… aí já viu

O menino escangalhou com a perna. Acredita? É. De novo. Bem a perna que já era toda remendada, lembra, aquela que ele manca, a da esquerda, toda defeituosa toda estranha toda-torta, que a gente virava o rosto quando ele aparecia de shorts, que não dobra não estica não presta, que o calcanhar nem chega na bunda por causa do punhado de pino que tem por dentro. O Zé macaco, pai do Macarrão, esse mesmo, o Macarrão de sardinha no nariz e cabelo ruim, azarado, que acertou o pé com a pá no dia que capinou o jardim lá de casa em troca de dois litros de leite e xingou até o bisavô enterrado, sabe, o pai dele que disse que a canela do menino é uma baita barra de ferro, já pensou, a pessoa ter ferro por debaixo da pele, que coisa esquisita. Até proibiram ele de bater bola lá no campinho de quinta a noite, aquele campinho atrás da capelinha, aquela que a Dona Tereza casou a filha encalhada, que tem um altar cheio de rosa orquídea violeta flor-de-liz, que é a coisa mais linda desse mundo, sabe, uma judiação proibirem ele de jogar. Porque toda quinta eles reúnem a macacada pra uma pelada que tem até juiz e eles fazem churrasco e falam abobrinha pelos cotovelos, e ouvem musica sertaneja ruim que até montaram uma bandinha chamada Sacolejo-Legal que é afinada e tudo mais, precisa de ver, e tomam tubaína e guaraná Jesus quente no gargalo, é, quente, que na venda num tem rerigeração nem luz nem nada então tomam quente mesmo e ficam arrotando grosso que dá até pra ouvir da rua. Bom, tudo por conta que da ultima vez que teve pelada-arranca-toco no campo, a canela dele esbarrou só de leve, de relance, de lado, no pé do coitado do Azeitona e esmigalhou o dedão dele, esse mesmo, o Azeitona filho do Zé Caetano -o filho do meio que é mais bonito mais ajuizado mais direito- esmigalhou em quatro pedaços, fora a unha pendurada que ficou balangando quando ele arrancou a meia que estava grudada na pele e no tênis velho, o mesmo tênis acredita, aquele vermelho com rombo no bico que ele usa desde mil-novecentos-e-guaraná-com-rolha, forrado de barro de toco de mato e resto de pele morta. Imagina que o coitado, que era até o melhor do time, teve a infelicidade de fazer uma jogada mal-pensada mal-calculada mal-direcionada e deu uma bica cega meio palmo acima do tornozelo da perna de aço, ó o azar, bem de encontro com a parte recauchutada, acredita, e pra você vê que ele tava de kichute, era sim, tenho certeza que aquela podreira de tênis era kichute, vê que a canela era dura mesmo porque kichute mesmo velho é tênis bom. Ficou uma duzia de dias de molho todo capenga todo manqueta e foi prejuízo que nem podia andar direito, nem de cavalo nem de nada, era só perna pra cima o dia todo, a bunda ficou até quadrada. Num tem como não lembrá, faz mais de ano, lógico que você lembra, estava chuviscando garoa fina naquele julho que fez mais frio que os julhos de todos os outros anos e escureceu quatro da tarde, e os turistas chatos, aqueles que se achavam cowboy e usavam chicote chapéu e chinelo, chi-né-lo, vê se pode que cafona, estavam fazendo trilha de cavalo no morro do Moarama e se perderam no matagal, enroscaram nos carrapicho, e escorregaram no lamaçal e foi um auê que criança chorava, velhinho resfriava, e o guia que num via mais nada chegou aqui atordoado, então. Nesse dia ele saiu cantando-empinando-derrapando-azucrinando com a carcaça da moto velha com aquela mão de chumbo, sem capacete sem luva sem caneleira sem nada. Lembra sim, aquela DT preta toda remendada que fazia um barulho do cão, que todo mundo aqui da rua abria a janela por causa da gritaria daquele motor de garganta afiada, que nesse dia ele saiu todo desembestado como ele sempre saía, que parecia que ia tirar a mãe da forca, que ia perder o trem, que tava atrasado pra chegar no altar. Isso, era época de fim de ano de perú de cachaça de piada-sem-graça, saiu com o Samuel, filho caçula do Zé Caetano, montado que nem sagui na garupa, ele mesmo, o mais moreninho dos irmãos, parece que deu um acelêro de corrida formula 1 na subida de terra que não