Moçambique: a independência política e literária

2222Moçambique

“[…]
– Já caiu alguém dos andaimes?

O pausado ronronar
Dos motores a óleos pesados
E a tranqüila resposta do senhor empreiteiro:
– Ninguém. Só dois pretos” (“Ninguém”, Obra Poética I, Craveirinha).

A arte, passo a passo com a sociedade, tem o poder de esclarecer e modificar contextos. É por isso que ela é capaz de motivar revoluções, apontar mudanças de caminho ou esmiuçar as virtudes e as mazelas de uma nação. Hoje, no aniversário da independência de Moçambique, o Livre Opinião – Ideias em Debate relembra um pouco do processo de libertação do país de seu colonizador Portugal, trazendo alguns autores que contribuíram com este processo e que também despontam como grandes escritores não apenas moçambicanos, mas universais.

A independência

Bandeira da FRELIMO.

Bandeira da FRELIMO.

Com ideologias comunistas e anticoloniais espalhando-se pela África, muitos movimentos políticos clandestinos eram empreendidos em busca da Independência Moçambicana. Estes movimentos afirmavam que as políticas e planos de desenvolvimento, praticados por autoridades do governo, eram voltadas apenas para o benefício dos portugueses que viviam no país, quase nenhuma atenção era dada à integração das tribos moçambicanas e ao desenvolvimento das comunidades nativas. A maioria da população autóctone era rechaçada pelas estruturas existentes no país, que sofria tanto com a discriminação patrocinada pelo Estado, quanto pela enorme opressão socioeconômica. Estatisticamente, os brancos portugueses de Moçambique eram muito mais ricos e qualificados do que a maioria negra nativa e a guerrilha intentava inverter esta situação. Como resposta ao movimento guerrilheiro, o governo português iniciou mudanças graduais, com novas políticas socioeconômicas a partir da década de 1960 e, principalmente, da década de 1970.

A Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO) iniciou uma campanha de guerrilha contra o governo português em setembro de 1964. Este conflito, juntamente com os outros dois já iniciados nas então outras colônias portuguesas Angola e Guiné-Bissau, tornou-se parte da chamada Guerra Colonial Portuguesa (1961-1974). Do ponto de vista militar, o exército português manteve o controle dos centros populacionais, enquanto as forças de guerrilha procuraram espalhar a sua influência em áreas rurais no norte e no oeste do país.

Após dez anos de guerra e com o retorno de Portugal à democracia através de um golpe militar de esquerda em Lisboa, que substituiu o regime do Estado Novo em Portugal por uma junta militar (a Revolução dos Cravos, de abril de 1974), e na sequência dos Acordos de Lusaka, a FRELIMO assumiu o controle do território moçambicano. Moçambique tornou-se independente de Portugal em 25 de junho de 1975. Após a independência, a maioria dos 250 mil portugueses que viviam em Moçambique deixaram o país, alguns expulsos pelo governo, outros fugindo com medo.

A literatura

mala-maputo-3A literatura moçambicana, como as demais literaturas africanas nos países colonizados por Portugal, foi, em sua maioria, uma extensão da literatura portuguesa – no início, tanto nos moldes formais, quanto no que compete ao uso da língua. Na escrita, a produção literária se concentra, a partir da década de 1940, em periódicos publicados por intelectuais e escritores, em geral de contestação ao colonialismo português, a exemplo do Brado literário que circulou no país entre 1918 e 1974 com textos de Rui Nogar, Marcelino dos Santos, José Craveirinha, Orlando Mendes e Virgílio Lemos. No século XIX, a imprensa e a literatura estiveram próximas, sendo a primeira uma alternativa profissional para os escritores que não podiam sobreviver da produção literária. Em 1975, quando Moçambique finalmente se tornou politicamente independente, o país ainda desconhecia o conceito de “sistema literário”, cunhado por Antonio Cândido, que postula que um sistema literário passa a existir quando um grupo de escritores escreve para um público que reage influenciando-os a produzir novas obras, e assim sucessivamente.

As literaturas africanas de língua portuguesa por sua busca de uma identidade nacional no contexto das lutas contra o colonialismo: pensar a identidade cultural do país não como colônia, mas como nação independente, com autonomia política, econômica, cultural e religiosa. Entre 1964, quando teve início a luta armada de libertação nacional, até 1975, quando Moçambique conquistou sua independência política, a literatura voltou-se para a própria história e seus fatos, a luta armada e a revolução. É também nos autores moçambicanos que vamos encontrar o que, segundo Terezinha Taborda Moreira, é “[…] a unidade temporal de uma ação total e completa: a experiência humana do homem moçambicano inserido no seu tempo. Síntese do heterogêneo, caracterizado pela tríade passado/presente/futuro, a narração assume o estatuto de uma metáfora da existência humana […]”.

