Bates Motel

bates_motel__span

Aqueles que nem ao menos viram a icônica cena do esfaqueamento no chuveiro, do filme Psicose (1960) de Alfred Hitchcock precisam se fazer uma pergunta: “O que eu estou fazendo com o meu tempo aqui no mundo?”

Indicado ao Oscar (1961) nas categorias de melhor atriz coadjuvante, melhor direção de arte, melhor fotografia e melhor direção, o longa apresenta muitas outras cenas dignas de nota além da cena do chuveiro: trata-se de uma obra de arte que transformou para sempre o gênero terror. Desde o princípio, quando acompanhamos Marion Crane (Janet Leigh), indo de encontro ao seu assassino Norman Bates, até os esforços de seu amante Sam e sua irmã Lila para encontrá-la e desvendar os mistérios que circundam o Motel Bates, o imperativo é a tensão. Hitchcock mantém controle absoluto sobre o desenvolvimento da história fazendo uso da montagem e do posicionamento de câmera de modo que o suspense seja mantido – desta forma a tensão se transforma na tônica do longa tendo como importante aliada a aterrorizante e aguda trilha sonora de violinos, criada por Bernard Herrmann.

A trama é tão circundada de mistérios que se tornou fértil terreno para sequências de outros diretores, como é o caso de Psicose II (1983), Psicose III (1986) e Psicose IV: O ínicio (1990), bem como Psicose (1998) dirigido por Gus Van Sant – mesmo porque trouxe à tona questões até então consideradas tabu, como a sexualidade. A grande questão é que as verdadeiras obras primas têm essa tendência de ecoar através dos tempos e gerar sequências, citações e adaptações.

Bates Motel (2013), série norte-americana exibida pelo canal A&E, é um dos ecos do Piscose de Hitchcock e já contou com duas temporadas de 10 episódios cada, com a terceira temporada prevista para 2015. A trama começa com Norman Bates, aos 17 anos, e sua mãe, Norma Bates, se estabelecendo no motel que compraram após a morte de circunstâncias duvidosas do pai de Norman. Revisitamos assim o horripilante motel, com a casa no alto da colina, os não menos macabros moradores e suas relações.

Bates_Hotel-1

Cuidado aqui, pois apesar de adentrarmos o mesmo universo ficcional engendrado por Hitchcock, vale lembrar que não é ele o diretor da série (óbvio – o diretor morreu na década de 80): não assista esperando uma montagem e uso da câmera geniais, deixe isso para o mestre. Estamos falando de uma adaptação para a televisão e por isso, o produto final acaba por sofrer metamorfoses em virtude das especificidades desse código. Muito é preservado, muito! Entretanto, algumas tramas secundárias são incluídas para manter o ritmo da série e a audiência, como, por exemplo, novos personagens, o fato de a cidade ser centro da produção de maconha e a disputa entre as grandes famílias produtoras – em momento algum mencionado no original, mas perfeitamente verossímil já que a trama se passa no passado.

O que definitivamente se mantém e que faz com que Bates Motel seja tão apaixonante quanto Psicose (1960) é a tensão e o suspense. Ela não é uma série de ação, é uma série de tensão. Muita tensão. Não há aqui solos horripilantes de violinos, mas um constante sobressalto à espera da aparição de um final que já conhecemos: o Norman Bates assassino. Nós sabemos que ele existe, mas não sabemos quando. Esse é o grande spoiller que a série nos trás logo no título e que nos deixa essa sensação suspensa de angústia. Mais do que isso, nos leva à raiz do transtorno dissociativo de identidade de Norman Bates, nos fazendo questionar a ambígua relação de mútua dependência que ele mantém com a mãe.

Muito dessa tensão é de responsabilidade do elenco (incrível!) da série. Vera Farmiga, diva absoluta, foi indicada ao Emmy em 2013 por seu papel como Norma Bates. É conhecida também por sua indicação ao Oscar (2010) como melhor atriz coadjuvante em Amor sem escalas (Up in the air), no qual contracena com George Clooney. A atriz nos propicia excelentes e intensas cenas dramáticas e sabe muito bem dar vida à complexa, teatral e controladora Norma.

norman_bates_1

Freddie Highmore, responsável pelo papel de Norman Bates, já é conhecido de outras produções como Em busca da terra do nunca (Finding Neverland) e A fantástica fábrica de Chocolates (Charlie and the chocolate factory), nos quais contracena com Johnny Depp e já da mostras da extrema capacidade expressiva. Nas mãos de Freddie, o papel de Norman transpassa a instabilidade psicológica que deveria – as expressões faciais dele o tempo todo denunciam que algo está errado com o garoto. Além disso, há uma incrível sintonia entre ele e Vera Farmiga. Os dois, juntos, conseguem muito bem transmitir a tensão que a série propõe.

Concluindo, Bates Motel é parada obrigatória para os aficionados em séries – e para os cinéfilos também! Não é necessário ter assistido ao filme para ver a série, ela flui muito bem. Entretanto, garanto que ao assisti-lo a experiência se torna muito mais incrível. Além disso, assistir à Hitchcock não é castigo nenhum, né?

Nayara Meneguetti Pires

2 comentários sobre “Bates Motel

  1. ​Assisti apenas à primeira temporada da série, abandonei. Não acho que o problema tenha sido o peso de ter como sombra uma das melhores obras do cinema-suspense da história, mas o mal uso da temática no desenrolar da série. Eles não conseguiram dosar o suspense para tornar a série interessante, com relação ao exagero a deixa enfadonha. O suspense não pode ser previsível, senão não assusta. A caracterização de Norman como um serial killer também incomodou, sendo ele mais jogado para o lado de Dexter do que o do próprio Norman que já é uma referência desse tipo de assassino. Os pontos positivos ficaram para a trilha que realmente acompanha o suspense das cenas, Freddie Highmore é muito parecido fisicamente com Anthony Perkins e tem os mesmos olhos perdidos e inquietantes. Vera Farmiga como Norma, é excelente, a personagem é o contra ponto daquilo que imaginávamos de Norma vivida em 1960. Hoje, com tabus menos castrantes a relação entre mãe e filho, no mais popular Complexo de Édipo, é melhor explorada e nos faz erguer a estrutura que levou Norman (já um solo fértil) a chegar como um dos grandes assassinos dos cinemas. A série é média, e apesar de todo esse brilho do elenco não me deu gás para continuar a assistir. Uma pena!​

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s