Jorge Mautner: “O mundo não bebe água, não come e não respira sem o Brasil, é o povo brasileiro que vai além da multidiversidade”

 

Jorge Mautner (Foto: Fulgore)

Jorge Mautner (Foto: Fulgore)

“E um messias há de surgir! E longe, longe num lugar em que havia sol e pó um homem se arrastava e pisava com seus pés cheios de calos no chão  ardente tal qual um coração. Era alguém, podia ser o messias, podia ser o mesmo Jesus, o antigo, o novo, os dois? E enquanto isto Jettus não sabia para onde andava mas algo indefinido o arrastava para a frente, o eterno: para a frente! Assim ele não pensava” (Kaos,1963,  p. 12).

Jorge Mautner esteve em São Carlos na última Virada Cultural para realizar um show em parceria com o cantor Lucas Santtana, consolidando um encontro de gerações da música brasileira.

A praça do mercado, local onde foi realizado o show, ficou lotada para receber os dois cantores, cujo repertório do show reúne sucessos que consagraram Jorge  Mautner, além de uma visita aos discos de Lucas Santtana. “Andar com Fé”, “Maracatu Atômico”, “O Homem Bomba”, “Amor em Jacumã”, “Cira Regina e Nana”, “O Deus que devasta mas também cura” e “Dia de furar onda no mar”, são algumas das músicas do repertório da apresentação.

Minutos antes do show, Jorge Mautner concedeu uma coletiva de imprensa, em que o Livre Opinião esteve presente, e bem à vontade conversou sobre sua carreira nos múltiplos segmentos culturais, assim como a sua luta contra o regime militar (1964-1985). Outro aspecto salientado pelo artista foi em relação á música atual e sua participação no movimento Tropicalista. Confira a entrevista:

É  verdade que você chegou a gravar um disco aqui em São Carlos?

A gente preparou o disco… e eu conheço muito gente de São Carlos, vim há muito tempo aqui, sou muito antigo, e São Carlos sempre foi um lugar maravilhoso. Eu morei um tempo aqui também, um mês. São Carlos é um lugar que irradia cultura o tempo todo, por isso sempre fui recebido muito bem aqui. Eu e o Nelson Jacobina já tocamos aqui várias vezes.

E como é que foi esse momento de gravar aqui na cidade?

Eu não me lembro bem, porque foi muito lá atrás. Mas nós gravamos aqui e foi um show ao vivo que fizemos.

Pensando na música, hoje na sua avaliação, ela migrou para o puro entretenimento ou ainda pode ser considerada arte?

Ah, ela é tanto uma coisa como outro e mais ainda: é tudo junto.  É a liberdade, os direitos humanos e é tudo simultâneo hoje em dia, quase ao mesmo tempo e espaço, espaço-tempo. Então, hoje você tem todos os tipos de manifestação, tem tudo! E essa que é a liberdade criativa. Temos o tempo todo o RAP, o Funk e a Literatura. Tudo junto: É literatura, poesia viva e que se juntou com a emoção e com essa internet magnífica que irradia os direitos humanos e a cultura brasileira. Eu sempre falo: o mundo não bebe água, não come e não respira sem o Brasil. Mas, mais importante ainda, é o povo brasileiro que vai além da multidiversidade, além do multicultural… O povo brasileiro é a amálgama. José Bonifácio de Andrade e Silva em 1823 disse: “Diferentes outros povos e culturas, nós somos a amálgama”. Essa amálgama tão difícil de ser feita.

Repito: O mundo não bebe água, não come e não respira sem o Brasil. Mas mais importante ainda é essa imensa tolerância do povo brasileiro. Só para dar um exemplo, aqui todo mundo está abraçado, chineses, japoneses, que têm tradição, todos viraram brasileiros. Outro exemplo é a umbanda no bairro da Liberdade. Os japoneses chegaram na Liberdade em 1960 e aí a umbanda de lá criou o Orixá Samurai para acolher aqueles imigrantes. Então é isso, aqui ou o mundo inteiro se brasilifica, ou se tornará nazista. É por isso que o século XXI é do Brasil. Lavoura, gado, minério e nióbio. Temos tudo isso aqui e satélite nenhum funciona sem nióbio. E o mais importante: o povo brasileiro, com sua criatividade.

Jorge Mautner durante o show (Fotos: Fulgore)

Jorge Mautner durante o show (Foto: Fulgore)

Você é um artista que lutou contra o Regime Militar, como foi a censura com você no período?

