores. Não têm coragem de explicitar os motivos pelos quais haviam sido enviados a tal lugar. Confinados para sempre num quarto do qual não podem sair nem por um minuto, entendem que um será o carrasco dos outros dois; um será o inferno do outro. Alegorias.

Percebem que foram colocados juntos porque em vida fizeram mal a alguém: Estelle apaixonou-se por um homem e decide, por isso, trair seu marido, um homem mais velho que a salvou da pobreza. Após cinco meses vivendo com o amante, decide deixá-lo e voltar para o marido provocando o suicídio do amante. Inês se apaixona pela mulher de seu primo e foge com ela para o outro lado da cidade; seu primo as persegue e acaba sofrendo um acidente no caminho que lhe tira a vida. Garcin confessa que torturou psicologicamente sua esposa levando mulheres para casa, bebendo em excesso e provocando-lhe o maior número de desgostos possíveis, por cinco anos. Em nenhum deles há arrependimento pelo passado:

(Inês) – Condenada, a santinha. Condenado, o herói sem mácula. Tivemos nossos momentos de prazer, não é verdade? Houve pessoas que sofreram por nós até à morte, e isso nos divertia bastante. Agora temos de pagar. […] Não existe tortura física, não é mesmo? E, no entanto, estamos no inferno. E ninguém mais chegará. Ninguém. Temos de ficar juntos, sozinhos, até o fim. Não é isso?” (SARTRE, 1946: 9).

sartreO pensamento existencialista no texto dramático de Sartre se conforma pela voz de Inês Serrano cujas atitudes de forçar Garcin e Estelle a pensar sobre suas vidas se completa com as próprias análises que faz de todos os fatos: “Esse é que é o caso. Será que as razões eram de fato razões? […] Mas o medo, o ódio, todas essas sujeiras que a gente esconde, também são razões. Vamos! Procure! Pergunte a si mesmo!” (SARTRE, 1946: 19). Se existem razões e elas servem como justificativa ou diminuição de pena, cabe ao ser humano decidir. Responsáveis por nossos atos, somos, também, responsáveis por aquilo que tais atos implicam, seja a tristeza ou alegria alheias, seja a consecução de leis ou a invenção delas. Não há julgamentos nem punições cósmicas, post-mortem. Haverá, sim, consequências naturais para cada ato humano realizado.

O homem sartreano é “condenado a ser livre” porque se não há Deus, não há regras, proibições, não há determinismos nem desculpas para qualquer comportamento. Somente somos aquilo que fazemos. “O homem é liberdade” (p. 24); chega ao mundo sem decidir por isso e, sem Deus, está desamparado, portanto completamente responsável por suas escolhas e atos. Desse modo, nossos personagens não podem ser julgados pelo que fizeram em vida pelas lentes da moral, mas podem divagar sobre sua essência, podem reconhecer que fizeram algumas más escolhas… já que “se deu o traço debaixo das parcelas, resta fazer a soma”, e não há mais possibilidades de realizar-se como existência:

Garcin – Não sonhei com esse heroísmo. Escolhi-o. A gente é o que a gente quer ser.
Inês – Prove, então. Prove que não era um sonho. Só os atos decidem sobre o que a gente quis.
G – Morri cedo demais. Não me deram tempo para praticar os meus atos.
I – Morre-se sempre cedo demais… ou tarde demais. No entanto, a vida aí está, liquidada. Já se deu o traço debaixo das parcelas, resta fazer a soma. Você nada mais é do que sua vida.

Inês-Sartre afirma: “Só os atos decidem sobre o que a gente quis”, o que equivale dizer que só o desejo ou o querer – projeções nossas – não nos definem porque não são realizações, são apenas ideias. Potencialidades.

Você já deve ter cansado de sentir na própria pele e ler neste texto que é completamente responsável por tudo que faz justamente porque é livre para escolher e executar – já que “você não é nada mais do que sua vida” – que quase se esqueceu do motivo pelo qual o inferno são os outros. Mas isso é Freud quem explica.

Referências

SARTRE, Jean-Paul. O existencialismo é um humanismo.
___. No Exit. Entre quatro paredes. (Huis Clos).
___. O Existencialismo é um humanismo. Petrópolis: Ed. Vozes de Bolso, 2013.
___. No Exit. Entre Quatro Paredes (Huis Clos). Trad. Guilherme de Almeida. Disponível no endereço eletrônico: http://www.planonacionaldeleitura.gov.pt/clubedeleituras/upload/e_livros/clle000073.pdf

amanda

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Um comentário sobre “O impressionismo é um humanismo

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