Na ilha de Lesbos: Entrevista com Hanna Korich, diretora de “Cassandra Rios – a Safo de Perdizes”

Hanna Korich

Hanna Korich

O projeto São Cines, na última terça-feira (22), exibiu no SESC São Carlos o documentário Cassandra Rios – A Safo de Perdizes. O filme relembra a trajetória da primeira escritora brasileira a abordar abertamente a relação homoerótica entre mulheres.

Sendo a autora mais censurada na época da ditadura, Cassandra também foi sucesso absoluto de vendas nas décadas de 60 e 70, com mais de um milhão de exemplares vendidos de uma obra.

Após a exibição, o evento contou com um debate e a participação da realizadora do filme, Hanna Korich. Paulistana, advogada e graduada em Comunicação Social com especialização em Rádio/TV pela Faap, Hanna fez parte do Conselho de Atenção à  Diversidade Sexual do município de São Paulo, representando as lésbicas. Em 2008, junto com Laura Bacellar criou a primeira e única editora lésbica da América Latina – Editora Brejeira Malagueta (www.editoramalagueta.com.br). Escreveu junto com Laura Bacellar e Lúcia Facco o Livro Frente e verso, visões da lesbianidade, publicado pela Editora Malagueta em 2011. Foi colunista do site Dykerama, apresentadora, produtora e roteirista do programa de TV por internet As Brejeiras. Idealizou e realizou o documentário/filme Cassandra Rios- A Safo de Perdizes em 2013.

Em entrevista ao Livre Opinião – Ideias em Debate, Hanna falou um pouco sobre seu documentário, a importância de Cassandra Rios e a literatura lésbica. Confira a entrevista na íntegra:

Livre Opinião: Hanna, primeiramente, por que Cassandra Rios? E como surgiu a ideia de realizar um documentário sobre a autora?

Hanna Korich: Eu sou uma lésbica cinquentona que gosta de livros. Descobri a Cassandra apenas nos anos 90, infelizmente. Li vários livros da autora, que só consegui comprar em sebos, e me tornei sua fã. Não me conformava com o desconhecimento por parte da nova geração sobre a Cassandra, principalmente das lésbicas com menos de 40. A Cassandra vendeu mais de um milhão de exemplares nos anos 60 e 70, mais do que Jorge Amado, que a considerava grande romancista e que foi ignorada por puro preconceito! Cassandra abordava as lésbicas abertamente nos seus livros, publicou o primeiro com apenas 16 anos em 1948, é muita ousadia e pioneirismo. Como não havia nada sobre a trajetória dela, livro ou filme, resolvi realizar o documentário, para resgatar a sua existência e importância na literatura brasileira e para que as novas gerações saibam quem ela realmente foi.

Quais as obras fundamentais, em sua opinião, para aqueles que desejam conhecer mais o mundo da Safo de Perdizes?

Olha, indico: Eu sou uma lésbica ( meu preferido), A Serpente e a flor, Ariela, As Traças, Crime de honra e Uma mulher diferente.

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Pôster do documentário

Para além do resgate da memória de Cassandra, ao elencar uma autora perseguida na ditadura pelo conteúdo homoafetivo de seus livros, você também encara este documentário como instrumento de militância para as lutas de diversidade sexual e de gênero?

Sim. Vários depoimentos relatando a trajetória da autora e outros descrevendo a sua personalidade trazem a baila importantes  questões sobre militância LGBTT, diversidade sexual e de gênero. A ação afirmativa de Cassandra, sem dúvida, foi a visibilidade lésbica na vida brasileira, isso desde 1948, com a publicação do seu primeiro livro, que fala e descreve explicitamente o sexo entre mulheres e a relação amorosa entre as mesmas.

Podemos dizer que há um legado deixado pela Cassandra, literariamente falando?

Com certeza, Cassandra foi considerada por muitos leitores mais velhos uma referência quando se trata de informações sobre sexualidade. Suas histórias, mesmo nas décadas passadas, quando poucos autores escreviam explicitamente sobre sexo, já apareciam. Além de ter sido pioneira em retratar as sáficas nas letras brasileiras, o submundo homossexual em São Paulo e os dramas vividos por quem pertencia às minorias. Foi também a primeira escritora brasileira a mostrar a mulher como ser sexual, que sentia tesão, desejo, quebrando a tradição vigente, até então de personagens femininas movidas apenas por amor.

Em sua opinião, por que ainda há uma certa resistência por parte da academia em se debruçar no projeto literário de Rios? Você acredita que isto está mais ligado à forma de escrita escolhida pela autora ou à temática lésbica de seus livros?

Muitos da academia resistem no reconhecimento da literatura da Cassandra. Penso que são vários os motivos. Quando você pergunta se seria pelo fato dela abordar as lésbicas abertamente, pode ser que sim. Evidente que na academia existe homofobia, inclusive a internalizada, daí que pode ser uma das causas do preconceito com os livros da Cassandra. É certo que a academia notou, mas pouco, a importância da obra da Cassandra, alguns reconhecem a sua ousadia, mas acreditam que a sua literatura não é de qualidade notável, não tem valor literário, sua linguagem é pobre e popular.

Você e sua companheira possuem a editora Brejeira Malagueta. Qual a proposta editorial de vocês? E qual foi o impulso para a criação da Brejeira?

Foi pensando em atender as mulheres homossexuais brasileiras em suas necessidades de produtos culturais que falem abertamente de homossexualidade, com elegância e sem discriminação que criamos a Editora Malagueta, hoje Brejeira Malagueta, em agosto de 2008. Trata-se da única editora de livros em toda a América Latina focada especificamente no público homossexual feminino, dedicada a publicar obras de ficção e não-ficção de autoras brasileiras e promover a divulgação dessa cultura específica através de parceiras, eventos e discussões temáticas. O site http://www.editoramalagueta.com.br, vale a visita.

Nossa editora é uma editora de lésbicas para lésbicas, que oferece obras simpáticas de autoras brasileiras, sem preconceito falando de amor e sexo entre mulheres.

Entrevistador: Matheus Torres

Cassandra Rios

Cassandra Rios

3 comentários sobre “Na ilha de Lesbos: Entrevista com Hanna Korich, diretora de “Cassandra Rios – a Safo de Perdizes”

  1. Eu me descobri sexualmente como sendo homossexual lendo o livro de Cassandra Rios, “EUDEMÔNIA”, e devo à ela essa descoberta , sem a qual minha percepção seria bem mais sofrida.

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