Ossos do Ofídio: Os viajantes surpreendentes ou dois sertanejos na França

Entrada da cidade de Saint-Malo.

Entrada da cidade de Saint-Malo.

       Quem disse que trem europeu não atrasa? Atrasa, sim. Agora mesmo, dia 9 de junho, começo a escrever esse texto direto de uma cabine do Trem do Livro, que leva, de Saint-Malo para Paris, os escritores e artistas convidados do Festival Étonnants Voyageurs.

         Ulalá.

         É que o trem chegará à capital francesa apenas à meia-noite. Era para chegar às 22 horas. E eu já era para estar, na verdade, dentro de um avião em direção ao Brasil. Meu trem atrasou, não veio. Daí eu perdi o trem e, consequentemente, o avião. Em plena Copa do Mundo. Só amanhã (dia 10) saberei se conseguirão minhas passagens de volta. A situação anda complicada pelas bandas de nosso país, voos lotados, turismo em alta – e a Copa é culpada.

         Ri. Porque me lembrei do que falei à minha mesa de debate: quem gosta de Copa é a Fifa. O brasileiro gosta é de futebol. Queremos futebol, não queremos Copa. Não a esse custo –deixando à míngua os hospitais públicos, as escolas, etc. Discussões perdidas. O francês não está nem aí para a bola, me disseram. Francês é mais triangular – é só observar a Torre Eiffel, os losangos de um croissant.

        Isso é o que faz o cansaço. Começo a forçar analogias. E começarei a cruzar os assuntos. E a explicar: Étonnants Voyageurs (Viajantes Surpreendentes, traduzindo) é um festival de cinema e de literatura que acontece há vinte anos na cidade de Saint-Malo – a quatro horas de Paris. Neste trem, são quase trezentos convidados. Gente que mora na França, no Haiti, no Japão, na China. Brasileiros convidados foram onze. Entre eles, eu, Raimundo Carrero, Edyr Augusto, Ana Paula Maia, Paulo Lins, João Paulo Cuenca, Patrícia Melo e Luiz Ruffato.

         Digo: Raimundo Carrero veio lançar o seu primeiro romance publicado na França, o “Bernarda Soledade – Tigre do Sertão”. Aliás, foi com este livro, aos 23 anos, que o autor estreou na literatura. 40 anos depois, é esse mesmo livro, traduzido por Hubert Tézenas, que lhe abre as portas. À minha frente, por exemplo, o companheiro de viagem é o escritor francês Michel Piquemal. Ele não fecha por nada as páginas de “Bernarda” – desde que as pegou para ver, há pouco, e não para de ler. Durante a dura viagem. Prêmio melhor para um escritor não há, diz Carrero ao meu lado direito. Um herói sertanejo esse meu antigo mestre, que enfrentou a viagem com alegre fúria e determinação. À sua frente está, e ele não cansou, nem cansa de dizer, publicamente, “a melhor mulher do mundo”, sua esposa, Marilena Castro.

Eu e o escritor Raimundo Carrero na casa da editora francesa Paula Salnot.

Eu e o escritor Raimundo Carrero na casa da editora francesa Paula Salnot.

         Assim, na lata, resolvo contar uma piada: Carrero, sabe o que um escritor brasileiro falou para um escritor francês? Você é um pão. E rimos. Comendo um kit sobrevivência. Distribuíram uma caixa para matar a fome dos artistas: biscoitos, torradas, água mineral, suco, docinhos de goma.

         Ouço ainda a barriga roncar. Prometo encher a cara ao chegar em Paris. Só para me vingar. E para comemorar – mesmo com esses entreveros ferroviários – a grande viagem. Essa de fazer outros amigos, conhecer outras paisagens. Saint-Malo é uma cidade de construção medieval. Cheia de piratas. Pelo menos é a memória que ali se guarda: nas lojas de souvenirs. Antonio Torres, escritor imortal, querido amigo meu e do Carrero, nos avisa direto do Rio de Janeiro, via Face: não esqueçam de tirar por aí uma fotografia da estátua do Usurpador. Sim, o pirata francês, René Duguay-Trouin, que, em 1711, invadiu o Rio e cobrou caro para deixar o povo fluminense em paz – muito ouro que o Brasil teve de pagar.

         Passa boi, passa boiada. É o que avistamos, ao longe. Casas belas e solitárias. A vida rural francesa. Parecida com a pastagem que avistamos pelo Sul do Brasil – e até pelo Nordeste, digamos. Carrero diz que tudo é igualzinho a Salgueiro, sua terra natal. Eu já defendo que aqui corre a rara água de Sertânia.

Sede, sede.
Secura.

