O professor e o futebol

professora_quadro_negroO vexame pelo qual a Seleção passou naquele dia será esquecido mais rapidamente do que o Maracanaço, em 1950. Primeiro, porque os jogadores que estavam em campo no estádio Mineirão não ficaram desamparados como os heróis de 1950 após o fracasso; segundo, porque as lágrimas não são necessárias.

Da sala de casa, o professor de literatura e estudante de mestrado – quase um homem sem profissão, na verdade – assistia ao massacre alemão. Levava sua vida na humildade cotidiana, tentando tirar poesia de tudo aquilo que o dinheiro não pode fazer brilhar. Diariamente, ganha e perde suas. “Copas particulares” – desde um horário ônibus perdido a uma oportunidade de trabalho negada, passando por um dia bem aproveitado de estudos (uma conquista). Era jovem, tinha sonhos e honrava a camisa em sua casa. Para defender o sustento de seus pais e o dele, jogava com a 10. Queria ganhar um salário alto, estrelar um comercial de xampu para cabelos masculinos, de aparelho de barbear ou de refrigerante.

O professor lia, se informava e, nas entrevistas, poderia dizer coisas mais interessantes do que “graças a Deus” ou “fiz o que o professor pediu”. Sabia que faltava aos colegas professores, policiais, enfermeiros, entre outros e a ele o olhar de alguém que descubra a promessa que há neles de tornar o país melhor. Assim, transformariam a realidade sofrida do brasileiro. Estava claro que ele também era um craque e que poderia encantar seus alunos com aulas ensaiadas e explicações de placa. Pensou que, se quebrasse um dente ou uma vértebra, certamente sua carreira estaria mais comprometida do que a do nosso grande jogador do momento.

Assistia ao desfile do futebol alemão e pensava na falta que o craque da Seleção fazia àquela altura do jogo. Prometeu para si mesmo que trabalharia e daria o seu melhor no dia-a-dia dos treinos; assim, sobraria tempo e discernimento para compreender que essas “tragédias” do cotidiano como estavam tentando retratar a derrota da Seleção fazem parte do esporte e só acontecem de quatro em quatro anos. Perder para Alemanha por 7 a 1 não o entristecia; tinha a certeza que era preciso resolver as derrotas do cotidiano que são goleadas sofríveis e que muita gente não sabe.

Ao fim do jogo, o professor se viu na várzea e sabia que tinha potencial para dar títulos ao Brasil com a sua profissão. Naquele momento, saiu às ruas para tentar um novo começo com uma ideia na cabeça: “Invistam em mim!”.

Renato Oliveira Rocha

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