A identidade fragmentada em “O Homem Duplicado”

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Adaptar uma obra de José Saramago para outra mídia é sempre uma tarefa árdua. Exige interpretação do texto que o mestre português transmite, é necessário compreender as metáforas que correm nas suas narrativas sem controle de pontuação e travessão e tomar cuidado com o que a intervenção do narrador propicia no enredo. Diante disso, adaptar uma obra de José Saramago é um desafio complexo, mas quando o resultado convence é sessão garantida!

Dirigido por Dennis Villeneuve, do ótimo Os Suspeitos, O Homem Duplicado, que estreia na próxima quinta-feira (19), é a adaptação do livro homônimo de Saramago, lançado em 2002. No elenco está um brilhante Jake Gyllenhaal, que já havia trabalhado com Villeneuve em Os Suspeitos, em uma interpretação convincente. No filme, Jake é o homem duplicado, no começo acompanhamos Adam Bell, professor de histórica desiludido e solitário tendo uma vida tediosa e sem iniciativa para querer melhorar. Namora uma bela garota, mas nota-se que seu envolvimento é apenas sexual e sem perspectiva de relacionamento sério. É um personagem com dificuldades de identidade em uma sociedade cada vez mais individual.

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Do outro lado da moeda, ou digamos identidade, está Anthony Claire, ator de pouco sucesso que surge para Adam através dos filmes que participou como figurante. Casado e à espera de um filho, Anthony tem uma vida exposta devido a carreira, porém acompanhamos a sua verdadeira face após o encontro com Adam e o acordo exigido pelo ator, que sutilmente transforma o clímax do filme. Lógico que se revelar o spoiler estará evidenciando!

O principal tema que Saramago retratou no livro, e o filme também expõe, é a identidade fragmentada dos personagens. O tom escuro das cenas força o incômodo no espectador, assim como nas sequências embaçadas que denotam a identidade confusa dos protagonistas. Recorrentes durante o filme há metáforas introduzidas em alguns planos sequenciais, principalmente na cena final o que é interessante, pois deixa pontas soltas para a reflexão do espectador. Ora, Saramago utilizou deste estilo em seus livros também, o que pode ser uma homenagem do roteiro ao mestre português.

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O Homem Duplicado é um trabalho ficcional diferente de Ensaio Sobre a Cegueira, dirigido por Fernando Meirelles, estamos diante de um processo construído a partir do caos interno dos personagens, assim como a identidade ambígua que prevalece no filme inteiro. O Homem Duplicado é complexo e exige analisar cada sequência para compreender as ações dos personagens. Villeneuve está se destacando como um diretor seguro, com ótimas cenas em primeiro plano. Outro destaque fica para Jake Gyllenhaal, que interpreta dois personagens complexos e soube interpretá-los de modo impressionante. O Homem Duplicado é uma boa sessão para os leitores do mestre Saramago e os espectadores que curtem um bom thriller psicológico.

 

 

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