“Mais Nada se Move em Cima do Papel”: Al Berto hoje, há dezessete anos

alberto4A Arte – em especial a Literatura – contemporânea é um espaço de inovação e intervenção por excelência. É nela e através dela que manifestações éticas e estéticas florescem, numa enxurrada que se renova e quase nunca é a mesma. E isto não só no Brasil, onde a Literatura Contemporânea lustrou nomes como Haroldo de Campos, Dalton Trevisan, Luiz Ruffato e João Gilberto Noll: falaremos de um poeta que também surgiu neste/deste contexto, porém em Portugal.

Desde a instauração de um projeto poético português, engendrado pelo grupo da Poesia 61, que buscava a reestruturação da escrita poética, questionando profundamente a interpretação do real e, por conseguinte, e afastar-se da esfera de influência deixada pelo legado de Fernando Pessoa – que, curiosamente, nascia neste 13 de junho, há 126 anos.

A década de 1970, na poesia das letras portuguesas, assiste a um passeio pelos bosques da sensibilidade e da discursividade: o coloquial e o confessional são matéria de poesia. Vale dizer que isto não foi pouco naquele terreno, que tem seus cânones literários e os escritores tutelares da literatura portuguesa em pedestais inalcançáveis.

É neste contexto que surge Al Berto, que vai revelar, junto de alguns outros nomes de sua geração, não apenas novos estilos e tendências literárias, mas também novos mundos – realidades.

Capa de Lunário

Capa de Lunário

Alberto Raposo Pidwell Tavares nasceu em Coimbra, em 1948, e começaria a publicar suas poesias nos anos 1970, após retornar do exílio em Bruxelas, coincidindo boa parte de sua produção literária com a queda do regime salazarista. Em seus textos, a subjetividade, a individualidade, a experiência e o corpo são os pilares base que dão vida à sua obra. O Medo, uma de suas obras, traz textos com tonalidade autobiográfica e que escancara o desejo, a sexualidade e o corpo. É através desta tríade que o estético é superado e um debate sobre o lugar desta temática, a experiência, e as personagens que nela – e que dela – habitam: a poesia pelos corpos, sentimentos e sexualidades marginais. Daí sobe aos olhos a noite portuguesa, habitada principalmente pelos homossexuais, como que buscando uma segurança nas sombras. Onde encontrar estes marginais? Pelas ruas da cidade.

Dentre prosa, teatro e poesia, Al Berto publicou 23 obras. Ainda que seja quase uma heresia ditar algumas como melhores que outras, as que mais receberam destaque em sua carreira foram O Medo (poesia), Horto de Incêndio (poesia), Lunário (prosa), O Anjo Mudo (prosa) e Apresentação da Noite (teatro).

Em sua poesia, Al Berto e Alberto repelem-se, atraem-se, fundem-se e desligam-se constantemente – o que, na criação, acabou por criar um diálogo com a fotografia e a biografia. Um processo que é, em si, uma vivência errante, marginal, de excessos e, principalmente: desolada e melancólica. A fragmentação da identidade, proposta em sua poesia, aproxima não só os dois Albertos, mas sim todos os corpos que respiram os ares da contemporaneidade.

eis a deriva pela insónia de quem se mantém vivo num túnel da noite, os

corpos de Alberto e Al Berto vergados à coincidência suicidária das cidades.

eis a travessia deste coração de múltiplos nomes: vento, fogo, areia,

metamorfose, água, fúria, lucidez, cinzas

(Al Berto, O Medo, p.11)

Al Berto, ou Alberto, faleceu em Lisboa neste dia, em 1997. Para lembrar os 17 anos – completados hoje – de sua morte, selecionamos alguns poemas do escritor português, uma amostra de sua escrita torrencial, sugestiva, metafórica e enunciadora:

 

