João Gilberto Noll: “Nunca tive a intenção de desestruturar a narrativa do romance tradicional”

João Gilberto Noll. Foto: Vilamundo.org.br

João Gilberto Noll. Foto: Vilamundo.org.br

“[…] tudo aquilo que eu faço é como se estivesse representando, entende?, se pego uma pedra aqui e a levo até lá me dá um negócio por dentro, como se fosse trilhões de vezes mais pesado carregar esta mentira de carregar a pedra do que a própria pedra, não sei se você me entende, mas o caso é grave, acredite. Peguemos qualquer outra situação, não fiquemos só na pedra. Eu e você aqui sabe?, tudo isto que estou a te falar, não acredite em nada, é uma repelente mentira, eu não sou de confiança, não, não acredite em mim” (Harmada, p.24).

Autor de O Cego e a Dançarina (1980), A Fúria do Corpo (1981), Harmada (1993), Mínimos Múltiplos Comuns (2003) e Solidão Continental (2012), o porto-alegrense João Gilberto Noll construiu uma obra singular e uma carreira literária memorável. Seu currículo é múltiplo e notável: formado em Letras, já foi revisor, jornalista, lecionou na Universidade de Berkley, nos Estados Unidos e no King’s College, em Londres, teve o conto “Alguma coisa urgentemente” adaptado para o cinema (sob o título de Nunca fomos tão felizes) e venceu nada menos que quatro vezes o Prêmio Jabuti.

Com 68 anos e quase 35 de carreira, Noll tornou-se um dos maiores nomes do romance contemporâneo brasileiro. Com incursões ao mundo da literatura infanto-juvenil, teatro, contos e romances, o autor construiu uma prosa original e intensa que leva seus protagonistas ao conflito constante entre o real e o ideal, deixando de lado a ação, à flor da pele: a catarse pela linguagem.

Sucinto, direto e mordaz, ele concedeu uma entrevista ao Livre Opinião – Ideias em Debate e falou sobre sua obra, seu envolvimento com elas e seu processo criativo. Leia:

Livre Opinião – Ideias em Debate: Suas obras são destacadas pela utilização de uma linguagem que desestrutura a narrativa do romance tradicional, por produzir um embate entre o que é ou não realidade para os personagens. Assim, com estes conflitos constantes, como é que se dá o processo criativo de suas obras?

João Gilberto Noll: Nunca tive a intenção de desestruturar a narrativa do romance tradicional. É uma questão, eu diria, de fundo neurológico: não sei contar sem esse simultaneísmo entre o que é a chamada realidade do personagem e suas várias possibilidades ideais. Acho que acontece assim com um certo tipo de artista, que faz de uma sua inadequação o seu estilo, a sua estética.

Você foi um dos primeiros autores nacionais que levaram a crítica a reconhecer, ou a fazer emergir com força, a mudança da forma e essência do romance contemporâneo: um gênero híbrido e heterogêneo. Talvez excetuando Berkeley em Bellagio, seus protagonistas têm identidades vagas e carecem tanto de um passado como um “destino” bem delineados. Neste sentido, sua literatura, desde O cego e a Dançarina até Solidão Continental, tem construído um passado e uma identidade ou é também uma protagonista de um caminho errante?

Acho que são seres errantes a caminho da construção de um passado, já que, no seu imaginário, com o futuro eles não podem contar. Para discernir essa errância, de fato, os narradores de primeira pessoa vão elaborando uma linguagem entre a poesia e a prosa, entre o contar e o cultivo lírico.

A sexualidade, no que concerne à sua diversidade aos tabus, é um tema recorrente em suas obras. A inserção desta temática é intencional? Você utilizou a literatura para criar debates em torno dos tabus que cercam a sexualidade, engajando-a, de certa maneira?

Nada do que escrevo é muito deliberado. Vou para essa atividade em estado de vazio, sem saber no que vai dar. Dessa forma, na literatura não me engajo em qualquer âmbito de sexualidade. Se ela está presente, e está, é resultado de pura compulsão.

Em Harmada (1993), o enredo acompanha um protagonista sempre em trânsito, uma transitoriedade do espaço, das relações interpessoais e de identidade. Esse vagar, por assim dizer, foi um método utilizado na narrativa como forma de análise da sociedade contemporânea cada vez mais instável?

Essa pergunta pegou no nervo da questão. Só que existe aí uma homologia entre a estrutura do livro e seu conteúdo. Não sou um cronista. Não pego uma família para retratá-la em seus meandros domésticos. Pego desfamiliarizados em constante curso, em trânsito perpétuo, justamente para dar uma ideia da instabilidade do nosso contemporâneo.

Retomando, mais uma vez, Berkeley em Bellagio, nesta narrativa em que os protagonistas são escritores brasileiros, em sua estadia no exterior, parece haver uma possível identificação entre personagem-narrador e o autor empírico, como se o que é narrado fora realmente vivido. Sustentam esta tese, por exemplo, Diana Klinger em seu Escritas de si, escritas do outro: o retorno do autor e a virada etnográfica. Mas o que o Noll autor tem a dizer sobre esse peregrinar entre as fronteiras da ficção e da biografia?

Em princípio eu diria que o que faço não é autobiográfico. Costumo dizer que se eu fosse viver com a intensidade com que os meus protagonistas vivem, eu hoje não estaria vivo para dar essa entrevista. E é preciso dizer que para mim todos os meus protagonista guardam coisas em comum, são quase o mesmo. Este “mesmo” não se trata simplesmente do empírico, mas sim de um personagem que habita em mim e que desperta a cada vez que sento diante da tela do meu computador. Tenho um profundo afeto por ele.

No Rio Grande do Sul, você tem acompanhado a nova geração de escritores? Você acredita que eles foram influenciados por sua literatura?

Tenho acompanhado, sim. Está se formando uma fina literatura com gente nova que vivencia ou vivenciou o estado. Cito Daniel Galera, Michel Laub, Daniel Pelizzari, Paulo Scott. Mas quem pode dizer se sofreram influência da minha literatura são eles próprios.

Há uma seção em seu site oficial  com teses e resenhas relacionadas à sua. Você acompanha este tipo de produção que trabalha, no âmbito universitário, com as obras escritas por você?

Eu quase não o consulto. Foi presente de um amigo. A quem agradeço de coração. Procuro mantê-lo atualizado.

Há algum projeto novo sendo gestado ou que pode chegar a seus leitores em breve?

Não, estou num intervalo.

Entrevista: Vinicius de Andrade.

 

 

4 comentários sobre “João Gilberto Noll: “Nunca tive a intenção de desestruturar a narrativa do romance tradicional”

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