Também é nela que, na estética, emergem os aspectos culturais autóctones. A inserção dos dialetos nativos na literatura, a criação, os neologismos e as imagens e símbolos que integram as culturas moçambicanas nativas constroem uma certa identidade da literatura moçambicana.

Leia também:

Mia Couto é leitura obrigatória para vestibular Unicamp 2016
Professor do curso de Letras da UFSCar lança livro de ensaios sobre literaturas africanas
A confissão da leoa e o rugido dentro da mulher

Mia Couto

posfacio.com.brNascido na Beira, em Moçambique, no ano de 1955, António Emílio Leite Couto (Mia Couto) é biólogo e escritor. Frequentou, de 1971 a 1974, o curso de Medicina em Lourenço Marques (hoje Maputo), um ambiente racista muito vincado. Àquela altura, o governo moçambicano exercia grande pressão sobre os estudantes universitários, situação que o leva a colaborar com a FRELIMO.

Após a Independência Nacional, em 1975, ingressou na atividade jornalística, dirigindo três veículos de comunicação: Agência de Informação de Moçambique (1976 a 1979), Revista Tempo (1979 a 1981) e Jornal Notícias (1981 a 1985).

Mia Couto é hoje o autor moçambicano mais traduzido e divulgado no mundo e um dos autores estrangeiros mais vendidos em Portugal. Suas principais obras são Raiz de Orvalho (1983) – livro de estreia do autor, intimista e lírico, como que uma contestação do domínio absoluto da poesia militante em Moçambique –, seguido por Cada Homem é uma Raça (1990), Terra Sonâmbula (1992), A Varanda do Frangipani (1996), O último Voo do Flamingo (2000), Um Rio Chamado Tempo, uma Casa Chamada Terra (2002), O outro pé da sereia (2006) e A Confissão da Leoa (2012).

Poema Mestiço

escrevo mediterrâneo
na serena voz do Índico

sangro norte
em coração do sul

na praia do oriente
sou areia náufraga
de nenhum mundo

hei-de
começar mais tarde

por ora
sou a pegada
do passo por acontecer.

Terra Sonâmbula

“A paisagem se mestiçara de tristezas nunca vistas, em cores que se pegavam à boca […] Aqui o céu se tornara impossível. E os viventes se acostumaram ao chão, em resignada aprendizagem de morte. A estrada que agora se abre a nossos olhos não se entrecruza com outra nenhuma. Está mais deitada que os séculos, suportando sozinha toda a distância” (p.9).

Abaixo a entrevista que o autor concedeu ao programa Roda Viva, da Rede Cultura.

Craveirinha

jose-craveirinhaNascido em Maputo, filho de pai branco e de mãe negra, o poeta, ensaísta e jornalista José Craveirinha teve apenas a formação primária enquanto menino. Ainda assim, influenciado por seu pai, grande apaixonado de Zola, Victor Hugo e Junqueiro, passou a fazer em casa o curso que o irmão fazia no ensino secundário. Trabalhou como jornalista no Brado Africano, mas veio a colaborar depois no Notícias. Foi também revisor no Tribuna, Notícias da Beira, Voz de Moçambique e no Cooperador de Moçambique. Neste último publicou uma série de ensaios abordando o folclore moçambicano e que acabaram por se tornar uma das maiores contribuição para os estudiosos do tema em Moçambique. Mas foi na poesia que Craveirinha se revelou como um dos maiores escritores do país – quiçá até mesmo da África lusófona. Estreou na poesia ainda no Brado Africano, em 1955, seguindo-se a publicação de seus poemas no Itinerário de jornais e revistas de Angola, Portugal (Mensagem e Casa dos Estudantes do Império) e Brasil, principalmente.

Figura em todas as antologias de poesia africana de língua portuguesa que desde então se publicaram e também em muitas antologias de poesia africana de todas as línguas. A sua estreia em livro deu-se com Chigubo, publicado em 1964 em Lisboa e apreendido pela PIDE para ser utilizado como prova condenatória ao período que ficaria preso, entre 1965 e 1969. Recebeu, em 1991, o Prêmio Camões e fica próximo a Mia Couto no número de traduções de suas obras. Seus principais livros são Chibugo (1964), Karingana ua karingana (1974), Cela I (1980) e Poemas da Prisão (2004).

