Criado-Mudo

torpedo-celular-mensagemOutro telefonema. Mais uma resposta da minha investida num site de relacionamento. Foi assim: Um dia, o link abriu misteriosamente na minha página. Parecia sinal do divino. Nunca nenhum desses encontros deu certo. Sem chance. Eu não atendo número desconhecido. Nem os conhecidos eu atendo. Não escuto tocar. Fazem semanas que o aparelho é apenas uma luz piscante estagnado em cima do criado-mudo. Eternamente no modo de vibrar.

Devem pensar que eu morri.

Vinte e três recados na caixa postal. O acúmulo é tão grotesco que às vezes me dá fadiga de acessar. Escuto o primeiro segundo de cada mensagem e apago. Só me interessam as primeiras sílabas. Consigo identificar pela voz. Se for um tom desconhecido, fico animada. Gasto as horas especulando a probabilidade de dar certo um encontro com uma pessoa que eu nem conheço. Essa é a graça.

– Alôu?

Opa! Um alô meio ridículo. Bastante indeciso. De uma timidez contagiante.

Decididamente havia uma tremedeira súbita na corda vocal.

– Fiquei Bastante Interessado no seu perfil.

Hum, meu perfil falso. Só a foto é minha. Criei uma mulher que tem uma estopa no lugar do cérebro. Que assiste filmes americanos na base da pipoca amanteigada, faz yoga de calça jeans na praça pôr do sol e trabalha num centro de estética. Descolada mas não culta, esportista, mas não fanática, quarentona mas não acabada. Amplia as possibilidades. Atrai uma legião de esquisitos dos tipos mais variados.

– Topa uma cerveja no fim de tarde?

Desliguei. Mais um bastardo.

Odeio bebida alcoólica. Tenho horror de gente que bebe. Eu sei, isso me limita a dois por cento da população. Na minha opinião, dois por cento que valem a pena. Não tenho nada para trocar com um sujeito que precisa de estimulante para falar. Daqueles que começa a rir alto depois que perde o filtro. E fica olhando para as mesas do lado em busca de aceitação. Sabe o tipo que se sente macho só depois da terceira rodada? Então. Happy hour me deprime. Muita gente falando ao mesmo tempo, um festival de histórias mirabolantes, 80% tudo mentira. Uma confusão de copos em cima da mesa. Sempre tem um nojento que confunde o copo e coloca a boca infestada de bactéria no meu. Ambiente muito impessoal. Esse cara não queria me conhecer, queria me dopar e me levar pra cama. Um cafajeste comum, que usa jeans e camisa social listrada com os três primeiros botões abertos mostrando o escapulário e toda fé que ele não tem em deus. E que fuma a tragos profundos com o olhar boiando no silêncio entre uma baforada e outra, para compensar a escassez de assunto.

Um desastre. Imagina dar de cara com isso. O trabalho para dispensar. Sem chance. Muito previsível.

Doze mensagens deletadas na seqüência. Mãe, pai, dois irmãos e a avó para fechar com chave de ouro. Provavelmente uma dessas obrigações sociais como aniversário do sobrinho ou enterro de um tio que nunca vi e, reza a lenda, a família toda tem que estar presente. Quando as ligações de um mesmo núcleo de gente são insistentes e sequenciais, duvide.

A outra ligação que me chamou a atenção começava com uma risada. Ou era um engasgo. Ou os dois. Não sei.

– Hey, e aí, tudo bom?

O tom de animação me dizia que beirava entre 28 e 32 anos, a risada me dizia que não estava sozinho quando ligou, e o “Hey” me deu a má impressão de que era a décima ligação seguida que ele fazia marcando um encontro. Já tinha ido o oi, o olá, o Hello, o opa, me sobrou o Hey. Fim de lista mesmo. Sujeito jovem, despreocupado e insistente. Gostei. Quem sabe ele tem alguma coisa a dizer. Esses desesperados são os mais engraçados.

– Te vi aqui no site, te achei linda..

Gostei. Pelo menos a foto era minha mesmo. Dois pontos para ele.

– Sexta vou viajar pra Praia Grande e gostaria…

Desliguei. O desgraçado era surfista? Praia é o fim. Praia Grande então, nem vou comentar. Tenho uma impressão muito ruim de areia. A última vez que fui, foi um desastre. Minha visão da praia: família completa. Dois coolers. Duas bolsas térmicas. Isopor médio. Mesa cadeira copos. Uma barraca de sol digna de virar moradia. Aceita queijo coalho? Não. Raspadinha de água suja? Não. Carro alegórico vendendo canga, óculos, vestidos, shoyo, aceitamos cartão de crédito. Não, obrigada. A visão do inferno: de dentro do isopor sai a garrafa térmica. De dentro da garrafa térmica, para o meu espanto e desespero, despenca um macarrão amanteigado em cima do prato. Quer dizer…

O que vem a ser macarrão dentro da garrafa térmica? Eu presenciei a evolução do frango com farofa.

Nesse dia percebi que praia, areia e macarrão na térmica não eram pra mim. Surfistas estavam eliminados da lista.

As dez mensagens seguintes eram de uma mesma pessoa. Não consegui distinguir qual pessoa que era, mais sei que me era muito familiar. Começava todas as mensagens da mesma forma. Um silêncio. E depois um grito.

– Atende essa merda!

Achei mais suspeito que curioso. Gritava com a mesma intensidade do primeiro ao décimo recado. Embora houvesse uma rouquidão em progressão do sétimo ao último grito. Achei um gesto bonito. Coisa de quem gosta do mesmo. Zerei a caixa postal. Renovei meu perfil com uma foto três anos mais jovem. Aumentei minhas probabilidades. Coloquei o telefone para carregar. Apoiei no criado-mudo. Chequei se estava ligado. Se estava vibrando. Se estava em cima de um paninho pra não gemer contra a Madeira. Dei uma última olhada nas mensagens. Não. Nada.

Virada de costas.

Para o criado sempre mudo.

Por Marina Filizola

2 comentários sobre “Criado-Mudo

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