deu tempo nem de escutar nem de ver nada. E num é que vinha uma jamanta dessas de carregá vaca-zebu-cavalo-jegue, minha virgem maria, deu um encontrão tão grande com a lateral da carroceira, se enroscou nos gancho da caçamba, aí já viu. Foi um terror, que a rótula descolou da perna e era sangue pra todo lado moleque pra todo canto e o Samuel, coitado Santo Cristo pobre do Samuel, que quebrou os dois braços as duas pernas e parecia uma múmia desenterrada depois que foi engessado da cabeça aos pés. A rótula? Acharam sim, tanto procuraram que acharam, ela forrada de poeira de construção de pêlo de cachorro de crina de cavalo, um nojo, cinqüenta metros depois do estardalhaço todo. E num fosse ela aparecer mesmo imunda desse jeito, graças-a-deus-deus-sabe-o-que-faz, tinham cortado a perna do moleque fora, Zé macaco que disse, que quase amputaram as partes do menino, a perna tá ali por milagre, mi-la-gre. Então. Ele. Isso. Era o que eu estava dizendo, esse menino, escangalhou com a perna de novo. Ah que dó, olha o azar, podia ter sido a outra perna, mas não, foi a estragada a toda remendada de novo. Que coisa né, parece destino, recado-do-divino, coisa desse tipo. Fiquei sabendo ante-ontem, isso, pelo fofoqueiro-linguarudo do Zé Macaco, disse que esfarelou o joelho em três partes, isso se não foi mais, vai saber. Aconteceu assim: estava trotando num galope duro lá no matagal, montado no Mandrak, aquele cavalo que espuma pelo nariz, que marcha que nem soldado de guerra, que dá coice na sombra, todo branco, até parece de filme, sabe? Não, esse que você tá pensando é o Cojak, o potro antigo, esse potro foi o que ele trocou na moto DT que se esculhambou na estrada, antes não tivesse vendido, deus-o-livre, o Cojak acabou com a vida dele. O que aconteceu foi que o Mandrak assustou no meio da trilha do Itapeva, bem num pedaço apertado, aquela parte que tem que passar meio de lado meio esmagado, entre a cerca de arame farpado e a arvore de eucalipto que tem um ninho de siriema na copa, sabe, então. Assustou, acho que foi com vespa ou esses bicho peludo que vôa e pica, esmagou a perna do menino contra o tronco aí já viu. E o joelho prensado era o mesmo joelho que já tinha sido consertado, ô azar. Diz que o menino ficou branco de dor, deu apagão tremedeira siricotico e tudo mais. Olha que deus é mais, santa-do-céu, porque dessa vez nenhum dos menino tinham ido com ele, veja bem como são as coisas, e repara que eles sempre andam em bando, vai tentar explicar a coincidência, mas não dessa vez, dessa vez ele estava sozinho-da-Silva, pensa, podia ter desmaiado caído do cavalo batido com a cabeça, e aí já viu. Mas nada. Ficou firme, com aquela dor miserável igual dor de parto, deve ser sim, imagina destroçar os ligamento de aço, ô se dói, chegou na porta da casa que parecia uma folha sulfite de tão pálido. Tá no  hospital de velho, já até operou, os menino rebocaram ele a moto o joelho meio de lado, foi o que disseram, que chegou carregado quase apagado todo dismilinguido, os médicos atenderam na hora. Dizem as más línguas que até foi bom a internação do menino, sabe, parece que tinha desandado na cachaça e num era de hoje, que no dia do acidente tinha tomado umas a mais e que o cavalo fez de propósito, que bicho sente as coisas. Não, ninguém falou nada no hospital, mas também ninguém perguntou, nem tiraram exame de sangue, nada. Foi o Zé Macaco que disse. Que vai ser bom ele ficar de molho. Pra ver se aquieta o faixo. Vai brincando com a sorte, deus-sabe-o-que-faz. Diz que agora ficou com problema de Saudácia nos ligamentos do joelho. Que não dobra não torce não estica não serve mais pra nada. Enferrujou. Ligaram os pedaços com fio de arame passaram uma massa corrida em cima, costuraram, e aí já viu. Parece que o que estava solto, juntaram. E comentaram que o mal da Saudácia, o menino deu até jeito: ele amolece a engrenagem na base da cachaça. Vai vendo. No fim da contas é até bom ele ser cachaceiro. Deus sabe o que faz. Ô se sabe.

Marina Filizola

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