Quero Ser Tambor

Tambor está velho de gritar
Oh velho Deus dos homens
deixa-me ser tambor
corpo e alma só tambor
só tambor gritando na noite quente dos trópicos.

Nem flor nascida no mato do desespero
Nem rio correndo para o mar do desespero
Nem zagaia temperada no lume vivo do desespero
Nem mesmo poesia forjada na dor rubra do desespero.

Nem nada!

Só tambor velho de gritar na lua cheia da minha terra
Só tambor de pele curtida ao sol da minha terra
Só tambor cavado nos troncos duros da minha terra.

Eu
Só tambor rebentando o silêncio amargo da Mafalala
Só tambor velho de sentar no batuque da minha terra
Só tambor perdido na escuridão da noite perdida.

Oh velho Deus dos homens
eu quero ser tambor
e nem rio
e nem flor
e nem zagaia por enquanto
e nem mesmo poesia.
Só tambor ecoando como a canção da força e da vida
Só tambor noite e dia
dia e noite só tambor
até à consumação da grande festa do batuque!
Oh velho Deus dos homens
deixa-me ser tambor
só tambor!

Grito Negro

Eu sou carvão!
E tu arrancas-me brutalmente do chão
e fazes-me tua mina, patrão.
Eu sou carvão!
E tu acendes-me, patrão,
para te servir eternamente como força motriz
mas eternamente não, patrão.
Eu sou carvão
e tenho que arder sim;
queimar tudo com a força da minha combustão.
Eu sou carvão;
tenho que arder na exploração
arder até às cinzas da maldição
arder vivo como alcatrão, meu irmão,
até não ser mais a tua mina, patrão.
Eu sou carvão.
Tenho que arder
Queimar tudo com o fogo da minha combustão.
Sim!
Eu sou o teu carvão, patrão.

“Grito Negro”, lido pelo próprio Craveirinha, no Festival Internacional de Poesia de Medelim

Paulina Chiziane

paulina_chizianeNascida em Manjacaze, Moçambique, em 1955, estudou Linguística em Maputo, mas não concluiu o curso. Ficcionista, publicou vários contos na Página Literária e na revista Tempo. Publicou o seu primeiro romance, Balada de Amor ao Vento em 1990, que é também o primeiro romance de uma mulher moçambicana. Ventos do Apocalipse foi publicado em 1995 pela própria autora e pela Editora Caminho em 1999. O Sétimo Juramento e Niketche foram publicados em 2000 e 2002, respectivamente – Niketche é editado também pela Companhia das Letras aqui no Brasil. Em seus textos, Chiziane tece a voz da narrativa como numa mistura com a de todas as mulheres moçambicanas, um grito, uma expressão até então ceifada delas. Suas principais obras são Balada de Amor ao Vento (1990), Ventos do Apocalipse (1993), O Sétimo Juramento (2000), Nikeche: Uma História de Poligamia (2002) e O Alegre Canto da Perdiz (2008).

Balada de amor ao vento

“A voz parecia vir das profundezas da terra e até assustou os mochos e corujas com o seu ribombar. É o meu marido que me chama. Regressei voando, coloquei-me de joelhos perante o meu soberano, baixei os olhos como manda a tradição […]” (p.55).

O alegre canto da perdiz

“- Calma, criaturas. Não houve presságio nenhum na guerra que foi, mas morreu gente. Não houve anúncio na seca que findou, mas houve tormenta. Não houve profecias misteriosas antes da praga de gafanhotos que dizimou os campos e nos matou de fome.

A voz da mulher do régulo era chuva fresca. Tinha o poder de serenar multidões. Era o poder das ondas mansas embalando as embarcações na valsa da brisa. […]

– Ela trazia uma boa nova escrita do avesso – garante a mulher do régulo. – Mensagem de fertilidade. Essa maluca era a verdadeira mensageira da liberdade, minha gente” (p.20).

Entrevista de Chiziane concedida à TV Brasil

Anúncios

4 comentários sobre “Moçambique: a independência política e literária

  1. Pingback: “Esta África tomou conta de mim desde menino”, diz Mia Couto em entrevista o Livre Opinião | Livre Opinião - Ideias em Debate

  2. Pingback: “Esta África tomou conta de mim desde menino”, diz Mia Couto em entrevista ao Livre Opinião | Livre Opinião - Ideias em Debate

  3. Pingback: [LITERATURA] | vinteculturaesociedade

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s