TDHA

TDHA-e1354700480503Atrasado. Chegou atrasado de novo e não foi minha culpa.

Peguei ele na porta do prédio, como combinamos. Dois palmos de cabelo encrespado cobrindo o rosto, bigode molhado, camiseta encardida virada do avesso, um suspiro de mau humor de pré-adolescente insatisfeito com seus três pelos pubianos, e um cheiro de sovaco vencido que pelo amor de deus. Uma coletânea rara de todos os azedos mais indecentes que existem no perímetro de Cubatão até Santos. Me direciona um oi arrastado de entonação suspeita banhado no hálito de estômago ácido que atravessa a garganta preguiçosa num ato heroico. E embora a janela escancarada, o cheiro desgraçado e a cara de enterro, não pude engatar a primeira da libertação. A marcha do vento na cara. Do fim do sufocamento. Notei a mochila da escola do lado de dentro da portaria. Imunda, entre o muro e a grade, caída de ponta cabeça com cara de abandonada a troco de qualquer borboleta mais interessante.

Falta nada?

Como assim.

Presta atenção, a mochila.

No porta luva do carro a banana enrolada no alumínio esperou guerrilheira seu fim eminente. Quase desceu com casca. Três mastigadas e duas amassadas de língua contra os dentes cheios de ferro. Engoliu duro e empurrou com água. O arroto de satisfação saiu pelo nariz e empestiou o carro com o cheiro do frango frito caprichado na cebola. Não sei de onde vem tanta fome.

Frango de novo?

Acebolado. Coberto de catchup.

Um nojo esse percurso casa-escola. Sete minutos e tantos cheiros duelando no mesmo ambiente por uma fresta qualquer. A definição única de todo meu desespero é: falta  espaço para tanto cheiro. Na porta da escola o alivio. 500 segundos de convivência, para mim, são suficientes pra saber que um fim de semana inteiro é inegociável. E é isso.

Desce moleque. Se cuida. Se der problema, liga. Te conheço.

Tá. Mesmo número, né tia?

É. O mesmo dos últimos 5 anos. Tchau.

Do lado de fora do carro parou estagnado de bunda para janela. Mochila desbotada nas costas corcunda e uma posição de perplexidade de quem deixou o cheeseburger cair no chão.

Que? Entra logo. Tocou o sinal.

Três segundos de cabeça baixa e a virada engessada seguida de um olhar penetrante de quem quer anunciar a pior notícia da tarde. Que por sinal me desconfigurou.

Que foi?

Esqueci de pôr tênis tia. Tô descalço. Não vão me deixar entrar.

Silêncio. Silêncio bruto. Minha vontade foi sair gritando, chacoalhar o moleque e evaporar. Mas não. 14 anos. A mais esquisita das idades. Nem criança nem gente. Uma confusão entre espinha e brotoeja, arrepio e tesão, Harry Potter e Crepúsculo. Pura turbulência hormonal. Um caos. Eu também já tive, nem adianta discutir. Falar o quê? “Moleque, seu burro, como você consegue esse tipo de proeza? Esquecer o tênis, esquecer a mochila, tudo, como.” É. Num tem argumento. Dá pra ver que nem ele entende como. Nessas horas o bom senso me diz que é melhor ter paz do que ter razão.

Acelerei com fé. Baixei 60 segundos do meu tempo recorde. Um minuto a menos em alguns casos é o que faz a diferença entre sentir ânsia ou vomitar. O moleque atrasado, elevador não está no térreo, espera a geringonça, sobe em casa, a chave ficou na mochila no carro, desce, espera a geringonça, sobe de novo, a porta emperra, 5 minutos para girar a chave, põe o crocs desbotado, desce, esquece a chave na porta, sandália não pode, sobe de novo, coloca o tênis, tranca a porta, chave no bolso, sente o bafo no espelho do elevador, e senta mudo do meu lado. Suando vinagre azedo e chulé mofado de tênis velho. O bigode pingando. A camisa ensopada no sovaco. Fedendo 3 vezes mais que camelô da 25 de março. E arrastando um pum companheiro que soltou no elevador treze segundos antes, resultado da tensão que a situação toda causou.

Vai mal a digestão companheiro?

Hoje não fiz cocô. Travei.

Ah. Tô sentindo.

Além do mais isso. Fiquei numa nuvem de cheiros bizarros e travei a respiração para não dar um trago no oxigênio tóxico. Muda, para evitar o contato da língua com os germes. E tentei diminuir dez segundos do meu tempo recorde a favor da minha sanidade. Confesso que nem sei se fui bem sucedida, o vidro do cronômetro do meu relógio embaçou. Parei na porta da escola e desci do carro para tomar fôlego e iluminar o espírito, que estava descolando do corpo. O menino saiu do carro aliviado. Tropeçou no cadarço, ajeitou a mochila, chacoalhou a cabeleira, coçou a bunda, olhou para trás, deu um sorriso despreocupado e acenou todo torto segurando a bermuda sem elástico com a braguilha toda aberta. Virou.

Tchau moleque. Amanhã te pego de novo. Vamos tentar chegar na hora.

Tá. Te amo.

Se arrastou escola adentro.

Por Marina filizola

 

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