Eu comecei muito cedo, lá por meados dos anos 1950, a escrever Deus da Chuva e da Morte e logo depois Kaos. Em 1962, foi publicado o Deus da Chuva e da Morte – e ganhou o Prêmio Jabuti. Eu sabia do golpe, por conta do professor Mário Shenberg, um ano e meio antes do golpe chegar às vias de fato. Porque foi apenas 5% do exército que chegaram a quebrar a hierarquia e os outros 95% acompanhou. Porque tinha a Revolução Cubana entusiasmando a todos e me lembro do telefonema do Mário Shenberg dizendo ao Darcy Ribeiro assim: “Olha, vocês têm que prender os cabos e sargentos rebelados e, mais importante, libertar os oficiais que estão de joelhos”. Para demolir a linha dura chamaram o Caetano e o Gil que estavam no exílio – eles já estavam exilados desde 1965 – e em 1972 viemos e foi pela música popular, pelo teatro e inclusive pelas religiões também. O rabino Sobel (Henry Sobel) , quando foi assassinado o Vladimir Herzog, uniu judeus e católicos e nós, todos juntos, conseguimos a demolição do regime desse modo pacífico incrível.

E para você existiu a autocensura na sua produção?

Não teve autocensura. A censura funcionava assim, por exemplo, quando eu cheguei com o Caetano e Gil em 1972, como havia o MDB e a ARENA sendo um laboratório já para o futuro, em todos os lugares de shows estudantis era um foco total. Então os shows duravam 3 ou 4 horas para que as pessoas pudessem conversar, uma reunião total o tempo todo. Mas o último ato foi me contado pelo Jorge da Cunha Lima, já no processo de democratização, quando ele foi secretário da Cultura do governador Franco Montoro (São Paulo). Ele me contou que havia as Monjas Ursulinas e era um convento com quarteirão inteiro entre a Avenida Paulista e a Pamplona.

É o seguinte, as Monjas se retiram da vida e nunca mais falam com ninguém. O pai de uma delas pode ir visitá-las uma vez na vida apenas, então o DOPS não entrava lá nem nada, porque era uma catedral – e de mulheres. Mas elas quebraram o voto para receber os revolucionários e os ajudaram.

Jorge Mautner (Foto: Fulgore)

Jorge Mautner (Foto: Fulgore)

Agora falando um pouco da literatura, para você, é mais difícil escrever uma música, uma poesia ou prosa?

É a mesma coisa. Eu comecei a escrever o Deus da Chuva e da Morte e logo também as musicas porque eu queria transformar o mundo. Então é tudo junto, não tem separação. Hoje em dia, vocês sabem, as pessoas já nascem com os neurônios saltitantes [risos]. Os neurônios saltitantes eu digo por que eles são pura emoção, mais que o romantismo, mais que o surrealismo, até mesmo a matemática está cheia de emoção e isso é tudo ciência, arte, emoção.

A exemplo do seu encontro musical aqui hoje com o Lucas Santtana, encontro de gerações, o que liga então essa geração de hoje às outras gerações?

Eu acho que primeiro é o amor, a cultura e nós todos dependemos disso, porque vem tudo desde lá atrás, da pré-história e vem vindo. Nós estamos montados em ombros de gigante o tempo todo, porém hoje com uma velocidade de um raio laser, como a luz. Isso tudo, que pareciam até critérios restritos apenas para cientistas. Einstein, Schrödinger, Heisenberg disseram – e isso lá em 1920 – que não poderiam ter chegado ao quântico e ao relativismo, por exemplo, se não fossem as conversas que eles tiveram todas as noites com os artistas. Foram os artistas que nortearam tudo. Então a relação da ciência com a arte e a vida é inseparável.

O tropicalismo ainda é viável, ele ainda existe, ou ele já pode ser considerado datado?

Não, não. Olha só, na verdade o tropicalismo, Caetano e Gil, é a plenitude daquela afirmação do José Bonifácio: é a amálgama. É estar além da multidiversidade e além do multiculturalismo. O tropicalismo, e isso o próprio Caetano diz, é a plenitude total. A cultura indígena do Brasil é imensa, imagine, nós temos um marechal que é índio e que se chama Rondon e que dizia: “matar jamais e morrer se preciso for”. A cultura nossa é tão original por conta dos Tupis Guaranis, porque para eles, diferente de outros povos, tudo que era novidade, estrangeiro, estranho, era para ser entendido e não destruído. Por isso esse é um dom nosso, ou o mundo se brasilifica ou virará nazista. Então tudo aqui é amálgama.

Citando um verso da música Maracatu Atômico, você se considera a pessoa que segurou o porta-estandarte da arte?

Acho que todos nós! Todos os brasileiros! Meus pais vieram do holocausto e minha mãe estraçalhada não podia ficar comigo, então durante sete anos eu fiquei nas mãos da minha babá, que era filha de santo e todo o fim de semana eu ia para o candomblé. E lá em seu colo, os tambores tocando, e ela me dizia: “Você e seus pais vieram lá da guerra, daquele sofrimento, mas aqui você vai encontrar seus amigos, seus irmãos”. E o resto eu nem preciso dizer [risos].

 

Entrevistadores: Cassius Nakabashi, Jorge Filholini e Vinicius de Andrade

 

2 comentários sobre “Jorge Mautner: “O mundo não bebe água, não come e não respira sem o Brasil, é o povo brasileiro que vai além da multidiversidade”

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