Rumor dos Fogos

hoje à noite avistei sobre a folha de papel
o dragão em celulóide da infância
escuro como o interior polposo das cerejas
antigo como a insónia dos meus trinta e cinco anos…

dantes eu conseguia esconder-me nas paisagens
podia beber a humidade aérea do musgo
derramar sangue nos dedos magoados
foi há muito tempo
quando corria pelas ruas sem saber ler nem escrever
o mundo reduzia-se a um berlinde
e as mãos eram pequenas
desvendavam os nocturnos segredos dos pinhais

não quero mais perceber as palavras nem os corpos
deixou de me pertencer o choro longínquo das pedras
prossigo caminho com estes ossos cor de malva
som a som o vegetal silêncio sílaba a sílaba o abandono
desta obra que fica por construir… o receio
de abrir os olhos e as rosas não estarem onde as sonhei
e teu rosto ter desaparecido no fundo do mar

ficou-me esta mão com sua sombra de terra
sobre o papel branco… como é louca esta mão
tentando aparar a tristeza antiga das lágrimas

(Al Berto, in ‘O Medo’)

 

Horto

homens cegos procuram a visão do amor
onde os dias ergueram esta parede
intransponível

caminham vergados no zumbido dos ventos
com os braços erguidos – cantam

a linha do horizonte é uma lâmina
corta os cabelos dos meteoros – corta
as faces dos homens que espreitam para o palco
nocturno das invisíveis cidades

escorre uma linfa prateada para o coração dos cegos
e o sono atormenta-os com os seus sonhos vazios

adormecem sempre
antes que a cinza dos olhos arda
e se disperse

no fundo do muito longe ouve-se
um lamento escuro
quando a alba se levanta de novo no horto
dos incêndios

prosseguem caminho
com a voz atada por uma corda de lírios
os cegos
são o corpo de um fogo lento – uma sarça
que se acende subitamente por dentro.

 

Os Amigos

no regresso encontrei aqueles
que haviam estendido o sedento corpo
sobre infindáveis areias

tinham os gestos lentos das feras amansadas
e o mar iluminava-lhes as máscaras
esculpidas pelo dedo errante da noite

prendiam sóis nos cabelos entrançados
lentamente
moldavam o rosto lívido como um osso
mas estavam vivos quando lhes toquei
depois
a solidão transformou-os de novo em dor
e nenhum quis pernoitar na respiração
do lume

ofereci-lhes mel e ensinei-os a escutar
a flor que murcha no estremecer da luz
levei-os comigo
até onde o perfume insensato de um poema
os transmudou em remota e resignada ausência

(Al Berto, in ‘Sete Poemas do Regresso de Lázaro’)

 

Corpo

corpo
que te seja leve o peso das estrelas
e de tua boca irrompa a inocência nua
dum lírio cujo caule se estende e
ramifica para lá dos alicerces da casa

abre a janela debruça-te
deixa que o mar inunde os órgãos do corpo
espalha lume na ponta dos dedos e toca
ao de leve aquilo que deve ser preservado

mas olho para as mãos e leio
o que o vento norte escreveu sobre as dunas

levanto-me do fundo de ti humilde lama
e num soluço da respiração sei que estou vivo
sou o centro sísmico do mundo

(Al Berto, in ‘A Noite Progride Puxada à Sirga’)

 

A Invisibilidade de Deus

dizem que em sua boca se realiza a flor
outros afirmam:
_______________a sua invisibilidade é aparente
mas nunca toquei deus nesta escama de peixe
onde podemos compreender todos os oceanos
nunca tive a visão de sua bondosa mão

o certo
é que por vezes morremos magros até ao osso
sem amparo e sem deus
apenas um rosto muito belo surge etéreo
na vasta insónia que nos isolou do mundo
e sorri
dizendo que nos amou algumas vezes
mas não é o rosto de deus
nem o teu nem aquele outro
que durante anos permaneceu ausente
e o tempo revelou não ser o meu

(Al Berto, in ‘Sete Poemas do Regresso de Lázaro’)

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