         Encontro rico e frutífero foi o que eu tive com a cearense Andrea Santana (sou amigo da irmã dela, a fotógrafa Bel Santana, casada com o escritor Joca Reiners Terron), que mora na França há 15 anos. É cineasta. Participou da nossa mesa de debates, ao lado de seu marido, também cineasta, Jean-Pierre Duret, e do escritor e diplomata João Almino. Andrea mostrou o documentário “Romance de Terra e Água”, sobre pequenos agricultores do interior do Ceará.

         Salve, salve, amém, saravá!

         Eu vim para lançar, mais uma vez na França, o livro “Nossos Ossos”. A tradutora é Paula Anacaona. Ela tem feito história. Na raça idem. Além de tradutora (e ótima intérprete), é editora. Só publica quem está fora dos grandes catálogos. É responsável pela invasão da literatura da periferia de São Paulo na França. Já publicou Ferréz, Alessandro Buzo, Rodrigo Ciríaco. Foi ela quem trouxe para cá o meu livro e o de Raimundo. Trouxe também Raquel de Queiroz, José Lins do Rego, Ana Paula Maia. Tudo pela Editora Anacaona. Alguém precisa fazer um perfil, urgente, para o Brasil, dessa grande “guerrilheira” – apaixonada pela literatura brasileira. Livros, apresentados a ela, pelo incansável militante e viajante Paulo Lins.

Linhas e linhas depois, ufa!
O Trem do Livro finalmente chega a Paris.

         Na chegada, enfrentamos chuva os sertanejos, eu e Carrero. Comovente vê-lo em pé, para cá e para, enfrentando o ziguezigue de uma viagem como esta (ele que, heroicamente, e com dificuldades de locomoção, se ergue depois de um AVC). E enfrentando a falta de uma melhor logística. O festival é grande, mas carrancudo. Pouco sensível, digamos. Deixando cada um por si – e todos por um. A gente se junta para enfrentar o mau-humor francês, por exemplo. A antipatia do recepcionista do hotel, que não encontra a minha reserva feita. Só tomando, ave nossa, uma cerveja. Saímos eu, Paulo Lins e Maurício Hora. Fechando os bares já fechados ao redor. Uma porta de um cubículo tailandês se abre para o trio de brasileiros. Doidos para encher a cara. Para esquecer, de alguma forma, a árdua batalha. E para lembrar que, apesar de tudo, estamos em Paris.

  Estou feliz, feliz.

         Mas não durmo rápido. Depois do quarto devidamente arranjado, é quase de manhã e os martelos trabalham. O hotel, em reforma, bate nos meus ouvidos, à porta. Infernal. E só saberei se conseguirei voo assim que acordar, já dia 10 de junho, uma terça. Ao meio-dia pedem que a gente já esteja na recepção. A diária acabará. E o voo só sairá depois das 23 horas. Sim, está garantida. Haverá uma poltrona, via TAM, para mim ao lado de outros surpreendentes viajantes. Holandeses, croatas, espanhóis, chineses… Todo mundo vindo para a Copa das Copas.

         Paula, a editora, nos convida gentilmente a esperar passar as horas em sua casa. Lá, nos entrincheiramos na sala. E ali, ao lado de Raimundo Carrero, por um instante agradeço pela amizade que nos une há tantos anos. E pela mesma teimosia de que fomos gerados.  Nem contarei que a viagem foi longa até a volta a São Paulo. De que pegamos um táxi errado. Que a mala de Carrero e Marilena demorou a ser encontrada no terminal de Guarulhos. Não conto também que briguei na recepção do hotel, à saída, bati na mesa, misturando português com espanhol. Ninguém entendeu nadinha da minha língua. Mas de grito todo mundo, em todo o mundo, entende. Meu coração não perdoa a má-educação, quando bate, assim, agitado. É tanto assunto no juízo. Nem deu tempo de dizer que o público era grande, atento e simpático. Sim, renderia, aqui, em um outro dia, uma outra crônica de viagem.

Viagens, afinal, não faltarão.
Desde que saí (saímos eu e Raimundo Carrero) cada um de seu lugar. Cada um de seu Sertão.

P.S. Hoje, segunda-feira, dia 16 de junho, termino esse texto às vésperas de mais um jogo do Brasil na Copa do Mundo. Oui, estamos tendo Copa. C’est la vie.

marcelinofreire

2 comentários sobre “Ossos do Ofídio: Os viajantes surpreendentes ou dois sertanejos na França

  1. Pingback: Ossos do Ofídio: Os viajantes surpreendentes ou dois sertanejos na França | Áfricas - orgulho de ser!

  2. Achei o post bem legal. Mas ainda acho que a questão não é se os trens na europa atrasam ou não como aqui. O que penso é que aqui não podem atrasar. O ponto, de onde vejo, é que temos que parar como essa referência externa que define por nós o que é bom ou ruim.

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